Crédito: Foto hidrelétrica Felipe Tapia

Pior seca em quase um século aprofunda crise energética no Brasil

Print Friendly, PDF & Email

A seca que colocou o Brasil à beira do colapso energético se aprofunda e acelera as medidas governamentais, focadas em evitar apagões, apelando para fontes de energia mais caras, financiadas com aumentos nas tarifas de eletricidade.

A pior seca em 91 anos reduziu a níveis críticos os reservatórios das hidrelétricas do Centro-Oeste e do Sul, fontes de 70% da energia hidráulica do país, à medida que a economia se recupera após o colapso provocado pela pandemia de coronavírus.

A crise se tornou palpável para os consumidores na conta de luz, que voltou a subir na terça-feira em quase 7% para cobrir os custos de produção de outras fontes alternativas mais caras e importações.

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, apelou a um “esforço urgente” dos setores público e privado para mitigar o risco de falta de energia.

“Estamos no limite do limite”, disse o presidente Jair Bolsonaro dias atrás, pedindo aos consumidores que “apaguem alguma luz em casa”.

O presidente esbarrou em um inimigo inesperado, produto de um clima cada vez mais extremo, no momento em que tenta se fortalecer para buscar a reeleição em 2022.

“O país está utilizando todas suas fontes de produção para atender a demanda e, portanto, os custos de geração aumentaram. Como eles precisam ser recuperados através das tarifas, essas devem aumentar a curto prazo”, explica Luis Barroso, CEO da PSR Consultoria.

Na terça-feira, três usinas fotovoltaicas, uma de biomassa e quatro eólicas foram adicionadas à rede de geração.

Nivalde de Castro, professor do grupo de estudos Gesel do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica o problema: “Os reservatórios da região Centro-Oeste e Sudeste (…) estão em níveis críticos, na faixa do 23%. O que é historicamente um dos níveis mais baixos que o país já enfrentou”.

A situação desses reservatórios piorou mais que o esperado em agosto e continuará se deteriorando em setembro, estimou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

“A previsão para os próximos meses, caso continue chovendo abaixo da média histórica, é que em outubro já teremos um problema de desequilíbrio entre oferta e demanda nos horários de pico”, alerta Castro.

Pressão sobre os preços

Esse prognóstico desencadeou medidas oficiais: programa de economia de energia elétrica de 10 a 20% na administração pública federal até abril e planos de racionamento voluntário com benefícios para empresas e famílias.

Segundo o ministro, uma economia média de 12% nas moradias equivale ao abastecimento de 8,6 milhões de domicílios.

O antecedente lembrado é o de 2001, quando situação semelhante obrigou o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso a um racionamento compulsório.

O governo Bolsonaro descarta essa possibilidade, mas corre contra o tempo. “O governo vem trabalhando em várias frentes, com alguns resultados concretos e outros começando a aparecer, mas é fundamental obter mais resultados a curto prazo, pois a cada dia de atraso o efeito das mesmas na mitigação dos riscos de suprimento diminui”, diz Barroso.

Em algumas pequenas cidades, como Itu, no interior de São Paulo, cortes planejados no fornecimento de água já estão acontecendo.

A seca pressiona a inflação: a alta de 8,99% nos preços em julho foi a mais acentuada em 12 meses, puxada pela eletricidade e outros itens como gasolina e alimentos.

“O peso da energia na inflação é relativamente alto, porque o custo está na cadeia produtiva de todos os bens e serviços, e impacta na renda familiar” e, portanto, no crescimento econômico, ressalta Castro.

A previsão indica que a crise vai durar até abril de 2022.

“Os reservatórios estão muito baixos e não é possível recompor o nível das represas segundo a média de chuva verificada nos últimos anos no período úmido”, diz o especialista do grupo de estudos Gesel.

Agronegócio atingido

A falta de água atinge particularmente o agronegócio, principal setor exportador, com estimativas reduzidas em volume e qualidade de safras como milho, cana-de-açúcar, laranja, feijão ou café, produto que viu reduzir 25% sua projeção de safra.

Ao contrário, o maior produtor mundial de soja espera outro ciclo recorde em 2021/2022, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Mas mesmo essa previsão precisará de água para se concretizar.  AFP