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Marcos Fava Neves

Entrevista/Marcos Fava Neves-Uma análise do setor sucroenergético

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Marcos Fava Neves é especialista em planejamento estratégico no agronegócio, sócio fundador da Markestrat Consulting Group, idealizador da plataforma Doutor Agro e professor de administração de empresas na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP)/USP e na EAESP/FGV. É graduado em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ)/USP, e mestre, doutor e livre-docente pela FEA/USP. Já realizou mais de 1.100 palestras no Brasil e no mundo.

Canal:  Jornal da Bioenergia: Quais os principais desafios para o setor de produção de biocombustíveis em âmbito nacional e internacional?

Marcos Fava Neves: No âmbito nacional o setor vem passando por um momento de margens apertadas para os bons e negativas para os médios, devido aos crescentes custos de produção, redução no preço do ATR, perda de eficiência agrícola e industrial e elevado endividamento. O grande desafio é a recuperação das margens do setor, principalmente com melhorias na parte agrícola, mas também na industrial, atrelado a políticas como o RenovaBio e a geração de demanda com competitividade sustentável do etanol frente à gasolina. Também é importante lembrar-se dos trabalhos para aumentar a eficiência de motores de etanol e tratamento tributário adequado da energia de cogeração, entre outros que compõem uma agenda ao setor.

No cenário internacional há que levar em consideração as questões globais de geopolítica e comércio, crescimento mundial (menor taxa) e possíveis impactos no consumo de biocombustíveis, mas o cenário é bom. O principal desafio está relacionado à implementação de programas de adição de etanol na gasolina em diversos países como na China (com 10%), mas principalmente aumentar a mistura nos países produtores de açúcar, para que parte de sua cana vá para o etanol, e aí o principal trabalho deve ser na Índia, para que esta diminua a inundação de açúcar no mercado internacional.

Canal: Na visão do senhor, quais as expectativas da produção brasileira para esta safra?

Marcos: No acumulado da safra, processamos 170,8 milhões de toneladas, 4% abaixo das 178 milhões da safra passada, produzindo 10,4% a menos de açúcar (6,7 contra 7,5 milhões de toneladas), 3% a menos de anidro (2,5 bilhões de litros) e 6% a menos de hidratado (5,8 bilhões de litros). O ATR por tonelada de cana está 4% menor e o mix (66%) está quase 1% maior para etanol, quando comparado com a safra passada. Estamos com qualidade e produtividade piores, refletindo nestes preocupantes rendimentos abaixo do esperado.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as vendas de etanol hidratado em maio foram de 1,87 bilhão de litros, 42% maiores que na comparação com maio de 2018. Nos primeiros cinco meses deste ano comercializou-se 9,03 bilhões de litros, 37% a mais. Pode-se atingir um valor de vendas entre 25 e 28 bilhões de litros neste ano.  Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúca (Unica), nos primeiros 15 dias de junho, vendeu-se pelas unidades produtoras da região Centro-Sul 1,30 bilhão de litros, sendo 354,76 milhões de anidro. De hidratado foram 902,03 milhões de litros, um excelente resultado, em linha com minha estratégia deste ano de conquistarmos os tanques dos carros flex.

Teremos 570 milhões de toneladas aparentemente gerando menos produtos do que no ano passado, então tenho cenário altista de preços.

Canal: Com a concorrência do mercado internacional, como fica a produção de açúcar no mundo?

Marcos: A safra 2018/19 deve gerar um superávit global de 1,8 milhão de toneladas, de acordo com a Organização Internacional do Açúcar, já que a produção deve atingir 178,75 milhões de toneladas e o consumo 176,9 milhões de toneladas.

Para 2019/20 estima-se uma produção de 180,7 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), acarretando em déficit de 3 milhões de toneladas na balança global do período. O Brasil deve contribuir com 26,5 milhões de toneladas, enquanto que a Índia deve produzir 28,2 milhões de toneladas, quase 15% de quebra em relação à safra atual. No entanto, com a manutenção de estoques indianos, estes continuarão exportando em 2020, por isto este anúncio de quebra nada refletiu nos preços.

O problema é que na Índia tem muito subsídio e também o açúcar de beterraba correu atrás e chegou a alguns casos até a superar a eficiência da cana.

Canal: O Renovabio poderá ser o alívio para o setor?  Há falta de incentivos fortes e duradouros para a produção de biocombustíveis no Brasil?

Marcos: O RenovaBio deverá ser o grande divisor de águas na retomada dos investimentos para aumento da capacidade de produção do setor e, assim, contribuir com o incremento da utilização de combustíveis renováveis. Poderão ser emitidas debêntures no valor de R$ 62,3 bilhões por ano e, além disso, o Governo estima que o programa deva oferecer R$ 13 bilhões por ano na economia, sendo R$ 9 bilhões na renovação de canaviais. O presidente da Unica acredita que podemos produzir entre 47 e 50 bilhões de litros de etanol por safra até 2028, lembrando que hoje estamos ao redor de 33 bilhões de litros.

Canal: Há expectativas de melhoras nos preços? Por quê? O senhor venderia produtos agora?

Marcos: Estamos conseguindo atravessar a safra sem queda significativa no preço do etanol, o que é muito importante. No entanto, precisamos torcer pelos preços do petróleo permanecerem em um patamar que viabilize a explosão de vendas de hidratado com margem para as usinas. É o que nos resta neste momento para salvar o valor do ATR, lembrando que com o andar da carruagem e a qualidade da cana até o momento, podemos ter frustração nas produções esperadas de açúcar e etanol. Com isto o Brasil tira mais açúcar do mercado mundial e seus preços começam a reagir neste segundo semestre.  Ainda acredito que poderemos tem um valor de ATR uns 10% maior que o da safra passada.

Quem tiver caixa deve segurar os produtos, pois os preços no final do ano serão melhores. Esta é a minha aposta.

Canal: Dados de um estudo do Pecege/Orplana/CNA mostram que ao custo médio de produção está acima do esperado. Qual o motivo desta alta? Há como o produto reduzir?

Marcos: O custo médio de produção subiu cerca de 10% em relação ao ciclo passado, mas já apresentava aumentos sucessivos em safras anteriores. A corrosão das margens do setor se deve a fatores externos que impactam diretamente a produção, como a alta dos preços dos fertilizantes e dos combustíveis, maiores custos na manutenção automotiva, custos da manutenção da indústria na entressafra e desvalorização do real.

Além disso, na safra 2018/19, a greve dos caminhoneiros e o clima adverso à cultura favoreceram ainda mais a destruição das margens. Outro fator relevante: como a rentabilidade do setor tem diminuído, menos se investe na renovação dos canaviais, ocasionando perda de produtividade.

Como os fatores são de difícil controle, o produtor precisa fazer seu “dever de casa” com um bom planejamento, controlando seus custos e indicadores de produção, de modo a minimizar os efeitos das externalidades. Mas sem dúvida que perdemos competitividade, pois hoje fazemos menos produtos por hectare que há 10/15 anos, a um custo muito maior.

Canal: Na visão do senhor, quais os cenários para os próximos anos do setor sucroenergético?

Marcos: As expectativas para setor são positivas, visto o potencial produtivo nacional, a demanda interna e externa. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) os biocombustíveis devem participar com 19% no setor de transportes mundiais até 2023. O RenovaBio deverá ser o grande responsável por esse incremento de produção, fomentando os investimentos na ampliação das unidades e na renovação dos canaviais.

Canal: A adoção de novas tecnologias têm se tornado inviável diante do caixa baixo das usinas. O senhor acredita que o uso da tecnologia pode aliviar o setor?

Marcos: A adoção de novas tecnologias que colaborem com a redução de custos operacionais, de modo a incrementar as margens, é bem-vinda ao setor. Nesse sentido, o uso racional de insumos e tecnologias de aplicação localizada são alternativas que podem reduzir os custos.

Canal: Que pontos mais importantes o senhor destaca numa análise de longo prazo ao setor?

Marcos: Fazendo aqui um resumo das minhas ideias colocadas acima e pensando mais em longo prazo, destaco 20 fatores importantes de análise, todos trazem oportunidades e ameaças, mas são os 20 pontos que considero no futuro da cana. Ao lado dou uma nota de zero a dez. Onde a nota é 5 ou acima, representa que estou hoje vendo com bons olhos este ponto, se for abaixo de 5, me preocupa.

1 – As questões globais (geopolítica e comércio), o crescimento mundial e os impactos no consumo de produtos vindos da cana, tais como o açúcar e a energia (6);

2 – Crescimento econômico no Brasil, recuperação da renda e consumo, com civismo, confiança e mudança de comportamento (mérito e gestão pública) (8);

3 – Fluxos financeiros com a aprovação da reforma da previdência, volta da confiança e possível valorização do Real (4);

4 – Preços do petróleo e competitividade da gasolina versus o etanol (6);

5 – Distorções (subsídios) no mercado internacional de açúcar (3);

6 – Danos à imagem com campanhas contrárias, as regulações visando conter o consumo de açúcar e crescimento de consumo nos mercados emergentes e populosos (5);

7 – Custo crescente do transporte e distância do Brasil aos principais mercados importadores (3);

8 – Fontes alternativas/substitutas de açúcar, energia e transporte, com possíveis ameaças à cana e ao etanol (5).  A nota cinco é geral para todos mas destaco aqui que vejo grande ameaça à cana na energia solar e o barateamento das formas de sua captação.

9 – Potencial de consumo de etanol na crescente frota flex brasileira (9);

10 – Crescimento de regulações e exigências nas etapas de produção (4);

11 – Ameaça crescente da substituição de áreas de cana por grãos (3);

12 – Implementação do RenovaBio, outros programas de biocombustíveis no mundo (China com 10%), premiação por eficiência de motores à etanol e tratamento tributário adequado à energia vinda da cogeração (7);

13 – Forte crescimento da produção de etanol de milho como ameaça à cana (5);

14 – Enorme endividamento do setor  (2);

15 – Custo crescente do valor pago pelos arrendamentos de terras (2);

16 – Custo de produzir cana cresce com produtividade média agrícola estagnada em tempos de gestão por m2 e os hiatos entre agricultores crescentes (2);

17 – Hiatos de produtividade no elo industrial, com usinas perdendo produtos (5);

18 – Organizações coletivas de produtores e industriais com interesses conflitantes (5);

19 –  Consecana como uma plataforma de preços e ajustes regionais para compartilhamento de valores criados (6).

20 – Todas as possibilidades advindas da especialização nas atividades e economia de contratos (economia do compartilhamento) com benefícios da integração de atividades produtivas e economia circular (8);

No final, concluo dizendo o seguinte: quem é bom e não está muito endividado, vai ganhar dinheiro com a cana.

 

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia