Cenários da safra atual

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Confira a entrevista com Murilo F. Aguiar, que é Consultor Sênior em Gerenciamento de Riscos – Açúcar, Etanol e Moedas StoneX Brasil.

Canal- Jornal da Bioenergia: Qual a expectativa para a atual safra de cana? As geadas podem realmente reduzi-la?

Murilo F. Aguiar: Desde o ano passado, devido ao déficit hídrico, há uma expectativa da safra ser menor para esse ciclo que começou no último mês de abril. De fato, entre os meses de outubro/20 a março deste ano choveu muito pouco. O compilado acumulado na região Centro-Sul é menor que 900 mm, bem abaixo do 1.100 mm do ano anterior e da média dos anos anteriores (entre 1.100-1.300 mm), justificando as primeiras visões de expectativa de quebra de safra.

Ainda, era esperado um pouco de chuvas no final de março a maio, que poderia ajudar a recuperar o tal déficit, contudo não se realizaram. Assim, no acumulado de abril agosto desse ano, que é número mais recente acumulado, registramos apenas 96 mm, que é um número bem abaixo do mesmo período para 2020 e da média histórica (200 a 300 mm). Com isso, uma precipitação de abril a agosto menor em 49% frente ao mesmo período de 2020 intensificou ainda mais o estresse hídrico da entressafra, estendendo o problema não apenas para a cana e outras culturas agrícolas, mas também para nossa matriz energética, com os reservatórios muito baixos e um potencial risco de racionamento de energia.

Esse é o primeiro ponto que já influenciava a expectativa de menor processamento de cana-de-açúcar para a nova safra. Muitos falavam dos 580 milhões de toneladas de cana, mas com as chuvas cada vez mais ausentes, o consenso foi revisto para ao redor de 560 mi t. Contudo, mais recentemente, entre os meses de junho e julho, tivemos três geadas dentro de um mês, que afetaram os estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo chegando até o sul de Minas Gerais, Triângulo Mineiro e ao sul de Goiás. Isso revisou ainda mais para baixo as estimativas de safra, dado um impacto negativo esperado no TCH.

O número mais recente da StoneX, do começo de agosto e que logo será revisado, aponta uma moagem de 541 milhões de toneladas de cana e uma produção de açúcar de 34,6. Muito por reflexo de dois pontos: um mix açucareiro, de 46,1 %, e um ATR elevado de 145.5 kg/tc. Devido a intensidade das geadas e melhor apuração do ocorrido, nossos números deverão ser revistos pra uma menor moagem e produção de açúcar.

Canal: Quais outros fatores que podem influenciar para essa queda na produção?

Murilo: Devido as geadas recentes muitas áreas de cana foram colhidas com antecedência, afetando a produtividade agrícola, em especial para os canaviais mais jovens nos quais a cana ainda não tinha maturado o suficiente. Assim, muitas usinas tiveram que fazer um remanejamento logístico para evitar uma perda maior de produtividade, mas a expectativa inicial de produtividade média, feita no começo da safra, sem dúvida foi afetado, gerando, portanto, menos cana disponível para processamento.

Agora os outros dois fatores que acompanhamos são o TCH e a área colhida. O último TCH fechado é de agosto e, segundo o CTC, está em 65,3 t/ha, ante 79,7 t/ha observado no mesmo mês de 2020 – queda superior a 18% (no acumulado da safra a organização aponta queda de 14,3%). Sobre a área colhida, hoje temos menos área de cana disponível para a colheita. A Conab usava o número de 2% e, mais recentemente, foi atualizado para 4.6%.

Então, se a área for menor, com uma produtividade agrícola mais baixa vamos ter menos cana disponível frente ao esperado.  A redução de área é muito por conta dessa disputa entre grãos, que teve uma remuneração bem agressiva frente a cana, que demorou para ter uma alta significativa em comparação ao milho e a soja.

O terceiro fator que ainda pode influenciar na queda é o próprio ATR, que é uma concentração de açúcar da cana no processo industrial. Se tiver um TCH baixo, uma área de canavial reduzida e também um ATR ruim, teremos números ainda mais afetados para a produção final de açúcar e etanol.

Canal: Há ameaça de faltar etanol anidro e hidratado na entressafra que chegará em dezembro?

Murilo: É bem complexa essa pergunta. A StoneX fez alguns cálculos de estimativas com o consumo de Ciclo Otto – gasolina e etanol – com um crescimento de 7,7% para esse ano safra (abril/21 a março/22). Este valor parece percentualmente alto, mas ainda é insuficiente para retomarmos o consumo pré-pandemia (há duas safras atrás, 19/20 consumimos mais de 40,8 bi litros e com essa retomada esperamos encerrar 21/22 com menos de 40 bi litros de gasolina e etanol).

A partir da premissa de um consumo em retomada, com a participação menor do hidratado carburante de 26,5% – abaixo 6 p.p. em relação ao ano passado, conseguimos determinar alguns cálculos. Partindo dos estoques finais da safra passada, que foi de 1,95 bilhão de litros de etanol total somado a produção (já considerando o etanol de milho) que no acumulado é de 28,4 bi de litros, e saídas do mercado interno estimadas em 26,8 milhões de litros (quase 4,5% abaixo do ciclo passado), chegamos a um estoque base para março de 2022 de 1,74 bi de litros, ou seja, um estoque mais apertado que o ciclo passado e que a safra 19/20, mas um pouco mais folgado frente ao 15/16, 16/17 e 17/18 e 18/19, que rondaram entrem 1,2 a 1,5 bi litros.

É mais apertado, mas pelo histórico percebemos que não é tão baixo assim. Há boatos de discussão sobre a mistura do anidro na gasolina C, mas tudo ainda está muito incerto. O mercado ainda precisa aguardar o que realmente será a produção da safra atual de cana, para mais perto do final do ano refazer as estimativas.

CANAL: Qual o atual cenário para a produção de açúcar?

Murilo: Com base nas nossas estimativas, que devem ser revistas ainda esse mês, o número base do começo de agosto trazia uma moagem de 541 milhões de toneladas de cana e uma produção de açúcar de 34,6 mi t, ambos em torno de 10% menor que o ciclo passado, mas com um ATR de 145,5 kg/t (levemente superior ao passado, mas ainda a observar) e mix açucareiro igual, de 46,1%.

Contudo, a ocorrência das geadas mais intensas e esparsas do que o previsto, irá afetar para um TCH menor do que esperado para um canavial que já vinha sofrendo com o clima seco, o que poderá resultar numa produção de açúcar na casa de 33 milhões de toneladas, com nossa estimativa oficial ainda a ser definida.

Para o mercado global, observamos que neste mês de setembro finaliza o ciclo global 20/21 e em outubro se inicia um novo período de mensuração. Em resumo, temos acompanhado uma estimativa de retomada de produção. O mundo sairia de 183,4 milhões de toneladas produzidas para 187,4 – um crescimento de 1,8 % – muito por conta da recuperação da Tailândia, onde o clima seco afetou nos últimos dois anos. Além da União Europeia, que retoma a produtividade agrícola, com alguns países aceitando a flexibilização no uso de neonicotinóides, também estão retomando oferta de açúcar na Rússia e, possivelmente, na Índia – que só não deve crescer muito devido ao plano do Governo em destinar mais cana para a produção de etanol, deixando os números de produção de açúcar próximo da estabilidade.

Mesmo com essa retomada de oferta, a demanda crescente ainda mantém o ciclo 21/22 global (out/21 a set/22) no terceiro déficit consecutivo. O ciclo 19/20 fechou como 2,5 milhões de toneladas de déficit, para o 20/21, que fecha agora em setembro, a nossa estimativa é de -3,4 e o 21/ 22, mesmo com esse crescimento de oferta do Hemisfério Norte, o número ainda não fecha, com um milhão de toneladas negativas.

CANAL: O etanol está caro em todo o Brasil. Como explicar isso se estamos em período de safra?

Murilo: Tivemos um começo de safra com preços bem elevados, que se mantiveram firme mesmo com o avanço da moagem e produção, algo atípico para o período. Uma das questões deste alto preço é essa quebra de safra, com preocupação em relação aos estoques de passagem, se vai faltar produto ou não, e até debates se teremos alteração da possível relação de mistura do etanol anidro na gasolina. Tudo ainda é uma grande incógnita, mas aparentemente devemos ter estoques favoráveis.

O primeiro ponto é que desde meados de 2016,  a Petrobras adotou a política de paridade de preços internacionais, ou seja, acompanhando a oscilação do petróleo e derivados do mercado. Como temos menos produto disponível frente aos últimos anos, isso é, uma produção menor pela quebra da safra, a demanda teve que, de fato, ser desincentivada. Os preços do etanol subiram, por ter menos ofertas, e logo no começo fechou-se a famosa paridade na bomba, que tem ficado sempre acima de 70%, chegando a 78% em algumas praças importantes em consumo.

Os principais pontos, além dessa quebra de safra, é a relação do real desvalorizado com o preço do petróleo ainda fortalecido. Nossa situação econômica e política seguem muito conturbadas, mantendo nossa moeda muito fraca, afetando o preço do petróleo em reais. Por exemplo, no final de 2020, a negociação futura base Brent do barril era, em média, de R$ 240 a R$ 250 reais, já no final de agosto deste ano, o mesmo produto está na casa de R$370 a R$ 380/barril. A commodity internacional subiu porque a OPEP+ restringiu muito a oferta por conta da pandemia e de uma demanda ausente, e essa oferta não retomou a níveis pré-pandemia mundo afora. Nos EUA, por exemplo, a produção de petróleo era de quase 13 milhões de barris por dia até fevereiro e março de 2020, reduzindo-se drasticamente com a pandemia e com retomada lenta de oferta, entre 11 a 10 milhões de bpd (ainda com reflexos da temporada de furacões que afetam as regiões produtoras). (Cejane Pupulin/ Canal – Jornal da Bioenergia)