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Setor sucroenergético aposta em geração de energia

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A cana-de-açúcar é uma commodity altamente energética e quase que completamente aproveitada após beneficiamento e industrialização. Além da produção de etanol e açúcar, a biomassa da cana é hoje matéria-prima para geração de energia – o que antes era descartado, agora é fonte de energia para as usinas. O professor de agronomia do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), Pablo Diego Silva Cabral, doutor em Genética e Melhoramento de Plantas, relembra que o bagaço da cana, até bem pouco tempo, era considerado um rejeito, mas hoje supre praticamente toda a necessidade energética das usinas por meio da queima, podendo ter seu excesso vendido em forma de energia elétrica. “Com certeza trata-se de uma tendência. A maioria das usinas está usando, não só para consumo, mas como fonte de renda extra. Antes utilizava-se outras fontes para produzir energia. Hoje vemos que a quantidade de bagaço produzido consegue suprir a necessidade de energia térmica da usina e sobra, sendo acessível e muito limpa.” Ele explica que o poder calorífico da cana é bastante alto e, devido ao tempo de produção, relativamente curto, é vantajoso.

O gerente em Bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), Zilmar Souza, relembra que, em termos de evolução anual de capacidade instalada, a biomassa teve seu recorde no ano de 2010, com 1.750 MW (equivalente a 12,5% de uma Usina Itaipu), resultado de decisões de investimentos antes de 2008, quando o cenário era estimulante à expansão do setor sucroenergético. “Contudo, a fonte biomassa, que já chegou a representar 32% do crescimento anual da capacidade instalada no país, tem previsão de participar em 2017 com apenas 7% da expansão anual da capacidade instalada no Brasil, índice que poderá cair para apenas 1% em 2018 e 2019”, lamenta.

Em 2016, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE 2017), dentre as 378 usinas a biomassa de cana-de-açúcar em operação, 44% comercializaram eletricidade, representando um leve aumento em relação ao ano anterior, que era 40%. “Assim, há mais de 200 usinas sucroenergéticas, segundo a EPE, que, com uma biomassa já existente nos canaviais, podem passar por um processo de investimento em reforma (“retrofit”) de suas unidades, além de investimentos visando o aproveitamento do bagaço, a palha e o biogás da vinhaça, e tornarem-se grandes geradoras de bioeletricidade para a rede”, releva Zilmar Souza.

Demanda

Zilmar Souza afirma que, para os próximos anos, há demanda para essa produção. “O Plano Decenal de Expansão de Energia, recentemente aprovado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), mostra que entre 2017 e 2026 precisaremos acrescentar 55 mil MW novos ao sistema, o que representa algo como cinco usinas do porte de Belo Monte. Portanto, há espaço para uma fonte renovável e sustentável como a bioeletricidade expandir sua participação na matriz elétrica brasileira”, comenta, destacando que o Brasil utiliza apenas 14% do potencial técnico da bioeletricidade sucroenergética. Segundo o especialista, há grandes oportunidades para investimentos em bioeletricidade, até por conta da exigência da sociedade civil com relação ao consumo responsável, o que impacta em investimentos em uma fonte renovável e sustentável como a bioeletricidade.

Desafios

Para que haja o maior aproveitamento do potencial da bioeletricidade no Brasil, Zilmar Souza considera que o desafio ainda é o estabelecimento de uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade, com diretrizes claras e de continuidade, buscando garantir o pleno uso eficiente deste recurso energético renovável na matriz de energia do país.

Ele aponta como diretrizes básicas, que devem envolver ações conjuntas de agentes públicos e privados, os esforços para manter uma contratação regular para a bioeletricidade e biogás, com preços adequados nos leilões regulados; fortalecer o mercado livre como ambiente de comercialização; implementar ações que promovam a “desjudicialização” do setor elétrico; criação de condições mais atrativas para a aquisição e financiamento de máquinas e equipamentos para o retrofit e o aproveitamento do biogás, da palha e de outras biomassas; mitigação do problema da conexão às redes elétricas; e estabelecimento nos instrumentos de planejamento setorial uma visão estruturante e integrada para os produtos da cana na matriz de energia do país (etanol, bioeletricidade e biogás).

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia