Os entraves da pesquisa com cana transgênica no Brasil

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A modificação genética é sempre um assunto da pauta sobre a evolução da ciência. Produzir ou não espécies transgênicas em escala industrial continua a ser um tema polêmico, tanto no Brasil como no exterior. Ainda não existe nenhuma variedade de cana–de–açúcar transgênica, mas as pesquisas são desenvolvidas em várias instituições. A dificuldade se refere à complexidade da cana. A professora do Departamento de Ciências Biológica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq- USP), Helaine Carrer, explica que diferentemente de outras espécies, como o milho, a cana possui oito genomas, o que dificulta as pesquisas sobre transgenia dessa espécie.

No Brasil, se destaca a Embrapa. A estatal apresentou a primeira pesquisa de variedade transgênica no país que é tolerante à seca. A pesquisa, que tem como parceiro o Centro Internacional de Pesquisas para Ciências Agrárias do Japão (Japan Internacional Research Center for Agricultural Sciences – JIRCAS), começou em 2008 e já passou por testes em laboratório e casa de vegetação. Em janeiro deste ano, os dez materiais mais promissores foram plantados para multiplicação em Piracicaba, em São Paulo, em área cedida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Agora, a Embrapa solicitou autorizações da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para realizar testes em dois campos experimentais: um na Região Centro-Oeste e outro na Região Sul.

A pesquisa

O pesquisador que coordena o trabalho, Hugo Bruno Correa Molinari, explica que a tolerância à seca é, se não a primeira, a segunda característica de maior importância para cana. “O setor sucroenergético precisa de variedades mais tolerantes à seca, até porque as novas áreas de expansão da cultura têm problemas de estiagem prolongada ou chuvas irregulares”, comenta. A tolerância à seca é uma característica complexa de ser trabalhada em plantas. Devido a essa característica, os pesquisadores da Embrapa Agroenergia utilizam um gene que codifica proteínas reguladoras de diversos outros genes. A equipe utiliza a estratégia de engenharia genética de trabalhar com um “gene que controla outros genes”. “Como é muito complexo, eu tenho que ativar vários mecanismos que façam a planta utilizar mais eficientemente o recurso água”, detalha Molinari. As avaliações provaram que a cana ganhou tolerância à seca, e também apresentou aumento no teor de sacarose e taxa de brotação, além de resistência a herbicida. No entanto, ainda são necessários os testes em condições reais de campo, previstos para começar em 2016, para que os pesquisadores possam comprovar os resultados.

Mais desenvolvimento

Além da Embrapa, universidades e empresas privadas e multinacionais fazem pesquisa nessa área.  A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq – USP) também realiza pesquisas em genes da cana.  “Começamos a desenvolver a metodologia a partir do programa de bioenergia da Fapesp de regeneração de plantas por células”, explica Helaine Carrer.

As pesquisas da Esalq modificam os genes da cana-de-açúcar tolerantes ao estresse hídrico. Assim, a cana poderá tolerar a ausência de água por mais tempo, chegando a suportar até 20 dias sem água. Hoje, dependente da espécie, do solo e local, a cana tolera aproximadamente sete dias sem água. A pesquisa, que é desenvolvida há aproximadamente cinco anos, ainda não foi patenteada. As plantas desenvolvidas estão em casa de vegetação para avaliação. O próximo passo é a pesquisa de campo, mas a professora do Departamento de Ciências Biológica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq- USP), Helaine Carrer, afirma que ainda depende da liberação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que ainda não foi solicitada, além de localizar um local adequado e a multiplicação das plantas.

A Esalq desenvolve ainda pesquisa para aumentar a eficiência de fotossíntese e, assim, aumentar a taxa de ATR da cana. Na Embrapa Agroenergia, há ainda duas outras linhas de pesquisa de engenharia genética com cana-de-açúcar: uma para aumento de conteúdo de biomassa e outra para modificação da parede celular. Esta última procura facilitar o acesso aos açúcares do bagaço e palha, o que favoreceria a produção de etanol celulósico (2G) e outros produtos de alto valor agregado.

Legislação

A Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/05) regulamentou todos os aspectos do uso de organismos geneticamente modificados (OGM) no Brasil, incluindo pesquisa, testes a campo, transporte, importação, produção, armazenamento e comercialização. Para exemplificar, até o fim de 2005, apenas quatro produtos estavam liberados para comercialização: uma soja tolerante a herbicida, um algodão resistente a insetos e duas vacinas de uso veterinário. Mas até o final de 2014 foram aprovadas 61. As inovações chegaram para o milho, feijão, combate à dengue e produção de biocombustíveis por meio de microrganismos. Para a pesquisadora do Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-Açúcar (PMGCA) da Universidade Federal de São Carlos (RIDESA UFSCar), Monalisa Sampaio Carneiro, a transgenia da cana é um processo complexo e é um objetivo de médio a longo prazo. A modificação genética também pode aumentar a taxa de ATR do produto e a resistência a herbicidas e doenças. “A cana transgênica agrega valor. Se isso não fosse verdade não haveria grandes plantações e estudos da transgenia do milho”, pontua.

Liberações

Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em relação à cana, as variedades transgênicas se encontram em fase de pesquisa, algumas em experimentos no campo. Não existe no atual momento, variedade de cana transgênica aguardando aprovação para uso comercial. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) ressalta que ainda não há previsão de conclusão dos estudos, e diante disso, não nem pedido de liberação.

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia

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