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Açúcar orgânico: produção  ainda é pequena no Brasil

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A produção de orgânicos, de modo geral, tem se desenvolvido ao longo dos anos, atendendo a uma demanda de mercado. Apesar disso, quando se fala em açúcar, sua representatividade ainda é muito baixa, quando comparada ao açúcar convencional. Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), na safra 2016/2017 da Região Centro-Sul de açúcar orgânico, a produção foi de 181.438 toneladas, sendo que esse tipo de açúcar representa 0,51% da produção total do Centro-Sul.

Para a produção de açúcar orgânico, no plantio da cana não podem ser utilizados fertilizantes químicos e a colheita deve ser feita com a cana crua, ou seja, sem que seja queimada, conforme explica o gerente industrial das Usinas Itamarati, Ricardo Steckelberg. Normalmente o rendimento agrícola é maior em comparação a agricultura convencional.

A produção de açúcar orgânico é pouco expressiva e Goiás é um dos estados que mais o produz: cerca de 63,5% da produção nacional em 2016/2017, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). “Dessa forma, a produção mundial torna-se irrisória, sendo o Brasil e o nosso vizinho, Paraguai, os que mais produzem açúcar orgânico. O Brasil produz em torno de 181 mil toneladas e o Paraguai 96 mil toneladas”, diz Steckelberg.

Na indústria, o processo de fabricação é basicamente o mesmo do açúcar convencional. Porém, só pode ser utilizada cal hidratada ou cal virgem no processo do tratamento do caldo e são proibidos o uso de polímeros sintéticos, enxofre e fonte de fósforo. Todos os equipamentos devem ser descontaminados, desde a moenda até o empacotamento e ensaque, se por ventura houver um processo anterior de açúcar convencional.

A limpeza dos equipamentos de processo deve ser feita somente com água em ebulição para uma boa higienização. Para a limpeza dos tubos dos evaporadores e cozedores, o processo de hidrojateamento é o mais indicado.

Nas centrífugas de açúcar, deve ser usada água condensada proveniente dos evaporadores ou água tratada superaquecida para lavar os cristais de açúcar.

Custos

Os custos para produção do orgânico são, em média, 15% a 20% mais caros do que o branco tradicional, em face da maior dificuldade operacional para sua fabricação e do manejo da lavoura. Ricardo Steckelberg explica que, para obtenção do açúcar orgânico, o diferencial de custos começa na lavoura, pois produtos químicos são proibidos para o cultivo da cana, sendo necessária a aplicação de adubos orgânicos. “O custo deste plantio vai depender da disponibilidade do adubo orgânico e do custo de logística para o transporte. Para o cultivo da cana orgânica é necessário eliminar o uso de fertilizantes, pesticidas e reguladores de crescimento produzidos sinteticamente por aproximadamente três anos, dependendo do mercado importador.”

Na indústria, os produtos químicos para tratamento do caldo e obtenção do açúcar também são proibidos e é permitido somente a cal hidratada para clarificação do caldo direcionado para a fabricação do açúcar. “A não utilização dos produtos químicos, em princípio, deveria diminuir os custos de produção. Entretanto isto provoca uma maior dificuldade no tratamento para clarificação do caldo, exigindo equipamentos maiores ou, caso já existentes, a subutilização em relação ao açúcar branco tradicional”, comenta Steckelberg.

Steckelberg entende que os produtos orgânicos podem ser mais caros devido ao fato de que o produtor se preocupa com a preservação do meio ambiente e tem compromisso com a qualidade de vida de seus empregados. A oferta em relação à procura por produtos mais saudáveis também eleva o preço no mercado. “Mas, tanto em supermercados como nas feiras livres, é possível adquirir produtos orgânicos com preços compatíveis. Escolher produtos orgânicos estimula o crescimento desta prática, aumenta a oferta e diminui seu preço ao consumidor.”

Conforme comenta Steckelberg, o açúcar orgânico tem um marketing muito forte como produto natural e pela preservação do meio ambiente. Alemanha, Japão e Estados Unidos são fortes compradores desse tipo de açúcar e isso gera uma oportunidade importante para agregar valor ao produto. Entretanto, ele também sofre influência do mercado internacional e seu preço pode variar entre 50 e 100% acima do açúcar branco, dependendo da cor e da qualidade do açúcar produzido. Ele entende que a produção desse tipo de açúcar ainda é restrita por vários fatores. “85% da população não consome produtos orgânicos, 41% apontam o preço como fator determinante, os demais alegam desconhecimento, falta de interesse e falta de local para comprar. Falta uma campanha nacional ou um projeto de educação para esclarecer o consumidor, melhor distribuição e oferta de produtos. Mas, para crescer, esse segmento precisa popularizar o consumo interno e buscar novas oportunidades de comercialização.”

Orgânicos

Para que o alimento comercializado possa ser denominado orgânico, ele deve portar o selo que garante que foi certificado através de auditoria sobre a produção. Para isso, deve respeitar todos os requisitos descritos na lei nº 10.831, de 2003. Considera-se sistema orgânico de produção agropecuária aquela em que se adotam técnicas específicas, com otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, com objetivo de sustentabilidade econômica e ecológica, maximização dos benefícios sociais e minimização da dependência de energia não-renovável.

Considerando-se apenas macro e micronutrientes, a nutricionista Nara Rúbia Rodrigues explica que o açúcar refinado pode ser exatamente igual a um açúcar refinado orgânico. “A diferença entre estes é a forma de produção agrícola, que garante que o açúcar refinado orgânico está livre de agrotóxicos e foi produzido levando em consideração todas as normas que garantem a sustentabilidade, maximização dos benefícios sociais e minimização do uso de energia não-renovável, assim como a utilização de substâncias tóxicas ao solo, alimento, produtor e consumidor. Assim sendo, qualquer variação do açúcar (mascavo, demerara, cristal, refinado ou de coco) pode ser ou não orgânico.”

Segundo a última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2011) a ingestão média diária de açúcares totais é mais elevada no grupo dos adolescentes de ambos os sexos, variando de 105,4 gramas a 113,1 gramas entre os meninos e de 106,8 gramas a 110,7 gramas entre as meninas. O consumo médio diário de açúcar total entre os adolescentes foi cerca de 30% mais elevado do que entre os idosos e 15% a 18% maior entre os adultos.

“De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o consumo diário total de açúcar não deve ultrapassar 25 gramas, assim como o total de carboidratos não deve ser superior a 150 gramas. O consumo elevado de açúcar pode desencadear o desenvolvimento de diversas doenças crônicas, principalmente diabetes e obesidade, em qualquer faixa etária”, diz a nutricionista.

Nara Rúbia comenta que o consumo de alimentos orgânicos contribui para a redução na incidência de patologias associadas ao elevado consumo de agrotóxicos, como doenças neurológicas e câncer. “Para a redução de doenças crônicas não transmissíveis que podem ser causadas pelo alto consumo de açúcar, deve-se reduzir o consumo total deste macronutriente. Mesmo que oriundo de rapadura, mel, melado, açúcar mascavo, demerara, cristal, refinado, de coco etc.”

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia