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O papel dos biocombustíveis na descarbonização

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Por: Marcos Fava Neves

O principal biocombustível utilizado no mundo é o etanol, podendo ser fabricado a partir de diferentes matérias-primas (cana-de-açúcar, milho, beterraba, sorgo e outros). Nos Estados Unidos, maior produtor global (60 bilhões de litros anuais), o milho é o produto utilizado como matéria-prima. No Brasil, segundo maior produtor (30 bilhões de litros por ano), a cana-de-açúcar é a fonte principal, mas o milho tem se tornado uma importante matéria-prima, contribuindo com cerca de 20% da oferta nacional. Na Europa, a sacarose obtida da beterraba é o principal recurso utilizado. O Brasil tem o E100, que é o etanol hidratado e a gasolina tem 27% de etanol anidro adicionado.

Em teste comparativo realizado pelo grupo Stellantis, o veículo à etanol emitiu 60% menos de gás carbônico quando comparado com o movido à gasolina. Outros estudos obtiveram resultados entre 70% e até 90% de redução. Segundo a Unica (União Nacional da Cana-de-açúcar e Bioenergia), entre 2003 (quando o carro flex foi criado no Brasil) e 2020, cerca de 515 milhões de toneladas de gases de efeito estufa deixaram de ser emitidos, graças ao uso do etanol.

No campo, a cultura da cana também contribui para descarbonização. Estudo conjunto da Agroicone, Unicamp e Embrapa identificou que, entre os anos de 2000 e 2020, o cultivo de cana em terras brasileiras foi responsável por retirar mais de 196 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera, o que seria equivalente a plantar 1,4 bilhão de novas árvores. Os postos poderiam apresentar estes dados ambientais para motivar as pessoas no processo de decisão pelo biocombustível vis-à-vis a gasolina, como ação de comunicação e contribuição em prol da sustentabilidade.

O biodiesel, produzido com grãos como a soja, milho, girassol, sebo de boi e outros, está regulamentado como 12% de mistura no diesel, utilizado pelos caminhões, tratores e outros veículos pesados, com planos de expansão para até 15% em 2026. Eles podem reduzir as emissões de gases em até 72% (estudo da USP).

Outros exemplos incluem o biogás e biometano, produzidos pela decomposição de materiais orgânicos animais e vegetais (dejetos e resíduos virando energia). Segundo a Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), o potencial de geração pode chegar a 44,1 bilhões de m3, o que pode resultar em 19,5 gigawatts (GW) de eletricidade, 10,5% da capacidade atual instalada no Brasil. Há ainda o etanol de segunda geração (E2G), produzido com resíduos da indústria sucroalcooleira, o Sustainable Aviation Fuel (SAF) ou Combustível Sustentável para Aviação, fabricado utilizando a biomassa, o etanol, óleos, resíduos animais e outros exemplos.

Além de contribuir na descarbonização, os biocombustíveis desempenham importante papel econômico e social. No setor sucroenergético, por exemplo, estima-se que entre 1,8 e 2,0 milhões de brasileiros estejam empregados gerando R$ 110 bilhões de Valor Bruto da Produção (VBP).

No cenário internacional, a Índia pretende alcançar 20% de mistura do etanol na gasolina até 2025. Na Indonésia, o mandato de biodiesel no diesel é de 30% e pode chegar a 35% ainda em 2023 e outros países seguem ampliando seus programas, para benefício do Brasil, pois ocupam produtos e áreas agrícolas, possibilitando, com esta lacuna, nossa expansão.

Diante da ampla discussão envolvendo a mudança na matriz energética para um modelo renovável e sustentável, o Brasil larga na frente e faz a sua “lição de casa”, gerando oportunidades e desenvolvimento social com a bioenergia.

Marcos Fava Neves

Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) da FGV (São Paulo –SP) e da Harven Agribusiness Scholl (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Artigo publicado inicialmente na Veja

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