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Foto: Guilherme VIana

Sorgo biomassa e a produção de energia renovável

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A matriz energética brasileira ainda é majoritariamente hidráulica. De acordo com dados divulgados no final de 2014 pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), naquele ano a fonte hidráulica representou 66,9% da capacidade instalada no Brasil, a eólica 3%, outras renováveis (PCH, biomassa e solar) 11,4% e fontes não-renováveis 16,8%. A estimativa para 2023 é de 59,7% para capacidade hidráulica, 11,5% para eólica, 12,7% para outras fontes renováveis e 16,2% para fontes não renováveis.

O vice-presidente da Nexsteppe, empresa de comercialização de sementes de sorgo, Ricardo Blandy, avalia que a energia de biomassa no Brasil ainda é tímida diante do potencial que o país tem. Segundo ele, a biomassa representa apenas cerca de 8% a 9% da matriz energética. “O Brasil poderia contribuir mais do que o dobro do que contribui hoje. Houve crescimento interessante nos últimos anos, mas aInda é tímido. Isso porque, infelizmente, é uma questão de responsabilidade do governo. A energia de biomassa não tinha diferencial de tratamento com relação a solar e eólica nem política clara sobre leilões, datas e preços comercializados”, afirma. Ricardo exemplificou essa falta de clareza comentando que um leilão para o setor previsto para janeiro chegou a ser adiado até abril e teve o preço reduzido pela metade por vontade presidencial, sem qualquer justificativa.

Agora, o cenário fica um pouco complicado por causa da crise econômica mundial, que afeta diretamente o Brasil. Ricardo afirma que o consumo de energia diminuiu em torno de 4%. Por isso, os reservatórios estão cheios e o preço de energia no Centro-Sul está um dos mais baixos nos últimos 10 ou 15 anos. “Estamos em compasso de espera sobre o leilão, o posicionamento do governo entre outros, assim como o restante do Brasil, que neste momento não tem grandes perspectivas para 2016.”

Alternativa

O sorgo biomassa é uma das poucas alternativas que o produtor tem para obter biomassa em pouco tempo. As outras duas maiores fontes – bagaço de cana e eucalipto – demoram cerca de um a oito anos, respectivamente, para ficarem prontas para o corte e queima. Já o sorgo leva quatro meses para gerar de 40 a 50 toneladas por hectare disponível para ser queimado. Além disso, o sorgo não exige processamento. Após a colheita, ele já sai em toletes que podem ir direto para a caldeira.

Por outro lado, o sorgo biomassa, como outras culturas, requer cuidados à altura do que é esperado dele. “Não se trata de uma cultura tão rustica quanto todos acreditam”, diz Ricardo. Em termo de escala, é mais fácil ter milhares de hectares de cana do que de sorgo.

Levando em conta os números, o sorgo, por ser cultivado em apenas quatro meses, tem cerca de metade do custo de produção da cana. Ou seja, demora um terço do tempo e custa metade do investimento. No Centro- Sul, colhe-se cerca de 80 toneladas por hectares de cana – o que resulta em cerca de 20 toneladas de bagaço, considerando-se que há produção de açúcar e/ou etanol.

Os valores de hectare dependem do cenário energético. Se a ideia for apenas produzir energia, o sorgo tende a entregar metade do que a cana entrega. “O sorgo não tem como objetivo competir com a cana, mas complementar”, ressalta Ricardo. “Se você tem uma terra e pode comprometê-la por cinco a sete anos, é melhor investir em culturas de longo prazo. O sorgo tem uma dinâmica diferente, portanto é complementar, porque pode tanto ser colocado na área de renovação da cana (que renova de 1/5 a 1/6 por ano) ou na área de grãos – o sorgo na safrinha”, finaliza.

Produção

O pesquisador na área de melhoramento genético do sorgo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Milho e Sorgo, Rafael Augusto da Costa Parrella, comenta que a utilização da planta para produção de bioeletricidade ainda é recente.  “Suas principais vantagens estão associadas à alta produtividade e um ciclo curto. Isso sem contar a mecanização da cultura – tanto o plantio quanto o manejo cultural e a colheita são mecanizados.”

Os equipamentos empregados para o sorgo são velhos conhecidos do produtor, que já os utiliza para o semeio de grãos no Brasil. Isso ameniza os custos com mão de obra. “Temos boa eficiência utilizando mecanização”, diz Rafael.

O pesquisador da Embrapa explica que anualmente já há usinas e termelétricas plantando sorgo – e elas vêm aumentando suas áreas. “Nos próximos anos o sorgo biomassa vai ganhar mais espaço. Ele ainda é um complemento para outras fontes de biomassa. O foco é fornecer biomassa principalmente nos meses de abril e maio.” Entretanto, para as próximas safras, a expectativa é antecipar a colheita para março, período que coincide com a entressafra da cana. A intensão é de complementar, para que usina gere mais renda no período ocioso. Por se tratar de uma gramínea, a dificuldade está em manter pelo menos 50% de umidade que precisa para ser queimada.

Para que a produção apresente os resultados esperados, como toda cultura, é necessário um bom conhecimento das práticas agrícolas e plantio adequado. Rafael ressalta que por se tratar de uma planta de ciclo rápido, as respostas – como o manejo de pragas – devem ser no momento certo.

A cultura de sorgo biomassa está mostrando adaptação muito boa no Brasil. Diferentemente dos Estados Unidos, que também vêm apresentando bons resultados com o uso na cogeração, o Brasil está mais avançado devido às suas características. “Nós temos demanda pronta. Estamos expandindo para que o sorgo atenda também as indústrias que tenham caldeira para atender sua própria necessidade”, frisa Rafael.

Matriz energética é toda energia disponível para ser transformada ou utilizada.

42,5% da matriz energética brasileira é formada por energias renováveis.

A previsao para 2024 é de 45% de energia renovável.

Em 2015, 4,8% da matriz era formada por energia eólica, solar e biodiesel, com previsão de 9,9% para 2024.

O Brasil é o terceiro maior produtor de biocombustível no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Alemanha.

 Fontes: Ministério de Minas e Energias (MME), Ministério do Meio  Ambiente (MMA) e Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Ana Flávia Marinho- Canal-Jornal da Bioenergia