Foto -Divulgação Coppe/UFRJ

Energia vinda dos oceanos é ambientalmente interessante e começa a ser explorada no Brasil

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Com quase oito mil quilômetros de costa marítima, o Brasil é um país que se destaca pelas belas praias e diversidade ambiental. Mais que isso, empresas e pesquisadores querem ir mais longe: aproveitar as ondas e marés para gerar energia.

Segen Estenfen, professor de Engenharia Oceânica do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), comenta que há várias maneiras de se aproveitar a energia dos oceanos, entre elas, pelas ondas e marés. “O termo maremotriz é relacionado às marés, fenômeno que ocorre duas vezes ao dia, por cerca de 12 horas. A onda é outro fenômeno, que acontece a cada 6 a 10 segundos, mais ou menos. São fenômenos diferentes, que exigem técnicas distintas para se fazer o aproveitamento.” No Brasil, existe disponibilidade dos dois fenômenos: há mais marés ao norte do Maranhão e mais ondas ao sul do Estado.

Energia das ondas

No Rio de Janeiro (RJ) deve entrar em operação nos próximos anos uma usina que aproveita energia de ondas. O projeto prevê a instalação de um conversor offshore a cerca de 14 quilômetros da praia de Copacabana, próximo da Ilha Rasa. Ela ficará a uma profundidade de 20 metros e terá capacidade instalada de 100 kW. “Nós não estamos desenvolvendo um produto, mas fazendo pesquisa de desenvolvimento. Em termos mundiais, a energia renovável dos oceanos está sendo perseguida como algo que será inserida na matriz energética de forma comercial daqui a uns 10 anos”, esclarece Estenfen.

A ideia dos pesquisadores do Coppe/UFRJ é desenvolver uma tecnologia que seja viável comercialmente num prazo de até 15 anos. Já se desenvolveu um protótipo também no Porto de Pecém, a 60 quilômetros de Fortaleza (CE), que funcionou por quatro anos, até 2013. “Foi uma experiência rica, porque nos deu dados de campo sobre a eficiência da usina. Notamos que deveríamos simplificar o dispositivo em termo de peso de material e criar um sistema de informação para reduzir custo e aumentar eficiência”, diz Estenfen, destacando que há preocupação em minimizar os investimentos. Para que os protótipos sejam instalados, anteriormente são desenvolvidas pesquisas em laboratório e, em seguida, testes em escala reduzida. No Ceará, a energia gerada foi utilizada para abastecer as próprias instalações físicas da usina. Já no Rio de Janeiro, a energia gerada deverá abastecer a guarnição da Marinha de Ilha Bela.

O projeto já está em fase de assinatura com os parceiros para que seja fabricado. Após esta etapa, deverá ser instalado em 18 meses.

Energia das marés

Diferentemente da tecnologia que utiliza ondas, a maremotriz já tem disponibilidade comercial. O sistema é modular e pode gerar a quantidade de energia necessária ou desejada. “O Brasil tem uma grande vantagem, já que quase 80% da população se concentra na faixa de até 250 km da costa. O custo de transmissão não é um problema, já que os estados localizados ao longo da costa estão cobertos com infraestrutura de transmissão”, explica o CEO da ATME Eco Solutions, Avi Meizler.

A forma de transmissão e comercialização da energia gerada irá variar de acordo com a necessidade desejada pelo contratante, pois o sistema maremotriz pode transmitir energia, por exemplo, para condomínios residenciais, hotéis/resorts, clubes de praia ou vilarejos e pequenas cidades. A energia gerada pelo sistema maremotriz poderá ser transmitida on grid ou off grid.

O valor de investimento de uma usina maremotriz depende da definição da demanda (em MW). O CEO antecipa que, em princípio, estima-se um investimento em CAPEX de US$800 mil por megawatt de potência instalada.  “Comparada à energia solar, o investimento em CAPEX na construção de 1 MW é até US$ 1,5 milhão. Já, a energia eólica é de US$ 1,75 milhão até US$ 3 milhões por 1 MW. Então, a geração de energia maremotriz é a mais competitiva e viável”, conclui Meizler.

Viabilidade

O sistema maremotriz da ATME Eco Solutions será 95% nacionalizado. Serão importados apenas os componentes eletrônicos, o restante será produzido localmente.

Meizler comenta que as dificuldades com ondas de grande amplitude foram dribladas por conta do desenvolvimento pela empresa de um algoritmo inteligente, no qual o sistema automaticamente “reconhece” o tipo de onda e, independentemente, eleva os flutuadores sobre o nível de água ou cria um processo de submersão de flutuadores no mar, a fim de proteger o equipamento e sistema contra danos mecânicos. “Ondas de grande amplitude danificam o rotor e sua a vida útil cai para cinco ou três anos. Hoje, com o desenvolvimento de tecnologia avançada, o algoritmo reconhece grandes variações de onda e, antes de danificar o equipamento, ou ele submerge completamente ou emerge para ser preservado, quebrando o paradigma de que sistema maremotriz não é viável economicamente.”

Com relação à tecnologia estudada pelo Coppe/UFRJ, atualmente, com base nos estudos realizados no Ceará, a energia gerada por ondas custa em torno de três vezes o valor da energia gerada por hidrelétrica, levando-se em conta os equipamentos utilizados e suas manutenções, entre outros fatores. Para o projeto do Rio de janeiro, a expectativa é chegar num valor que seja o dobro do custo das hidrelétricas.

Dentro dos próximos 15 anos, o professor Estenfen afirma que há perspectiva de que essa tecnologia seja competitiva com a hidrelétrica ou próxima da eólica. Além da questão financeira, leva-se em consideração também as dificuldades ambientais atuais e do futuro. “Mesmo se o valor econômico for um pouco mais elevado, ele poderá se justificar em função de todas as questões ambientais envolvidas.”

Além do custo, para instalar a usina existem também dificuldades tecnológicas. “O grande desafio é ter um sistema que consegue gerar com constância ao longo do ano – que seja eficiente do ponto de vista tecnológico para extrair a energia da onda, converter em eletricidade e ter um custo competitivo.” Para Estenfen, o grande diferencial do Brasil como produtor de tecnologia para esse aproveitamento é que as atividades do país no mar são muito importantes do ponto de vista de produção do petróleo, que ocorre em águas ultra profundas. “Essas tecnologias, de certa forma, podem ser transferidas para essa nova fase de energias renováveis – transição que vai acontecer em todo o mundo com todas as renováveis.”

 

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia

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