Abiogás

Retrospectiva Canal/Produção de biogás tem grande potencial, mas depende de incentivos

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O uso do biogás resultante da degradação de materiais orgânicos poderia abastecer 12% de toda energia do Brasil, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Entretanto, o país só usa 0,05%, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Os dados chamam a atenção para a necessidade de se investir na produção do biogás como fonte a diversificar a matriz energética brasileira e contribuir com o meio ambiente.

Atualmente, de acordo com dados do BiogásMap, disponibilizado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás), existem no Brasil 153 unidades gerando energia elétrica, térmica ou biocombustível por meio do biogás, produzido graças a transformação de dejetos de animais, resíduos agrícolas, lixo e esgoto das cidades.

Juntas, essas unidades poderiam gerar 1.693 MWh/dia – o suficiente para abastecer o consumo de todas as residências de grandes cidades como Santo André ou Ribeirão Preto, em São Paulo – ou ainda produzir biometano (um gás renovável, substituto do gás natural de fonte fóssil) para percorrer de carro quase 11 milhões de quilômetros, o que equivale a 271 voltas no planeta Terra.

Apesar dos avanços do setor nos últimos anos, o potencial do Brasil é imenso e ainda precisa ser explorado. A EPE considera que o potencial energético das biomassas, a matéria orgânica que é usada como fonte de energia, no Brasil, saltará de 210 milhões de TEP (Tonelada Equivalente de Petróleo) em 2013 para cerca de 460 milhões de TEP em 2050. Já a Associação Brasileira de Biogás e Biometano (ABiogás) considera que o potencial nacional é de cerca de 20 bilhões de metros cúbicos ao ano nos setores sucroalcooleiro e na produção de alimentos. No setor de saneamento básico, resíduos sólidos e esgotos domésticos, o potencial é de três bilhões de metros cúbicos ao ano.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil, até 2025, tem potencial de ser o maior exportador de proteína animal do mundo. “Para isso, precisamos triplicar a produção de animais. Todavia, para garantir a segurança alimentar, precisamos resolver dois problemas: a segurança ambiental – o que fazer com os dejetos e resíduos dessa produção – e a segurança energética, pois além faltar infraestrutura adequada para atender o crescimento de demanda de energia elétrica no meio rural, a qualidade de energia é precária.  O biogás pode ser uma solução para esses dois pontos”, avalia o diretor presidente do CIBiogás, Rodrigo Régis.

Segundo Régis, “hoje, o biogás no Brasil, como mercado e negócio, ainda está muito aquém do seu potencial, mas já se pode sentir uma evolução tanto da quantidade de plantas de biogás como também das condições de mercado para atrair os investidores, uma vez que o governo está criando uma base de regulações e resoluções. O setor também conta cada vez mais com um envolvimento maior dos atores, seja do agronegócio, seja das instituições de pesquisa e desenvolvimento ou dos órgãos governamentais.“

Para se ter uma ideia, o vice-presidente da ABiogás, Alessandro Gardemann, destaca que, atualmente, o Brasil utiliza menos de 0,5% do potencial de biogás a partir dos resíduos já existentes, urbanos e agroindustriais.

Gardemann atribui a baixa utilização do gás, se comparada ao potencial, a um fator histórico. “Na nossa avaliação, no passado havia a preocupação ambiental com a utilização do biogás, para tratamento dos resíduos orgânicos, mas faltava a componente econômica. Com isso, a tecnologia e confiabilidade dos sistemas não estavam aptos a atender às demandas do setor energético. Hoje o Brasil já tem unidades comerciais operando em todas as escalas com tecnologias ambientalmente, energeticamente e economicamente sustentáveis.”

Rodrigo Régis concorda com a justificativa histórica, ressaltando que o Brasil nunca olhou o biogás como uma fonte real de energia. “O biogás sempre teve sua margem por duas questões. Primeiro, era tratado sem padrões de qualidade, sem um modelo de negócio que dava a ele uma geração firme. Isso está mudando, estamos trabalhando com biogás de segunda geração, buscando a qualidade e a firmeza dessa disponibilidade.”

Dentro dessa nova realidade, o Ministério de Minas e Energia já sinalizou que o biogás será contemplado dentro do grupo do Programa de Geração Distribuída que será lançado.  “Já começamos a ver o gás nos leilões de energia. No último, uma planta de biogás foi contemplada. Existem ainda várias resoluções estaduais com a retirada de ICMS, que dá mais viabilidade econômica para os projetos”, diz Régis.

Na visão do diretor presidente do CIBiogás, a cada dia esse tipo de energia vem vencendo a falta de informação e provando sua força e potenciais econômico, ambiental e social, ao levar competitividade, principalmente, para o agronegócio.  “Sem dúvida o biogás passará por uma fase de expansão, tal qual a energia eólica, que deu um ‘boom’ há quase 20 anos e hoje tem uma participação e competitividade no Brasil já considerável. O biogás está no momento de dar essa expansão rápida e isso se deve à questão do marco regulatório, do envolvimento dos principais atores que têm substrato para a produção do biogás”, avalia Régis.

Mercado

Recentemente, a ABiogás apresentou o Programa Nacional de Biogás e Biometano (PNBB) ao governo federal, por meio do Ministério de Minas e Energia. “Hoje o biogás já participa do mercado regulado por meio de leilões, tendo um projeto contratado no último A-5. Com a regulamentação do biometano pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em janeiro de 2015, as distribuidoras de gás canalizado estão avaliando fazer contratos de longo prazo de fornecimento”, comenta Gardemann.

A geração de resíduos orgânicos na agroindústria, no saneamento e no setor de alimentos já existe e com um potencial enorme, segundo estudos da ABiogás, de quase 25% do consumo de energia elétrica do Brasil ou capaz de substitui 40% do consumo nacional de diesel. “Ao não aproveitar o biogás, são emitidos gases de maneira involuntária, gerando potenciais passivos ambientais. A biodigestão anaeróbica mitiga os impactos ambientais e gera energia elétrica e substituição de diesel de maneira descentralizada, perto dos locais de consumo, reduzindo custos de transporte e transmissão, além de diminuir a necessidade de importação de gás natural liquefeito e diesel. E isso com uma pegada de carbono negativa”, analisa Gardemann.

A empresa Air Liquide, por meio da tecnologia de produção de biometano por membranas, é responsável por processar mais de 100 mil metros cúbicos de biogás a cada hora em todo o mundo, produzindo mais de 50 mil MMBTU por dia em Gás Natural Renovável em mais de 50 unidades. O gerente executivo de negócios avançados e tecnologias para a América do Sul da empresa, Caio Mogyca, avalia que o potencial não aproveitado é resultado da falta de uma política pública que regulamente e fiscalize as emissões de gases nocivos na atmosfera e também estimule a recuperação e uso de energias renováveis desperdiçadas, permitindo acesso a múltiplos atores de mercado  ou players. “Dessa forma, haverá uma demanda por fontes renováveis que incluiria o biogás. Nesse caso, ainda pode haver o benefício de impulsionar os investimentos nas áreas de saneamento com o acréscimo de uma fonte adicional de recursos proveniente do aproveitamento energético de rejeitos orgânicos agropastoris e urbanos (aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto).”

Benefícios

O biogás pode ser transformado em energia veicular e térmica, substituindo combustíveis fósseis, cada vez mais escassos e caros. É uma fonte energética renovável e sustentável, considerada uma alternativa eficiente e barata em relação aos recursos fósseis. As aplicações do biogás dão diferentes níveis de competitividade. Muitas regiões não têm acesso a gás ou combustíveis, mas possuem um grande potencial para o biogás. Nesses locais, o biogás é uma fonte competitiva, visto que os projetos têm uma alta taxa de retorno. Na questão da energia elétrica o biogás pode atuar em dois mercados nas grandes gerações, como mostrou o leilão A-5 promovido pela Aneel, em que um projeto de biogás em larga escala venceu. Nas pequenas gerações, outra vantagem é que a energia elétrica gerada pelo biogás é descentralizada, podendo ser ligada diretamente à rede da distribuidora de eletricidade, o que facilita o acesso à eletricidade em pequenas comunidades e economiza gastos com redes de distribuição.

Caio Mogyca explica que a contribuição ambiental ocorre, primeiro, pela redução das emissões de gases de efeito estufa. “A degradação de materiais orgânicos gera emissão de metano, que se não for recuperado e utilizado ou destruído, tem um efeito 23 vezes mais nocivo que o dióxido de carbono (CO2). Além disso, este metano, quando recuperado na forma de Gás Natural Renovável, substituirá perfeitamente o gás natural de petróleo, reduzindo ainda mais as emissões de CO2.”

Já, segundo ele, a contribuição econômica começa pela recuperação de um recurso energético normalmente desperdiçado e com um impacto significativo em termos de geração distribuída, com menor necessidade de investimentos em geração e distribuição de energia. “Também podemos considerar a geração local de empregos, tanto na manufatura de equipamentos quanto nas unidades de recuperação e geração de energia ou gás natural renovável.”

Nesse contexto, Mogyca avalia que, na maioria dos casos, o biogás é uma fonte de energia competitiva frente às demais, em especial se forem contabilizados os impactos ambientais. Ele destaca as alterações que podem ocorrer em cada país, graças às diferentes realidades econômica, ambiental e política, que influnciam incentivos, preços de mercado ou custos de energia. “O sucesso de cada projeto depende de uma análise criteriosa, que permita a sustentabilidade econômica no longo prazo. Como exemplo em cenários distintos, em países como França e Alemanha há uma tarifa especial mínima que estimula o uso do gás natural renovável, ainda que seja competitivo com o gás natural. Enquanto que nos Estados Unidos, regulamentações nacionais e de diversos estados exigem uma quantidade mínima de energia renovável a ser fornecida (tanto para geração de eletricidade quanto para transporte) e o gás natural renovável está em uma das categorias mais valiosas.“

O biogás tem benefícios econômicos, ambientais e sociais, além de ser um parceiro na superação da crise energética mundial. “Essa é a única fonte de energia renovável que transforma um passivo ambiental e o transforma em um ativo energético com valor econômico, que pode ser uma nova renda para o produtor rural. Na questão econômica, é importante explicar que o agronegócio representa 33% do PIB brasileiro e gera 37% dos empregos no país”, comenta Régis. No contraponto dessa representatividade, o mercado do agronegócio pode perder competitividade por causa dos altos custos com energia elétrica, diesel e lenha, enfrentando ainda os passivos ambientais que pode produzir devido à atividade.  A solução para esses desafios pode estar na própria cooperativa ou propriedade rural, segundo Régis. “Com a produção do biogás, por meio da transformação dos dejetos de animais e industriais, pode ser promovida a segurança e eficiência energética e gerado negócios e empregos locais.”

O uso do sistema de biodigestão dos dejetos de animais permite a redução de emissões de gases do efeito estufa na atmosfera. Além disso, pode-se mitigar passivos ambientais provenientes de depósito de dejetos de animais no solo e nos recursos hídricos.

Biogás para produção de energia é alternativa econômica e ambientalmente sustentável

Entrou em funcionamento neste segundo semestre, com inauguração em setembro, a planta de biogás instalada na cidade de Caieiras (SP), que será a maior geradora de biogás de aterro com motogeradores do mundo. Ela apresenta capacidade de 30 megawatts de potência e pode abastecer cerca de 80 mil residências.

O biogás da planta é gerado a partir do lixo coletado nas cidades de São Paulo e região metropolitana. Após aterrado, há formação do gás que é inserido nos motores. Antes dessa inserção, entretanto, é preciso que se faça o tratamento do gás para garantir que não haja prejuízos ao maquinário.

O biogás de aterro tem percentual de metano que varia de 50% a 55% e carrega muito siloxanos, o que faz com que seja necessária uma boa estação de tratamento para reduzir essa quantidade antes de alimentar os motores. Caso contrário, seria necessária uma manutenção frequente, gerando maior custo de produção. É isso que explica Lucas Monteiro, gerente regional de vendas da AB Energy, empresa que desenvolveu a planta em Caieiras. “O segredo da produção é fazer um bom tratamento desse gás antes de levar para os motores. No caso de geração de energia elétrica, após tratado, o biogás é inserido nos motores e, ao invés de comunicar a energia mecânica para rodas, como nos veículos, é comunicada para gerador de energia elétrica.”

Há uma subestação no próprio aterro. Após a geração, a energia é vendida no mercado livre e distribuída por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN). Na planta, são produzidos cerca de 17 mil metros cúbicos de biogás por hora. Vale lembrar que o biogás tem capacidade energética duas vezes e meia menor que o diesel, ou seja, precisa de maior volume para gerar a mesma quantidade de energia. Com relação à viabilidade econômica, a venda do gás custa cerca de R$250 por MW/h. “O custo de produção é menor que a metade desse valor. Além disso, trata-se de uma energia renovável, sustentável do ponto de vista econômico e ambiental”, diz Lucas.

O territory manager da Caterpillar no Brasil, Marcelo Cupolo, explica que a dificuldade de produção do biogás está no fato de que o mercado nacional ainda não está totalmente desenvolvido, sendo necessário que as empresas forneçam uma solução completa, desde a instalação até a manutenção do sistema. “A produção do biogás é uma forma racional de aproveitar a energia contida nos resíduos. Comparando com outras fontes, tem-se rendimento de 40% da demanda elétrica, o que aliada à térmica pode chegar a 80%. Assim, passa-se a deixar de usar uma parte da energia contratada da rede.”

Marcelo afirma que a instalação de biodigestores compensa dependendo do combustível colocado em comparação. “No Brasil, a energia elétrica ainda é muito barata porque é proveniente das hidrelétricas. Mas ao se comparar com o valor de custos, impostos e distribuição, o biogás pode ser mais barato que a energia que o usuário compra da rede. Quando o produtor passa a tratar o resíduo como fonte de renda, tem maior cuidado com ele e, consequentemente, melhores práticas para proteger o meio ambiente.”

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia