Home » Sucroenergético » Produtividade: conservação do solo é fundamental para os canaviais
Divulgação

Produtividade: conservação do solo é fundamental para os canaviais

Print Friendly, PDF & Email

A cana-de-açúcar é uma cultura extremamente peculiar.  A safra é longa, desde o preparo do solo até a colheita se gasta um ano. Neste período de tempo diversas operações são realizadas no campo, que impactam diretamente a cobertura e a proteção do solo frente à erosão hídrica, que é a principal forma de degradação de solos no Brasil. Por isso, o gestor agrícola deve estar atento às opções de manejo para o ambiente em que está inserido e tornar os cuidados necessários.

Diante deste cenário, a conservação do solo é uma prática de suma importância para a lavoura canavieira. Segundo o Engenheiro Agrônomo, PhD em Ciência do Solo, Geoprocessamento, Gustavo Casoni da Rocha, o principal desafio é a conciliação entre as alterações de manejo, em especial a colheita mecanizada, e as práticas de conservação de solo utilizadas antes desta novidade. “A colheita mecanizada trouxe avanços do ponto de vista ambiental e de saúde pública pela cessão da queima e manutenção da palha no campo, mas trouxe um problema adicional: o aumento da compactação dos solos”, explica.

A compactação do solo caracteriza-se pela compressão, com alteração na organização das partículas, com aumento da densidade e redução da porosidade do solo. Assim, a compactação potencializa os problemas de infiltração de água no solo. “As estruturas de conservação antes do processo de mecanização não estavam dimensionadas ou preparadas para tal alteração”, explica.

Mesmo a cana sendo uma das culturas menos agressivas para o solo, em comparação ao milho e soja, há a necessidade de reposição dos nutrientes extraídos na colheita. Por isso, é importante fazer a recuperação do solo, com uso de fertilizantes e adubos, mas também com vinhaça, torta de filtro e palha. Esses resíduos da cana-de-açúcar permitem um maior teor de carbono no solo e consequentemente, menor erosão.

“A manutenção da palha no campo, o uso de torta de filtro, a adubação verde e adubação mineral colaboram para a manutenção dos níveis adequados de fertilidade do solo”, pontua o engenheiro. É importante ressaltar que apenas a mecanização não traz efeitos positivos para a conservação do solo. Mas o procedimento permitiu a colheita sem queima da palha. “Quando a palha é mantida no campo tem um efeito positivo na proteção dos solos contra a erosão hídrica e também na manutenção dos níveis de matéria orgânica e fertilidade dos solos”, explica.

Aliados

A tecnologia ganha espaço na lavoura quando se concilia a produtividade e a conservação do solo. “É necessário utilizar a tecnologia disponível e o máximo de informações ambientais para tomar as decisões de manejo”, explica Rocha. Um banco de dados de solos e relevo, além de critérios claros de priorização são fatores fundamentais para definir um cronograma de reforma com menores riscos possíveis.

Ferramentas tecnológicas, como drones, também são apoio. Este equipamento realiza o levantamento de relevo, tornando o desenho do canavial mais compatível. Outro ponto é o controle de tráfego de máquinas no local. Esse sistema de manejo separa as zonas de tráfego das zonas em que há crescimento das plantas, concentrando a passagem de pneus em linhas permanentes, assim, uma área menor será atingida.

A erosão hídrica é a principal forma de degradação de solos no Brasil. Para fazer a gestão e conviver com as chuvas no ambiente agrícola há basicamente dois caminhos: sistemas baseados em estruturas de infiltração e sistemas baseados em estruturas de drenagem da água. Segundo Rocha, os terraços de infiltração fazem a contenção do escoamento superficial gerado pelas chuvas e buscam infiltrar esta água na sua base. Este é o método mais simples e utilizado nas áreas canavieiras no Brasil.

Já os terraços de drenagem e canais escoadouros trazem o conceito de conduzir a água da chuva até o leito do rio ou corpo d´água mais próximo com segurança. “São sistemas pouco utilizados, demandam dimensionamento que os técnicos do setor não estão acostumados e a sua execução exige um cuidado maior”, pontua. Além destes dois grandes conceitos de conservação de solo, o engenheiro acredita que há práticas vegetativas e de manejo que são fundamentais para que o sistema de conservação de solo escolhido funcione de forma adequada. São elas: a época de preparo e de plantio, o controle de tráfego, a  adubação verde e plantas de cobertura, a manutenção da palha na superfície, o manejo de restos culturais e plantas daninhas, o preparo e plantio em faixas, o preparo mínimo e sistema plantio direto, o cultivo da soqueira e a umidade do solo ótima para entrada na área com máquinas.

Atualização

As alterações de manejo do cultivo de cana-de-açúcar são constantes e os profissionais do setor devem ser capazes de adaptar as práticas conservacionistas às novas tecnologias. Atualmente o setor canavieiro passa pelo desafio de conciliar rendimento operacional e as vantagens ambientais da colheita mecanizada de cana sem queima com a conservação do solo.

Há também um contexto de preocupação da sociedade com a conservação de solo e a cultura da cana é, por vezes, vista como vilã. Nos últimos anos houve um aumento nas autuações da Defesa Agropecuária  do Estado de São Paulo, suscitando inclusive intervenções e preocupações do Ministério Público. O setor como um todo, Universidades, Institutos de pesquisa e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) tem entendido que existe uma lacuna de formação nesta área.

Por isso, pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e Instituto Agronômico (IAC), em cooperação com a Unica  e com a ajuda de unidades produtoras, desenvolvem o  curso “Conservação de solo na cultura da cana-de-açúcar” .

Com início no dia 2 de fevereiro e término em 4 de agosto, o curso será formado por 12 aulas , duas vezes ao mês, na unidade da Esalq em Piracicaba, interior de São Paulo. As inscrições já estão abertas. O público-alvo é  profissionais que atuam na área agrícola da cultura da cana-de-açúcar e demais profissionais que tenham interesse em complementar sua formação no tema . É necessário ter curso superior. O curso é uma realização da Esalq e IAC, e conta com apoio da Unica e de diversas usinas que cederam dados e informações de sua atuação na área de conservação de solo.

Além das aulas teóricas serão realizadas duas aulas práticas. “As aulas de campo visam atualizar os alunos nos conhecimentos em solos e também em técnicas mais inovadoras em conservação do solo”, explica o coordenador geral do curso, Professor Gerd Sparovek.

O objetivo do curso é que o aluno consiga compreender as diferentes opções e sistemas de conservação de solo, além de traduzir este conhecimento para o ambiente em que está inserido e elaborar e dimensionar um projeto básico de conservação de solo. “Trabalharemos com exemplos reais da equipe de professores e problemas levantados pelos próprios alunos ao longo das aulas”, finaliza.

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia