"http://www.canalbioenergia.com.br/wp-content/uploads/2018/11/Marca-650x90-NOV-2018.jpg" />
Home » Sucroenergético » Entrevista/Murilo Aguiar-INTL FCSTONE
Murilo F. Aguiar Consultor em Gerenciamento de Risco – Açúcar & Etanol

Entrevista/Murilo Aguiar-INTL FCSTONE

Print Friendly, PDF & Email

 

 

O setor sucroenergético melhorou em 2015?

O ano de 2015 foi, sem dúvida, construtivo para os preços dos produtos originários da cana-de-açúcar. Apesar de um início de ano com continuidade na depreciação dos preços do açúcar bruto (negociado na bolsa da ICE-NY#11), devido ao reflexo dos cinco ciclos seguidos de superávit no balanço mundial entre oferta e demanda, os últimos quatro meses apresentaram uma importante recuperação das cotações na bolsa.  De agosto de 2015, quando as cotações atingiram a mínima de 10,13 c/lb, o mercado se recuperou mais de 50% até o final do ano, que juntamente com a desvalorização do Real, trouxe uma forte alta no mercado físico de açúcar (mais de 77% desde o vale de preços, também em agosto de 2015).

A mudança estrutural nos valores dos produtos teve, contudo, uma evolução desde o primeiro trimestre do ano, quando ocorreu um ajuste tributário e regulatório no mercado de etanol brasileiro. Com a elevação da mistura do anidro na gasolina, alterações tributárias a favor do etanol (principalmente em Minas Gerais) e com a correção nos preços da gasolina nas refinarias, criou-se uma demanda mais fortalecida pelo biocombustível, incentivando maior produção do etanol em detrimento de um redução na oferta de açúcar no Centro-Sul do Brasil.

Ainda, além do principal player mundial trazer uma redução na produção de açúcar, outros países líderes sofreram nos últimos anos com os preços abaixo dos custos de produção (apesar da existência de alguns incentivos via subsídios governamentais locais), desencorajando, assim, os investimentos do setor nas áreas de cana e beterraba, afetando a produtividade. Por último, mas não menos importante, a intempérie climática ocasionada pela presença de um forte El Niño em 2015 também incentivou as previsões de quebras de produções em importantes países, notadamente na Índia, efetivando-se o consenso deficitário no balanço mundial de açúcar para 2015/16 (outubro de 2015 a setembro de 2016).

Resumidamente, portanto, ocorrências internas e externas influenciaram o mercado sucroalcooleiro causando uma importante valorização dos seus produtos, notadamente açúcar e etanol, os quais, em Real, obtiveram, respectivamente, ganhos de 55% e 35%. Devido à desvalorização cambial do ano de 49%, os ganhos do açúcar na bolsa (5%) foram potencializados no mercado interno via arbitragem com as exportações, auxiliando os produtores a incrementarem suas margens.

E as dificuldades?

Com anos de crise financeira dentro do setor sucroenergético umas das grandes dificuldades seguem na elevada relação de endividamento/faturamento, a qual necessitará de bons anos seguidos de preços para reverter a situação, aliada com uma boa política e planejamento quanto à matriz energética brasileira.

A intensa desvalorização do Real, ocasionada por tensões políticas e econômicas, juntamente com a elevação da taxa básica de juros (Selic) seguem preocupando as usinas que possuem significativo passivo dolarizado e que necessitam de novos financiamentos, capital de giro e/ou rolagem de suas dívidas.

Quais as expectativas para 2016?

Com a mudança estrutural nos preços do açúcar e etanol ocorridas em 2015, juntamente com o consenso de déficit mundial de açúcar (previstos pela INTL FCStone em 5,6 milhões de toneladas) e desvalorização do Real, o Brasil tem no mercado internacional (e consequentemente no mercado interno, via arbitragem de preços) um grande potencial de exportação da commodity para abastecer os importadores.

Com os preços em Reais por toneladas atingindo níveis recorde, acima de R$ 1.300/t de açúcar VHP exportação (sem o custo de frete até Santos/SP), poderemos observar o produto ganhar espaço no mix de produção do setor na safra que está por vir, 2016/17, tendo no mercado futuro (açúcar NY mais Dólar futuro) um grande incentivo para exportação, que pode obter travas de hedge próximas de R$ 1.500/t para o produtor.

Para o etanol, apesar da crise interna afetar o consumo de combustíveis em geral (ciclo Otto com potencial de estagnação/redução em 2016), as mudanças tributárias e regulatórias permitiram uma melhor competição do produto com a gasolina, que possui preços congelados pelo governo.

Em termo de moagem de cana-de-açúcar, espera-se um aumento na moagem do Centro-Sul e aumento da produtividade no ATR (açúcar total recuperável), potencializando um aumento na produção final de açúcar e etanol.

A crise deverá continuar prejudicando as usinas ou o mercado está otimista?

Em relação à crise, a preocupação maior está no mercado macroeconômico, principalmente na desaceleração do crescimento da China, que tem desvalorizado a moeda local como forma de blindar e fortalecer a economia no país.

Sabe-se que a China é um grande importador de commodities e sua economia causa reflexos em diversos mercados, principalmente nos emergentes.

Ainda, a recuperação econômica gradativa nos EUA potencializa novos ajustes monetários pelo banco central (Federal Reserve) que, via aumento da taxa básica de juros, poderá atrair capital investido em ativos de maiores riscos, caso dos investimentos em bolsa e commodities.

Ressalta-se, portanto, que é importante que a projeção de menor produção mundial de açúcar seja acompanhada por uma efetivação de estímulo maior de importação, caso contrário o aperto (déficit previsto) poderá ser pouco sentido pelo mercado.

CANAL-JORNAL DA BIOENERGIA