Entrevista com David Zee : O Brasil pode ser protagonista

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O engenheiro e oceanógrafo David Zee é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)  e tem larga experiência na área de engenharia ambiental, atuando em estudos de impacto ambiental, poluição urbana, erosão costeira, balneabilidade, qualidade de vida e monitoramento ambiental.

Ele comenta sobre a ratificação do governo brasileiro das propostas assinadas por 197 países na 21ª Conferência do Clima (COP 21), realizada em Paris, em 2015. O objetivo principal do documento é frear as emissões de gases do efeito estufa.

Canal: O que representa a ratificação da 21ª Conferência do Clima (COP 21) pelo Brasil?

David Zee: Representa muito para o planeta e mais ainda para o Brasil, como líder das questões ambientais e de sustentabilidade do planeta. Não é á toa que o país sediou duas das três conferências mundiais sobre o meio ambiente.

O Brasil tem esse grande respeito e uma vocação natural para as questões de sustentabilidade do planeta.

Mais do que nunca, o país tem efetiva representatividade e liderança na questão da sustentabilidade, que inclusive o insere nas discussões internacionais.  O que é importante para o país, não apenas por aspectos políticos internacionais, mas devido às questões comerciais e de geração de empregos, no sentido de desenvolver novas tecnologias.

Canal: O Brasil está agindo certo para alcançar as metas traçadas em Paris?

David Zee: Sem dúvida nenhuma. Inclusive são metas que tentam reverter às condições climáticas do planeta, esses esforços já estão atrasados. Temos sempre que pedir mais. Para mudar a direção e a possibilidade de uma catástrofe demora muito. Precisa-se de esforço conjunto é o caminho são as negociações internacionais. O Brasil tem uma grande oportunidade de se firmar como um dos países líderes da questão da sustentabilidade.

Canal: As ações do governo federal são o caminho correto para a ampliação do uso de energias renováveis no país?

David Zee: Em tese sim. Mas é preciso que haja uma melhor interação entre o setor governante e a população brasileira. Esse intercâmbio entre as decisões governamentais com a participação social deve ser mais efetivo. Eu vejo certa deficiência na comunicação entre as determinações políticas e técnicas com a participação da sociedade, que é extremamente importante.

Inclusive, a pressão social é um fator bastante importante para as tomadas de decisões do governo brasileiro. Ainda existe uma distância muito grande entre as deliberações e a efetiva incorporação dessas no cotidiano da sociedade brasileira.

Canal: No ponto de vista do senhor, como deve ser feito esse elo entre governo e população?

David Zee: O primeiro ponto é ter transparência. Quando digo transparência significa desenvolver mecanismos que efetivamente – em curto espaço de tempo, quase que simultâneo – a sociedade brasileira possa discutir melhor as demandas tomadas no campo político, governamental e técnico. Assim, é necessária uma interface que permita uma maior efetividade, que deve ter a mesma velocidade que as decisões são tomadas e, assim, comunicadas à sociedade.

Outro ponto é iniciar a construção de mecanismos de conferência dentro da sociedade. Não adiantar perguntar para a sociedade: “precisamos disso e o que vocês acham?”. É preciso discutir com as lideranças, com as representatividades sociais e os profissionais qualificados que existem no Brasil. Enfim, é preciso uma maior discussão e interatividade com os vários segmentos da sociedade.

Mas, é importante que haja uma organização, similar ao que foi a Agenda 21, que teve como propósito realizar uma mesa-redonda em um nível bem próximo ao da sociedade. Mas infelizmente os debates não passaram por várias etapas de níveis de intelectuais, políticas e de liderança.

É preciso seguir todas essas fases, sendo necessário que se construam mecanismos práticos para que não fique só na conversa.

Canal: O senhor mencionou que o Acordo da COP 21 é uma questão politica? Por que ?

David Zee:  A questão política é extremamente importante. A decisão não deve ser de apenas um segmento da sociedade, mas tem que permear para todas as fatias dela, porque depois de tomada a decisão todos terão que tentar cumprir ou atingir as metas preconizadas.

Assim, não adianta definir em um gabinete e esquecer-se de fornecer instrumentos para que a sociedade possa efetivamente desenvolver essa decisão. É necessário encaminhamento, interação e instrumentalização da sociedade. E isso começa pela discussão com a maior capilaridade das informações e também de como fazer. Não adianta ficar tudo combinado e nada resolvido.

Canal: Dos 197 países que participaram da COP 21, além Brasil, algum outro já ratificou a conferência?

David Zee: Alguns países europeus já ratificaram. Essas nações entendem bem a limitação de cada um. Por exemplo, os países ricos precisam manter as florestas para garantir a absorção de gás carbônico, mas eles não têm as florestas, que ficam no hemisfério sul,  na Ásia e na América do Sul.

Assim, não adianta tomar uma decisão no hemisfério norte e não combinar com os detentores desses recursos. Além de indicar o que deve ser feito, deve-se fornecer condições para resolução. Uma vez que existem recursos financeiros substanciais no hemisfério norte e ao inverso no hemisfério sul.

Enfim, é preciso de partilha, ou seja, que os países mais pobres – que têm recursos naturais – recebam ajuda e financiamentos para garantir os recursos naturais pelos mais ricos. Deve-se ter uma interatividade entre as nações, e consequentemente, a execução e até mesmo a transferência de tecnologias entre países com a participação de cientistas. Essa parceria deve ser muito bem construída para permitir que a máquina funcione.

Canal: A revisão da COP 21 é prevista para daqui cinco anos. O senhor acredita que alguma ação já estará em prática?

David Zee: A sociedade sofre de ansiedade, mas precisamos entender que uma caminhada de mil léguas, como diz um ditado oriental, começa com o primeiro passo. Esses são os passos iniciais que integram todo um processo. É necessário fazer uma primeira tentativa, testar, voltar a discutir daqui cinco anos, ver os resultados, verificar o que foi exequível, o que foi mais eficaz para que os recursos naturais e financeiros sejam melhores distribuídos.

Essas convenções entre países são extremamente importantes.

No fundo não é a natureza que precisa ser protegida, nós, seres humanos, que temos que nos proteger de nós mesmos.

Tenho percebido através de contatos e consultas internacionais que muitos governos têm se preocupado com repasses de recursos para o Brasil. O governo brasileiro tem que entender que para ter credibilidade no fechamento dos acordos é necessária uma participação mais efetiva da sociedade. Temos que sair da mentalidade que a população não entende nada, que existe em governo que é um “paizão” e que vai resolver tudo. O governo apenas representa a sociedade. Para isso é preciso dar um voto de confiança e acreditar na sociedade aumentando o diálogo e comunicação entre as partes.

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia