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Entrevista: Alessandro Gardemann

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Produção em ritmo acelerado

Presidente da Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás). Administrador de empresas pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP-FGV). Após trabalhar no mercado financeiro, fundou a GEO Energética em 2008. É também sóciofundador da ABiogás, em 2013.

Canal: De que forma o senhor avalia o setor de biogás nos últimos meses?

Alessandro: De maneira muito positiva.  O biogás está definitivamente na agenda de crescimento energético do Brasil por meio do Ministério de Minas e Energia (MME). Estamos ainda incluídos no Programa RenovaBio – um plano nacional do governo para desenvolvimento do setor de biocombustíveis – e importantes projetos saíram do papel e já são referência internacional, como o Aterro de Caieiras (SP), a maior termelétrica da América do Sul abastecida com energia renovável.

Canal: Quais os principais desafios do setor?

Alessandro: Tivemos avanços significativos principalmente no último ano, em que o biogás para geração de energia elétrica cresceu 30% na matriz. Porém temos que agora ampliar a geração nos setores de saneamento e agroindústria.

Também trabalhamos muito para oferecer às autoridades dos setores de energia informações necessárias para que o Brasil elabore uma política pública que reconheça o biogás e o biometano e suas externalidades.

Canal: O ano de 2017 está sendo bom para o setor?

Alessandro: Temos evidências consistentes para acreditar nisso. A regulação do biometano é recente e as primeiras plantas devem entrar em operação durante esse ano. Alguns projetos experimentais passarão a ser comerciais. A indústria de base, de motores estacionários e automotivos já está oferecendo novas soluções no Brasil. Já há automóveis de fábrica, movidos a biometano, assim como caminhões, tratores e ônibus rodando pelo Brasil.

Na geração de energia elétrica, o Sistema Integrado Nacional (SIN) pode se beneficiar de termoelétricas a biogás, gerando próximo às cargas e reduzindo a pressão energética sem a necessidade de grandes blocos de energia, atravessando o país por linhas de transmissão.

No saneamento básico, a possibilidade de biodigestão de esgotos e resíduos orgânicos para geração de biogás é enorme. Existem cerca de dois mil aterros no Brasil todo, mas apenas 15 geram energia elétrica a partir do biogás.

O biogás de aterro é uma das alternativas para gerar energia elétrica nas cidades a partir dos resíduos sólidos urbanos (RSU), pois se trata de uma fonte com produção local e regular. O Brasil tem potencial de gerar biometano como combustível localmente principalmente onde não há gás natural.  O potencial brasileiro de biometano é de 78 milhões de m3/dia. Acreditamos que 50% dos combustíveis utilizados em frotas públicas possam ser a partir de biometano, que poderia abastecer quase 25% da frota nacional ou substituir 44% do diesel consumido no setor de transportes.

Canal: Quais as ações para este ano?

Alessandro: Trabalhamos multilateralmente para fortalecer o setor, seja na busca por novos associados, em uma agenda positiva nas agências reguladoras Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), no planejamento, na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no núcleo de políticas públicas e de estado, no Ministério de Minas e Energias (MME) e nas empresas estaduais de gás e distribuidoras de energia elétrica.

Os conselheiros da ABiogás estão em uma agenda diária de diálogo com os tomadores de decisão apresentando evidências de que essa é uma das melhores fontes de energia do Brasil. Ainda há muito desconhecimento em relação às vantagens da fonte, mas estamos mudando isso promovendo eventos sobre biogás.

Este ano tivemos o Seminário Técnico sobre Geração Distribuída e, para outubro, estamos preparando a maior evento da América Latina sobre biogás e Biometano, o IV Fórum do Biogás.

Canal: As iniciativas governamentais têm incentivado o setor?

Alessandro: Sim. Estamos inseridos nos programas Mais Alimentos e no RenovaBio, o mais importante projeto do MME para mitigação das mudanças climáticas, além de ajudar o Brasil a atingir a meta de descarbonização da economia e incentivar a competitividade tanto econômica quanto ambiental entre combustíveis.

Representantes da ABiogás entregaram nas mãos do ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, a Proposta Nacional de Biogás e Biometano (PNBB), que evidencia todas as vantagens do biogás.

O ministro se mostrou aberto e conectado com as energias renováveis e cumpre com o prometido em dar espaço para o debate da diversificação da matriz.

Essa mudança de paradigma na visão dos planejadores e reguladores do sistema energético brasileiro conseguiu reconhecer a viabilidade econômica e ambiental do biogás. Nas políticas estaduais, São Paulo está trabalhando para admitir o biometano numa mistura ao gás natural, de forma semelhante ao que acontece no Rio de Janeiro.

Canal: Em 2016 a produção de biogás para geração de energia elétrica cresceu 30%. O que motivou esse aumento?

Alessandro: A entrada de importantes projetos em operação. Só a térmica de Caieiras, por exemplo, adicionou 29,5 MW de energia ao sistema, além do primeiro projeto a ganhar um leilão de energia com a fonte biogás, da empresa Raízen. Podemos citar ainda projetos como Minas do Leão, Salvador, Itajaí, GEO Elétrica, e a que está para ser conectada, CS Bioenergia.

Isso aconteceu porque há um maior conhecimento envolvendo tecnologias de produção de biogás e seus usos finais têm grande impacto nesse aumento representativo. A organização das empresas e entidades do setor envolvidas trouxe maior atenção e curiosidade sobre as vantagens do biogás e consequentemente esse crescimento.

Canal: Para os próximos anos, a expectativa é boa?

Alessandro: Sim. A ABiogás entende que ainda estamos somente começando. Só na área de geração de energia elétrica, o biogás poderia suprir 24% de toda energia consumida no Brasil em um ano.

Temos como meta, ate 2030, a produção de 30 milhões de metros cúbicos por dia de biometano, ou seja, quase 40% do consumo atual de GN no Brasil.

Há ainda um mercado de geração distribuída com potencial gigantesco no Brasil, em que o biogás tem grande vantagem. O sistema elétrico necessita, cada vez mais, de flexibilidade de despacho para complementar a inserção de fontes de geração variável, a diminuição relativa da capacidade de armazenamento de energia em reservatórios deve ser compensada pelo aumento da capacidade de outro tipo de fonte. O biogás atende perfeitamente essa condição, pois tem flexibilidade operacional com capacidade de armazenagem. Hoje já existem mais de 10 mil instalações de geração distribuída no Brasil e uma potência instalada com mais de 100 mil megawatt. Segundo a Aneel, estima-se que no ano de 2024 mais de 1,2 milhão de consumidores passem a produzir sua própria energia, o equivalente a 4,5 gigawatts (GW) de potência instalada. O biogás vai representar uma parte significativa dessa energia.

(Canal- Jornal da Bioenergia)