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Entrevista | Guilherme Nastari – Datagro

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Guilherme Nastari é mestre em Agronomia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Economista pelo IBMEC de São Paulo. Desde 2005 é diretor da consultoria agrícola, Datagro, participando de vários projetos consultivos de mercado de açúcar e etanol na empresa. Os principais clientes são produtores de açúcar, etanol e biodiesel, tradings, bancos, distribuidores de combustíveis, fornecedores de insumos, governos e ONGs.

Canal: Como o Brasil deve fazer para manter-se na liderança do setor sucroenergético mundial, seja em termos de produção como em tecnologia agrícola e industrial de açúcar, etanol e bioeletricidade?

Guilherme Nastari: O Brasil está fazendo seu dever de casa. Se olharmos a história recente, nos últimos 30 anos, o País era um dos maiores importadores  de commodities agrícolas e, atualmente , é um dos maiores exportadores destes commodities. Essa situação  aconteceu quando há uma desregulamentação do setor, quando o governo tem a menor intervenção possível. E como isso reflete no setor sucroenergético? A partir de 1994 até 1999 – que foi o período de desregulamentação– a indústria passou a investir em tecnologia e se desenvolveu, tornando uma das regiões mais importantes e produtoras de cana-de-açúcar do mundo.

Um exemplo da continuidade deste movimento é o RenovaBio. Ele representa para a sociedade e para outras regiões produtora que o setor está preocupado com a eficiência e com pegada de Carbono. Essa é a primeira vez em 500 anos que vemos a integração das energias renováveis, com a fabricação de álcool de cana e de milho na mesma planta, além da produção de biogás, organomineral e a cogeração de energia. Essa é uma oportunidade grande para se apropriar desta agenda de eficiência e menor impacto ambiental. E o Brasil tem feito isso.

Canal: E a produção de biogás no setor sucroenergético? Há crescimento real?

Guilherme: O biogás é o assunto do momento do setor. A matéria-prima do dele são os resíduos do processo de produção de açúcar e álcool.  Assim, os subprodutos do açúcar e álcool é o produto do biogás. Nara biodigestão são utilizados a torta, a palha, a vinhaça e, eventualmente, até o bagaço. Assim,  o metano é retirado e o resíduo que sobra é um composto orgânico com as mesmas características minerais que ele tinha quando entrou no processo , por isso, ele volta ao solo.  Assim, as usinas fazem o mesmo processo que acontece no campo, mas em um ambiente controlado e envazando o metano. É um processo muito moderno e integrado, que ajuda a resolver o problema de DBO da vinhaça. Acredito que será um sucesso no Brasil.

Canal:  E a guerra contra o açúcar por meio de políticas protecionistas?

Guilherme: Existem duas guerras no mercado de açúcar. Uma que o açúcar é um vilão, que engorda e que faz mal à saúde e outra de acesso a mercado. O açúcar é uma das commodities mais protegidas do mundo hoje, devido a sua antiguidade, tem mais de 500 anos. Ele é estratégico e representa energia. Além de ser comida, o açúcar é a forma mais barata de alimentação. Se avaliarmos em período de crise há um maior consumo de açúcar em países nessa situação. Então, sempre haverá discussões sobre acesso, por isso, o apoio ao Governo Federal é fundamental para o fornecimento de argumento técnico e, assim, defender os interesses do setor.

Canal: O que deve ser feito em relação ao etanol?

Guilherme: Estamos no melhor momento do etanol, muito promissor. A sociedade está conhecendo o impacto positivo que o etanol causa. Por exemplo, no Brasil não temos alta concentração de poluição nos grandes centros por causa do álcool. E por isso, os brasileiros não precisam usar máscaras, como acontece em outros países. Também estamos um momento importante de competitividade econômica – é um produto barato- e, o mais importante, é verde. Além de ser produzido dentro de casa, empregando mão de obra nacional.

Canal: E o etanol de milho? Há perspectivas de ampliação?

Guilherme: As perspectivas são positivas. Esse ano foi produzido 1,4 bilhão de litros e para a próxima safra, a estimativa da Datagro, é de 2,5 bilhões. Já para 2021, é de 4,3 bilhões de litros. Esse crescimento se deve a matéria-prima barata em várias regiões do Brasil, além da demanda por álcool. É uma oportunidade  não exportar o milho  e de  converter  esse cereal em um produto industrializado e de o valor agregando no País.

Canal: Qual a vantagem do etanol produzido do cereal em relação ao da cana?

Guilherme: A vantagem é a produção deles em conjunto, na planta flex. A vantagem está na eficiência energética. O processo de produção de etanol tem um excesso de energia  e pode-se utilizar essa sobra para alimentar a planta de etanol de milho. Agora, analisando apenas uma planta full de milho, só é compensatória quando a avaliação econômica é positiva, isso é, quando o cereal está barato, se há fonte de energia mais barata – se há madeira, bagaço entre outros na região – para que viabilize a geração de energia para produzir o álcool.

Canal: Vivemos um 2019 com o etanol dominando a produção das unidades. Essa tendência deverá repetir em 2020 também por conta do excedente de oferta mundial do açúcar?

Guilherme: Para 2020 ainda é esperada uma safra alcooleira, apesar dos incentivos para a produção de açúcar.

Canal: E a safra atual? Quais as expectativas finais?

Guilherme: Para esta safra na região Centro-Sul foram produzidas 601,89 milhões de toneladas de cana, 27, 36 toneladas de açúcar. De etanol 33,33 milhões de toneladas. Para a safra de 2020 ainda não temos números.

Canal: O RenovaBio é vital para o setor? Por quê?

Guilherme: Ele é fundamental por dois motivos. Para a sociedade brasileira reafirma o compromisso de emitir Carbono. O programa mostra que quem emitir mais Carbono é mais valorizado e para o setor é mais clientes.  O RenovaBio vai gerar uma demanda potencial de, no mínimo, 200 milhões de toneladas de cana nos próximos dez anos.

Canal: Como estão as adesões?

Guilherme: As usinas aderiram ao programa. A nossa expectativa era de ter 90 usinas certificadas ou no processo, mas na realidade há mais de 180. A última fase do programa, de como será a comercialização do CBio na Bolsa, ainda está em discussão.

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia