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20 de Agosto de 2014
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Mecanização

Colheita mecanizada avança nas lavouras de cana do país

Elisa Gonçalves

A mecanização da colheita da cana-de-açúcar já é uma realidade irreversível nos canaviais brasileiro. O processo vem sendo acelerado por diversos fatores como: dificuldades na contratação de mão de obra para a colheita manual, cobrança ambiental, pela eliminação da queima da cana, e necessidade de promover melhores condições de trabalho para os trabalhadores rurais.  E mesmo com a crise financeira mundial que abalou o setor sucroenergético, a mecanização continua avançando nos principais centros produtores de cana do País.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas, Espaciais (Inpe) e Secretária do Meio Ambiente de São Paulo (SMA), nos canaviais paulistas a utilização de máquinas colhedoras atingiu 49,1% da área colhida na safra 2008/2009. Segundo Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), esse índice seria ainda maior se fosse considerada a colheita realizada apenas nos canaviais das usinas, excluindo as áreas cultivadas por fornecedores.

Padua cita a crise financeira global, que afetou muito as usinas, como uma das causas que retardou o processo de mecanização das lavouras de cana, refletindo na redução das encomendas de máquinas colhedoras por parte das empresas. Para Daniel Lobo, coordenador da área de responsabilidade ambiental corporativa da Unica, as usinas continuam o processo de adequação, reformando os canaviais, construindo uma nova infraestrutura viária para escoar a produção e investindo no treinamento dos funcionários responsáveis pela operação das máquinas.

Em Goiás a estimativa de mecanização da colheita na safra de 2009/2010 é de 60%, segundo André Luiz Baptista Lins Rocha, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação de etanol do Estado de Goiás (Sifaeg). Para ele, a colheita mecanizada tem avançado a contento no Estado e afirma que as unidades que tiveram licença ambiental concedida a partir de 2008 já realizam 100% da colheita sem a queima da cana-de-açúcar.

A colheita mecanizada no Estado de Minas Gerais saltou de 23% na safra 2007/2008 para 36% na colheita de 2008/2009 e nesta safra (2009/2010), de acordo com informações do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado de Minas Gerais (Siamig), o índice deve ficar entre 45% a 50%. "Esse resultado vai depender de algumas contas que ainda estão sendo feitas, mas, em dois anos, dobramos o índice de colheita mecanizada", explica Luciano Rogério de Castro, consultor de Meio Ambiente do Siamig.

O consultor destaca que o processo de mecanização é muito mais abrangente do que apenas comprar máquinas. "Ele envolve toda uma sistematização a ser seguida para obter resultados positivos, o que inclui a formatação dos canaviais para torná-los aptos a receber máquinas colhedoras, pessoal treinado para desempenhar essas novas funções e, claro, dinheiro em caixa para comprar os equipamentos".

Mão de obra

Hoje, um dos principais problemas enfrentado pelas usinas para implantar a mecanização é a falta de mão de obra qualificada. É difícil encontrar, desde operadores de colhedoras e transbordo até de profissionais de nível superior com um mínimo de conhecimento de mecanização de colheita, alerta Tomaz Caetano Ripoli, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), de Piracicaba. "Para que as usinas possam obter resultados positivos com a colheita mecânica, além de ter uma equipe bem qualificada, é necessário preparar as áreas para a colheita com máquinas, sistematizando os talhões no sentido amplo do termo, ou seja, formato do talhão, espaçamento, paralelismo entre as fileiras e adequação do micro relevo", ressalta Ripoli.

Para Luciano de Castro, consultor do Siamig, a falta de mão de obra especializada é anterior à mecanização e está ligada diretamente à grande expansão do setor sucroenergético nos últimos três anos, principalmente nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás. "Hoje, com os novos paradigmas tecnológicos, com a informatização e automação dentro das unidades, o coloborador é outro, tem outro perfil. Mesmo no campo, as novas máquinas e a agricultura de precisão estão exigindo um tipo de trabalhador extremamente qualificado, diferente de tudo que a gente sempre usou", define. 

Luciano afirma que as usinas só não tiveram problemas bem maiores, com a a falta de pessoal especializado, devido à crise financeira que atingiu o setor e que as obrigou a diminuírem suas atividades. "Com a crise, os projetos assumiram outros cronogramas, que tiveram que ser atrasados, dando às usinas um pouco mais de tempo para preparar essa mão de obra e acomodar as coisas".  Segundo o consultor ambiental, esse deve ser um dos grandes problemas do setor, que precisará investir maciçamente na qualificação desses trabalhadores. De acordo com André Rocha, presidente executivo do Sifaeg, com o aumento da colheita mecanizada surge a necessidade de requalificar um grande contingente de pessoas que trabalham com o corte manual da cana, de modo que esses trabalhadores possam ser reaproveitados, não apenas como operadores de colhedoras, mas em diversas áreas da indústria ou até mesmo no setor agrícola. "Várias de nossas associadas desenvolvem projetos de educação, de alfabetização e de melhoria do grau de escolaridade, o que já é um passo fundamental. Além disso, elas já mantêm parcerias com o Senar e com o Senai no sentido de oferecer cursos, não só para os operadores de colhedoras ou mecânicos, mas também para aqueles trabalhadores que podem ser aproveitados em outros departamentos", informa.

O executivo reforça que existe um compromisso nacional com políticas públicas voltadas para o setor - o qual utiliza recursos do Plano Setorial de Qualificação e Inserção Profissional (Planseg) e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) - baseado em investimentos na qualificação e recolocação profissional dos trabalhadores. "Temos que melhorar as condições de trabalho. Com o termo de comprometimento entre as indústrias e o poder público, tem se criado um conjunto de políticas públicas para incrementar essa questão", finaliza André Rocha.

 

Escassez de crédito freou investimentos

Além da capacitação para o uso das máquinas, o custo dos equipamentos continua sendo uma das maiores preocupações dos produtores, que viram as linhas de crédito serem reduzidas acentuadamente pelos bancos em razão da crise financeira mundial.  "O mercado de colhedoras de cana teve uma queda de 30% em 2009 no Brasil. O motivo é a falta de crédito, somado ao endividamento ocasionado pelos grandes investimentos do setor nos últimos anos", explica Roberto Biasotto, especialista de produto da Case IH.

Ele diz ainda que a retração nas vendas de colhedoras de cana é temporária e a prova disso é que a unidade fabril de Piracicaba recebeu investimentos da ordem de US$ 40 milhões. "Os recursos são investidos em pesquisas de desenvolvimento de produtos e implementação de sistemas de suporte comercial e de pós-venda, treinamento de pessoal e ampliação da fábrica", analisa Roberto Biasotto. O professor Tomaz Caetano Ripoli defende que o conceito de caro ou barato é muito relativo e que os preços dos equipamentos são compatíveis com o que existe de tecnologia e de mecanismos que os compõe. "Não acredito que se possa construir máquinas, com o atual perfil, mais baratas. Agora, se, no futuro, como defendo, a colheita integral tornar-se um padrão, aí sim, pode-se ter máquinas mais acessíveis, pois não terão sistema de limpeza", conclui.

 

Expansão do mercado

O gerente de contas estratégicas da John Deere, João Pontes, ressalta que a empresa tem condições de atender a um possível crescimento da demanda por máquinas colhedoras. "Nossa unidade de Catalão, em Goiás, está preparada para crescer. Hoje, o mercado brasileiro de colhedoras está em torno de mil unidades por ano e estamos prontos para acompanharmos o crescimento que virá nos próximos anos".

 

Legislação e Protocolos

As regras que orientam a questão das queimadas são de âmbito federal, estadual e municipal. O Decreto Federal nº. 2.661, de 8 de julho de 1998, que regulamenta o parágrafo único do art. 27 da Lei n. 4.771, estabelece as normas relativas do uso do fogo em práticas agropastoris e florestais e da eliminação gradual da queima da cana-de-açúcar até 2018. Foram estabelecidas, também, as áreas de proibição de queima, como faixas de proteção nas proximidades de perímetros urbanos, rodovias, ferrovias, aeroportos, reservas florestais e unidades de conservação, entre outros. Alguns estados produtores estabeleceram normas específicas para tratar a eliminação da queimada, entre eles São Paulo, Minas e Goiás.

 

São Paulo

Em São Paulo a lei 11.241 estipula um cronograma progressivo de extinção da queima da palha da cana, determinando que essa prática tem que ser eliminada até 2021, em áreas mecanizáveis, ou seja, cuja a inclinação do terreno seja inferior ou igual a 12%, e, até 2031, em áreas não mecanizáveis, cuja inclinação da área ultrapasse os 12%. No entanto, a crescente mecanização das lavouras de cana no Estado se deve, principalmente, ao Protocolo Agroambiental do Setor Sucroenergético, firmado em junho de 2007 entre a indústria paulista e o governo estadual, no qual ficaram estabelecidos princípios e diretivas técnicas. Entre eles, o compromisso de antecipação dos prazos legais para eliminação da queima da palha da cana para áreas mecanizáveis até 2014 e para não mecanizáveis até 2017. Além de antecipar a eliminação do uso do fogo para facilitar a colheita da cana, o documento aborda outros temas importantes, como a conservação do solo e dos recursos hídricos, proteção das matas ciliares, recuperação de nascentes, redução de emissões atmosféricas e cuidados no uso de defensivos agrícolas, entre outros. O presidente da Unica, Marcos Jank, informou que 85% dos produtores do Estado já se comprometeram a cumprir as metas agroambientais fixadas no Protocolo. E que o total de área mecanizada no Estado saltou de 34,1%, em 2007, para estimados 53,8% na safra 2009-2010.

 

Minas Gerais

Em Minas Gerais, primeiramente, por meio do Decreto nº. 39.792/98, que regulamenta a Lei Estadual nº. 10.312/98 foi permitida a queima de forma controlada, com autorização prévia do órgão competente. Essa lei apresenta uma exceção referente ao aspecto técnico da captação da plantação, ou seja, a colheita mecanizada só pode ocorrer em terrenos que possuem declividade máxima de 12%. Dessa forma, para as propriedades que possuírem declínio superior, o prazo para proibição das queimadas foi estendido até 2031. Em agosto de 2008, foi firmado no Estado um protocolo semelhante ao já assinado em São Paulo. O documento foi oficializado entre o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Minas Gerais (Siamig/Sindaçúcar-MG), representando o segmento canavieiro e o poder público mineiro. As ações contidas no protocolo, além de prever o fim da queima da cana, em 2014, tem por objetivo proteger nascentes, a vegetação em seu entorno e áreas de preservação permanentes. Para assegurar a sustentabilidade da atividade econômica determinam aos empreendedores a implantação de planos técnicos de conservação do solo e de recursos hídricos para plantios já estabelecidos e novos plantios.

Luciano Rogério de Castro, consultor de Meio Ambiente do Siamig, destaca que a principal diferença entre o protocolo de São Paulo e o de Minas Gerais é a obrigatoriedade de adesão. "O Protocolo de Minas é obrigatório e envolve outros compromissos de sustentabilidade, além da mecanização". Ele informa que ainda é cedo para fazer uma avaliação dos resultados, pois o protocolo só tem oito meses de implantação efetiva no Estado.

 

Goiás

Em Goiás, a Lei nº. 15.834, de 23 de novembro de 2006, estabelece a redução gradativa da utilização da queima da cana, com extinção total até 2028 para áreas mecanizáveis com declividade inferior a 12%. No entanto, não estabelece metas nem prazos para extinção do uso de fogo para áreas não mecanizáveis. O interessado no emprego do fogo nos canaviais deverá requerer junto ao órgão competente do Estado, a emissão de Autorização de Queima Controlada. São Paulo e Minas Gerais firmaram protocolos com os governos estaduais que preveem contrapartida dos mesmos, tais como: redução de alíquota de ICMS, investimentos em logísticas e parcerias públicos privadas. "Em Goiás, apesar de não termos feito nenhum protocolo, temos o maior índice proporcional de mecanização, ou seja, há um movimento de empresários e fornecedores ampliando os investimentos em mecanização da colheita", explica André Rocha.

 

Equipamentos novidades

Entre as novidades que chegaram ao mercado em 2009, destacam-se as novas colhedoras de cana A 3520 equipada com motor John Deere de 342 cv, que prometem aliar maior produtividade com menor consumo de combustível. As máguinas são equipadas com o sistema FieldCruise, que, associado ao motor, permite realizar a colheita com uma rotação reduzida, gerando uma excelente economia de combustível.  "Esse motor foi desenvolvido pela própria empresa para aplicações agrícolas, o que confere ao motor maior durabilidade e uma excelente reserva de torque", avalia João Pontes, Gerente de Contas Estratégicas da John Deere para a América Latina.

A colhedora 3520 também possuiu um sistema de arrefecimento mais eficiente, com ventilador reversível, o que mantém o sistema mais limpo, aumentando os intervalos de manutenção e limpeza. Os divisores de linhas da colhedora 3520 possuem ajuste de inclinação interno com maior ângulo, o que permite melhor operação em cana tombada e em canaviais mais produtivos. João Pontes lembra que o operador não foi esquecido e que a 3520 oferece maior conforto por meio de uma cabine silenciosa e bem isolada. "Comandos simples e controles precisos permitem ao operador executar o seu trabalho com maior qualidade, sendo mais produtivo ao longo de todo o turno de operação", finaliza.

Outro destaque do setor foi o lançamento recente da Case IH das colhedoras de cana de pequeno porte A 4000 que visam atender aos pequenos e médios plantadores. Ela foi desenvolvida, especialmente, para o trabalho em áreas plantadas com espaçamento reduzido, a partir de um metro. "A colhedora A 4000 representa uma nova categoria de colhedoras e será a porta de acesso à mecanização para pequenos e médios fornecedores de cana. Sinônimo de versatilidade, ela pode trabalhar tanto em propriedades com áreas plantadas com espaçamento reduzido, quanto naquelas que plantam com espaçamento convencional, mas que precisam colher em talhões menores", explica Roberto Biasotto. O especialista de produtos da Case IH ressalta que o modelo colhe 20 toneladas/hora de cana crua por hectare, o que a torna mais viável economicamente.

Para os grandes produtores, Roberto destaca a nova série A 8000, na qual foi introduzido um kit de estabilidade que aumenta de 15% para 20% a declividade em que as máquinas de esteira (A 8800) podem operar. Dentre as principais inovações das colhedoras de cana dessa série, destacam-se a nova motorização, nova cabine eletrônica, novo sistema de arrefecimento, novo picador (Extremer Chopper) e a introdução da tecnologia de agricultura de precisão Case IH, Advanced Farmming Systems (AFS). "A nova cabine eletrônica da série A 8000 apresenta características que facilitam a operação e a gestão da colhedora, bem como aumentam o conforto e a visibilidade do operador", diz Biasotto.

 

 

 

 

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