Entrevista|Bárbara Rubim-Absolar

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Canal – Jornal da Bioenergia: Quais os efeitos da crise imposta pela pandemia do novo coronavírus no setor?

Bárbara Rubim: De forma geral no setor de energia sentiu, já que houve redução de consumo de energia elétrica no Brasil, uma carga estimada de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Por isso, recentemente foi publicado um decreto para o auxílio às distribuidoras de energia frente à crise causada pelo Covid-19.

 

Canal – Houve efeitos negativos? Se sim, quais os principais?

Bárbara: Essa redução, na prática, representa que as distribuidoras têm a obrigação de pagar por uma energia as geradoras e que ela não vai conseguir alocar, já que não há consumo. E junto essa situação, também houve um aumento da inadimplência, no patamar de aproximadamente 12%. De uma maneira geral, esses pontos têm criado uma crise no setor e, por isso, o governo organiza a liberação de empréstimos para as distribuidoras.

Sobre a perspectiva do consumidor, o impacto da crise no ponto de vista da energia elétrica é que ele continua tendo a obrigação de pagar a sua conta, apesar da Aneel ter suspendido a possibilidade de corte por 90 dias,  mas essa definição só é válida para o consumidor residencial e de serviços essenciais. O consumidor comercial continua com a possibilidade de ter a sua energia cortada e, portanto, com as suas obrigações financeiras perante a distribuidora.

Sob uma ótica do setor que gera a própria energia, como por exemplo, a geração distribuída, há também alguns impactos. O primeiro foi uma desaceleração do setor, já que os consumidores, no momento, têm pensando em investir menos para a contenção de custos e, isso, acaba gerando impactos para as empresas que comercializam o sistema de geração própria, seja energia fotovoltaica ou sistemas geridos a partir de biomassa.

 

Canal – O que precisa ser feito para atravessar esse ano e mitigar os efeitos negativos para o negócio? O que depende do governo federal e dos estaduais? E o que o próprio setor pode fazer?

Bárbara: No setor de energia, em resumo tivemos queda de consumo, aumento da inadimplência e sobra de energia nas distribuidoras, criando um descasamento de contas, já que a distribuidoras têm que pagar.

Mas na área de negócios, as empresas não tiveram tantos problemas como poderia ter sido. O setor continuou capaz de fechar negócios e conseguiu crescer, mesmo que abaixo do esperado no início de 2020. Mas, a expectativa para o pós-crise é de crescimento. A crise reforça o consumidor, em especial as empresas, a se preparar e a desenvolver mecanismos para proteção. Gerar a própria energia é, sem dúvida, um desses engenhos, por que a conta de luz é um dos maiores gastos de uma empresa.

Passado esse período agudo da crise, espera-se que o setor de geração própria de energia volte a crescer a longo deste ano e também no ano q vem. O Governo Federal tem negociado um plano de negociação pós-pandemia, mas é importante que os governos estaduais e municipais também os desenvolvam. Os governos estaduais tem papel importante na  geração distribuída , seguindo os passos de Minas Gerais, que ausenta o consumidor que gera energia de pagar ICMS da energia gerada,  trazendo neutralidade tributária.

Canal – Que lição tirar dessa situação atual?

Bárbara: A nossa sociedade é um pouco resiliente para essas dificuldades. A gente precisa repensar a forma como consumimos e como interagimos como sociedade e com a natureza. Apesar da crise que vivemos devido ao Covid-19, uma mais séria já está prevista devido às mudanças climáticas. E assim, como o mundo estava despreparado para lidar com o corona, também estará despreparado para este, que já está acontecendo e que será infinitamente mais grave.