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Etanol de milho é alternativa para usinas na entressafra da cana

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Não há diferença entre etanol produzido a partir de milho ou de cana, mais tradicional no Brasil. As diferenças estão ligadas a custos e tempo de produção, que variam em cada cultura.

O gerente de planejamento da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Cid Sanches, comenta que a principal vantagem em se investir na produção de etanol de milho Brasil está ligada ao fato de que há grande oferta e demanda do milho, especialmente em Mato Grosso, onde o consumo interno é pequeno e as exportações representam quase 70% da produção. Em 2015, o total exportado no Estado foi de 14,5 milhões de toneladas e a produção de 21,2 milhões de toneladas. “Por ter uma grande produção e estar localizado longe dos principais portos de embarque, o preço dentro de Mato Grosso é o menor do Brasil, com média de R$15,00/saca em 2015. Nesse sentido, produzir etanol a partir de milho é uma alternativa de agregação de valor ao produto, além de favorecer outras cadeias, como a da bovinocultura de corte, devido ao DDG (subproduto da produção), que pode ser utilizado como ingrediente na nutrição animal” diz.

Viabilidade

Atualmente a frota automotiva brasileira é de 34,3 milhões de automóveis, sendo 28% destes automóveis flex. A previsão é que em 2026 a frota alcance 44,6 milhões de automóveis, sendo 32% flex. “Isso mostra que a demanda tende a crescer muito nos próximos anos e a produção de etanol a partir do milho pode ser mais uma alternativa para supri-la”, comenta Cid. Segundo ele, a produção de milho é mais fácil que a de cana-de-açúcar, já que pode ser estocada em silos, enquanto a cana precisa ser processada logo após a colheita.

A maior desvantagem da produção de etanol de milho está ligada ao rendimento por área produzida. De acordo com Cid, atualmente uma tonelada de cana produz entre 80 e 90 litros de etanol, enquanto a mesma tonelada de milho produz de 390 e 410 litros. Entretanto, a cana-de-açúcar produz em média 77 toneladas/ha e o milho 6 toneladas/ha, ou seja, enquanto um hectare de cana-de-açúcar tem o potencial de produzir cerca de 6.400 litros de etanol, um hectare de milho pode produzir 2.400 litros.

Por outro lado, o milho apresenta maior disponibilidade. Cid afirma que “atualmente a maioria do milho produzido é exportado e poderia permanecer no Brasil na forma de etanol, agregando maior valor no processo. Além disso, contribuiria também na produção de carnes do Brasil, possibilitando então uma maior exportação deste produto, que possui um maior valor agregado. Para se ter uma ideia, em 2015 a tonelada de milho exportada por MT rendeu em média US$ 162,00, enquanto a tonelada de carne bovina foi de US$ 3.518,00”.

Potencial

De acordo com o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Helio Sirimarco, a região que mais produz etanol de milho é a Centro-Oeste, que é a maior produtora de milho do Brasil. A produção ainda é pequena, mas existe perspectiva de aumentá-la. “Produtores de Mato Grosso desenvolvem, com o governo do Estado, um programa de transformação do excesso de milho da região em etanol.” O programa só avança com apoio do governo, principalmente com um escalonamento das taxas de impostos. Segundo ele, esse incentivo poderia elevar a produção de etanol de milho em usinas flex para 1.3 bilhão de litros, superando a de álcool provindo da cana, hoje em 1.1 bilhão de litros.

Estudo Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada do (IMEA) indica que o faturamento bruto de 10 milhões de toneladas de milho exportadas é de R$ 2.7 bilhões, e o estado não tem arrecadação devido à isenção de ICMS das exportações de commodities. Mas, com a transformação de 10 milhões de toneladas do cereal em etanol, esse valor – incluindo subprodutos e cogeração de energia – subiria para R$ 12.5 bilhões, com ganhos para os produtores, para o estado e demais setores interligados ao agronegócio. A cogeração de energia traria para o Mato Grosso arrecadação estimada em R$ 698 milhões, e seria responsável por 8 milhões de MWh (megawatt-hora) por ano de eletricidade.

O estudo indica que essa matéria-prima (DDGS) pode ser destinada para a pecuária de Mato Grosso e de todo o Centro-Oeste. Já as exportações gerariam uma receita anual de R$ 1.2 bilhão. A industrialização de milho nesse patamar elevaria a área de plantio de eucalipto do estado para 951.000 hectares. A industrialização do cereal necessita do eucalipto. Pelo preço atual, usinas e armazéns que usam o eucalipto para a secagem de grãos gerariam R$ 3 bilhões por ano para os produtores de lenha. A área atual de plantio no Mato Grosso é de 187.000 hectares.

“O aumento da produção de etanol de milho pleiteado pelos produtores já foi entregue ao governo do estado, mas só é viável com uma isenção fiscal escalonada para o setor”, comenta Helio. Segundo ele, a produção de uma usina dedicada apenas à etanol de milho fica inviável com ICMS de 25%. Para cada R$ 1,00 investido, há um prejuízo de R$ 0,72. “Um programa de incentivo do governo com uma taxa de 3% tornaria viável o investimento e geraria receitas de US$ 180 milhões para o estado. O investidor teria retorno de R$ 5,20 por R$ 1,00 investido.”

Assim, com o amadurecimento dos projetos, o governo estadual colocaria taxas crescentes de impostos. Em um patamar de 7%, por exemplo, a arrecadação estadual seria de R$ 420 milhões, e o produtor ainda teria um retorno de R$ 3,98 por cada R$ 1,00 investido.

O Mato Grosso utiliza atualmente 220 mil toneladas de milho para a produção de etanol, que atinge 88 mil litros. O etanol de milho viria cobrir as necessidades de consumo no estado e permitiria a colocação desse produto em outras regiões, diminuindo a necessidade de importação de gasolina. Uma tonelada de milho gera de 345 a 395 litros de etanol e desse processo de industrialização a usina extrai de 220 a 240 quilos de DDGS.

Por outro lado, a terceira maior comercializadora independente de etanol dos Estados Unidos, a cooperativa americana CHS, quer se estabelecer como importante participante no mercado de biocombustível no Brasil. Com pouco espaço para entrar no já consolidado segmento de etanol de cana, a americana vê oportunidades no mercado de etanol de milho, ainda em fase de crescimento no País.

No Estado de Goiás, segundo maior produtor de cana do Brasil, o etanol de milho também tem se destacado. O estado ocupa a quarta colocação no ranking nacional de produção de milho. De acordo com o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) para a área de Cana-de-Açúcar, Alexandro Alves, não há dúvidas do potencial para alcançar ainda mais expressividade na produção de etanol, especialmente no período de entressafra, momento mais interessante em se utilizar o milho como matéria prima. “O fator logístico é o que mais pesa na análise de viabilidade da produção de etanol de milho, e nisso Goiás não é tão competitivo quanto Mato Grosso, por exemplo, onde a matéria prima é mais barata e o fator logístico não contribui muito para exportação do grão in natura.” Ainda assim, de acordo com o assessor técnico, há boas perspectivas futuras para produção de etanol de milho em Goiás. “Grandiosos projetos já estão em desenvolvimento e, sem dúvida, poderemos nos distanciar ainda mais do terceiro colocado na produção nacional de etanol.”

Futuro

O vice-presidente da SNA, Helio Sirimarco, comenta que a entrada da cooperativa americana CHS no mercado brasileiro se dará por meio da parceria com a gaúcha USI Biorefinarias, com a qual a americana já havia selado um acordo de comercialização do produto.

O plano da USI é de instalar até o ano de 2020, usinas no Centro-Oeste que totalizem a capacidade de produção de 750 milhões de litros por ano. Essas unidades irão demandar investimentos de cerca de R$ 1 bilhão. Somente no Centro-Oeste, devem ser 15 usinas com capacidade anual de produção de 525 milhões de litros. No caso de Mato Grosso, essa produção até 2020 demandaria em torno de 4% da produção local de milho.

Os volumes até 2020 são modestos em relação à produção brasileira de etanol em 2014, de 28 bilhões de litros, sendo 100 milhões de milho. No entanto, é bem superior ao volume que a CHS deve movimentar em 2015 no Brasil (120 milhões). Nos EUA, a cooperativa tem participação de 7% na comercialização de etanol. Neste momento, a USI tem quatro contratos de intenção de investimento assinados com produtores do grão no Centro-Oeste. Dois contratos foram assinados com produtores da região de Nova Mutum, cada um para uma usina com capacidade diária de produção de 100.000 litros. Um terceiro é para uma unidade de 50.000 litros. Em Mato Grosso do Sul, foi assinado um contrato na região de Dourados para uma unidade com capacidade diária de produção de 50.000 litros.

Desafios

O alto investimento para a construção de uma usina é um dos entraves para o estabelecimento da produção de etanol a partir do milho. Outro ponto que também pode ser um problema é a produção de bioenergia, principalmente para usinas full (que produzem etanol apenas de milho), uma vez que seria necessário comprar ou produzir lenha para o funcionamento da indústria. Já no caso de usinas flex (que produz etanol de cana-de-açúcar e milho) este fator pode ser mitigado por meio da utilização do bagaço de cana oriunda da produção de etanol de cana-de-açúcar.

Hoje no Mato Grosso estão em operação três usinas flex e outra deve entrar em operação em 2017. Em Goiás já são duas usinas flex. Há também dois projetos de usinas full a serem construídos em Mato Grosso e mais uma em Mato Grosso do Sul.

Conforme destaca Alexandro Alves, em Goiás não há unidades exclusivas de produção de etanol de milho, mas as chamadas usinas flex, justamente porque o objetivo é produzir etanol de milho no momento da entressafra de cana, além de potencializar o pátio industrial que antes ficava ocioso alguns dias do ano.

Para Alexandro, o maior desafio da produção é encontrar um ponto de equilíbrio no preço da matéria-prima, no caso do milho. “Cotações altas demais inviabilizam o processo, mesmo com a agregação de valor na indústria. Há ainda a necessidade de trabalhar bem a parte logística, pois a questão do frete e armazenamento não é um problema somente para o produtor rural, mas também para o industrial e a necessidade de investimento às vezes pode ser bem expressiva.” Para empresas que já possuem know how na área de grãos há maior facilidade. Já para as outras, o planejamento precisa de um pouco mais de detalhes para que o projeto não pare no meio do caminho.

Mato Grosso sai na frente

É no Estado do Mato Grosso que as primeiras usinas produtoras de etanol de milho estão instaladas. A pioneira, Usimat, situada no município de Campos de Júlio, teve sua primeira safra de etanol em 2011. Desde então, a produção nunca mais parou. Antes, a usina trabalhava com cana-de-açúcar e  incorporou o milho como alternativa para a entressafra, o que fez com que a empresa ganhasse escala de produção.

A Câmara Setorial da Soja, ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) elaboraram estão um estudo de viabilidade econômica sobre a produção de etanol de milho.

Segundo o governador do Mato Grosso, Pedro Taques, a produção de etanol de milho deve ser levada em conta na economia do Estado. “O agronegócio é a mola de Mato Grosso e o milho é uma das commodities que mais avançará em produção e produtividade nos próximos anos”.

A previsão para a safra 2024/2025 é que o Estado produza 38 milhões de toneladas de milho, segundo análise de cenário realizada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Seria um crescimento de 79% se comparado a safra 2014/2015, com 21,2 milhões de toneladas. O aumento da oferta geraria queda no preço do cereal. Na safra passada, o milho mato-grossense chegou a ser vendido abaixo do mínimo estabelecido pelo governo federal, em R$ 13,56 a saca de 60 quilos – R$ 226 por tonelada.

Nesse aspecto, a produção do etanol é bem vista, já que agrega valor ao milho produzido. Segundo o MAPA, cerca de dez milhões de toneladas do milho que hoje é exportado poderia render quatro bilhões de litros de etanol ao Mato Grosso, caso fosse processado.

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia