Entrevista com o presidente da UDOP, Hugo Cagno Filho

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O executivo da Usina Vertente e presidente da Presidente da União Nacional da Bioenergia (UDOP), Hugo Cagno Filho, conversa com o Canal- Jornal da Bioernergia. A entidade tem associadas em mais de 11 estados brasileiros e representando mais de 20% de toda a cana-de-açúcar, açúcar, etanol e bioeletricidade produzidas no País.

Confira a entrevista.

Canal – Jornal da Bioenergia:  Como o senhor avalia a safra passada na região Centro-Sul? Quais os aspectos positivos e os negativos?

Hugo Cagno Filho: A safra 2023/24 foi excepcional nos aspectos agronômicos, com números que surpreenderam até os mais otimistas. As chuvas foram promissoras em muitas regiões e, aliadas ao bom manejo e reforma de canaviais, avançamos muito no quesito produtividade por hectare, mas, como nem tudo são flores, as condições não permaneceram favoráveis e agora, para a safra 2024/25 as estimativas são de perdas de mais de 10% na região Centro-Sul do Brasil, maior produtora de cana-de-açúcar.

Um aspecto negativo da safra 2023/24 foram os preços pouco, ou nada, remuneradores para o etanol, que detém mais de 50% do mix de produção. O consumo de etanol se manteve estável de uma forma geral nos principais centros consumidores, mesmo com a paridade abaixo dos 70% do preço da gasolina, o que deveria estimular o consumo do biocombustível. Com isso, as usinas que puderam, direcionaram seu mix para a produção de açúcar, cuja remuneração esteve melhor durante todo o na de 2023.

Canal: Em termos institucionais, quais foram os maiores avanços e o que ficou sem ser resolvido em 2023?

Hugo: Institucionalmente o ano de 2023 foi desafiador por conta da mudança política e todas as incertezas que tínhamos sobre como seria o retorno de um governo Petista ao Palácio do Planalto. Todavia, equipes técnicas muito bem estruturadas nos principais Ministérios que envolvem de forma direta nosso setor, deram garantia da manutenção das políticas públicas necessárias para nossa expansão. Nesse quesito não temos o que reclamar.

Percebemos um ajuste fino em retomar os temas e o protagonismo do setor sucroenergético nacional como grande aliado para a transição energética necessária não apenas em nosso país, como no mundo, e como o Brasil pode contribuir de forma proativa nos temas da sustentabilidade e da descarbonização de forma geral, tendo o etanol como alternativa viável em diversas frentes, quer como carburante direto, como aditivo à gasolina, como fonte de hidrogénio para os carros elétricos, como combustível limpo para a aviação e até a navegação. São pontos positivos de uma agenda institucional importante de nosso setor.

Canal: Na avaliação do senhor quais os cenários para a próxima safra na região?

Hugo: Os cenários são cada vez mais desafiadores. Temos que conviver, mais um ano com o estigma das 600 milhões de toneladas. Qual seja: parece que temos o teto das 600 milhões de toneladas no Centro-Sul por safra e toda vez que atingimos esse patamar, como na safra 2023/24, retrocedemos na temporada posterior. Romper esse teto é nosso desafio, o que requer esforços de grande monta em diversas frentes.

Na UDOP, por exemplo, temos discutido esse tema de forma contundente, sempre buscando, através da qualificação e capacitação profissional, aliada à transferência de tecnologia e sistemas de produção, para que possamos de forma sustentável crescer nossa produção para as sonhadas 1 bilhão de toneladas.

Porém, este patamar só será possível de ser atingido se houver uma demanda crescente para nossos produtos. Tanto o açúcar como o etanol, e aí, precisamos de um trabalho sempre vigilante de nossas instituições e do Governo constituído, para trazer à pauta as externalidades positivas de nosso setor.

Esperarmos, apenas, pela ação climática não nos trará a segurança necessária para investimentos perenes em nosso setor, precisamos ser proativos, cito como exemplo a Campanha #VaideEtanol encampada pela Única, e apoiada pela UDOP e demais entidades do setor, a fim de abrir mercado para nosso etanol. A iniciativa é vista com excelentes olhos, mas não deve ser pontual, e, sim, perene, reforçando, sempre, o benefício de nosso setor para com a sociedade e o planeta de forma geral.

Canal: Num momento de euforia em torno do carro elétrico, quais os maiores desafios para o setor de produção de etanol nacional?

Hugo: O maior desafio hoje, que vejo, é trabalharmos o marketing de nosso setor. Infelizmente, os carros elétricos, por vezes muito menos sustentáveis que nossos veículos movidos a etanol, ganham notoriedade que não temos. O que falta então: um trabalho maciço de comunicação, mostrando o quanto somos melhores que os veículos elétricos movidos a baterias cujas fontes sejam sujas, por exemplo. Trabalhar isso requer esforços institucionais nossos, das entidades, bem como do próprio governo que já enxergou que somos a solução para a descarbonização e o processo de transição energética no curto prazo.

Canal: O senhor acha que o setor tem se comunicado adequadamente com a sociedade nesta questão da transição energética?

Hugo: Não, comunicamos muito mal. Invariavelmente falamos pra nós mesmos, dentro de nossas bolhas. E o mais grave: não vejo, ainda, apenas de forma sutil, um movimento que possa unir forças de forma contumaz em prol de nosso setor e nosso papel.

Nas grandes metrópoles, por exemplo, abastecer com etanol ainda significa, para muitos, ir mais vezes aos postos de combustíveis, ou uma economia muito pequena em comparação com os combustíveis fósseis. Será que as pessoas sabem que ao abastecer com etanol estamos evitando a emissão de 90% de gases de efeito estufa na atmosfera? Será que comunicamos os benefícios da fixação do homem no campo para os milhões de empregos gerados por nossa cadeia de negócios? Será que comunicamos o quanto a balança comercial é favorecida por produzirmos um biocombustível que substitui a importação de um combustível fóssil altamente poluidor? Isso sem contar os benefícios nas área de saúde, ambiental, e por aí vai…

Canal: O etanol na mobilidade sustentável não corre o risco de no Brasil deixar se ser ator principal e virar coadjuvante?

Hugo: Acredito que, se fizermos bem feita a lição de casa, de trazer para a discussão as externalidades positivas de nosso etanol e dos benefícios advindos de seu uso, dificilmente perderemos nosso protagonismo. Porém, se deitados em berço esplêndido acharmos que tudo se resolverá, sem esforço e dedicação, aí sim, cairemos como coadjuvantes e ficaremos apenas na lembrança e nos livros de história.

Canal: O setor sucroenergético em geral tem investido em pesquisa como precisa para a produção de novos produtos ou ainda acontecem apenas iniciativas isoladas por parte de grandes corporações?

Hugo: Este é outro calcanhar de aquiles de nosso segmento. Investimentos muito pouco em P&D, fato que realmente fica restrito às grandes corporações. Não há união e consenso de onde investir e como colher os frutos no curto, médio ou longo prazos. Aí, muitos aguardam as migalhas da tecnologia que virá depois.

Pensando nisso a UDOP vem há anos, firmando parcerias com os principais centros de pesquisa e instituições de fomento, como Universidades Públicas, nas esferas estaduais e federais, Embrapa, Fapesp, Sistema S, e outros tantos entes.

A ideia é criarmos o ambiente propício para uma troca de ideias, e, para isso, temos usado nossos Comitês Técnicos de Gestão, como fóruns para a reunião desses diferentes elos da cadeia, onde as usinas apresentam a demanda, as universidades expõe seus pesquisadores e a agências de fomento buscam recursos para os estudos, tudo isso, de forma sincronizada, para que possam surgir novas pesquisas orientadas por um pool de empresas com objetivos em comum, liderados pelas associadas UDOP.

 

Canal: A produção de etanol de milho é uma ameaça ao etanol de cana ou é complementar? O caminho é todas usinas produzirem os dois tipos?

Hugo: Quando há mercado não há concorrência. Hoje, fala-se muito, por exemplo, do etanol para a aviação, o SAF, que tem no etanol uma das únicas oportunidades de limpar (descarbonizar) sua matriz. Para se ter uma ideia da demanda de SAF, precisamos saltar de 300 milhões de litros produzidos em 2023 para 5 bilhões de litros em 2025, e quem vai atender a essa demanda? Se cana, ou milho, ou outras culturas, não sabemos, fato é que, juntos, podemos suprir o mercado interno carburante e trabalhar nestas outras opções, num circuito complementar permanente.

Tornar nossas usinas hoje, dedicadas ao processamento de cana-de-açúcar, usinas flex com a produção através de milho, no entanto, não é tão simples como parecia no passado, mas é possível, desde que hajam preços remuneradores, do contrário, temos que sobreviver, para avançar.

Canal: E a produção de biogás pelo setor? O senhor vê quais cenários futuros?

Hugo: A produção de biogás é outro desafio a ser explorado. Os investimentos para a construção de biodigestores são altos e o mercado ainda não está totalmente consolidado, com entraves, por exemplo, sobre a distribuição desse biogás. Se não houver conexão entre as usinas produtoras e o sistema, através de gasodutos ou ramais, fica inviável sua produção. Tudo isso são desafios a serem enfrentados. (Canal – Jornal da Bioenergia)

 

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