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Desafios da agroenergia Evandro Bittencourt O Brasil se coloca no centro das discussões sobre o futuro da agroenergia no mundo. Nessa entrevista exclusiva ao CANAL-Jornal da Bioenergia, o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Frederico Ozanan Machado Durães comenta os desafios do setor e faz uma análise do papel da Embrapa nesse cenário. Frederico Ozanan é doutor em Agronomia pela ESALQ, pós-doutor pela University of Nebraska (EUA) e tem uma atuação destacada na área de fisiologia de plantas. Qual a posição do Brasil, no que se refere à agroenergia? O Brasil tem uma matriz energética equilibrada e distribuída entre fontes renováveis e não-renováveis, e relativamente à matriz mundial, com alto percentual de energia oriunda de fontes renováveis, especialmente da biomassa. A agroenergia no Brasil apresenta amplas oportunidades de evolução, em função de potenciais nas matérias-primas, processos e produtos, sobretudo, nas plataformas etanol, biodiesel, florestas energéticas e resíduos. No caso do etanol de cana, quais devem ser as evoluções no sistema produtivo para os próximos anos? A tecnologia de conversão para etanol, em primeira geração, e as aplicações de resíduos, incluindo a cogeração e as oportunidades de conversão em gerações tecnológicas avançadas, trazem para o setor grandes oportunidades de negócios atuais e futuros. A organização territorial passa a ser de fundamental importância para os negócios, doravante. Obviamente, opiniões e interesses entram nessa disputa, mas decididamente dados robustos e políticas públicas adequadas trazem a ação do Estado brasileiro para o cenário principal dos empreendimentos estratégicos para o País. O Brasil compreende e atua bem nessa conversão e investe na biologia energética. O negócio do setor sucroalcooleiro do Brasil tem potencial e prática estabelecida fortes o suficiente para alavancagem de novos negócios competitivos. Atualmente, o cultivo da cana-de-açúcar ocupa cerca de 1% das terras do Brasil (cerca de 8,5 milhões de hectares com cana em 851 milhões de hectares territoriais). O Zoneamento Agroecológico da Cana-de-açúcar para o território nacional (ZAE Cana), orienta para a expansão da produção e uso, seus derivados convencionais e novos produtos e materiais. Para as discussões que interessam à agenda o Brasil, as restrições do ZAE Cana orientam a expansão da cultura em cerca de 7% das terras brasileiras (cerca de 65 milhões de hectares). Novas cultivares modificadas (convencionais e transgênicas), agregação de valor a cultivares comerciais que resultem em aumento de produtividade e melhoria de qualidade biológica de açúcares e de biomassa, boas práticas culturais adequadas para sistemas de produção em áreas tradicionais e novas, e também domínio de processos para obtenção de etanol lignocelulósico, são tópicos que pautam a dinâmica e a evolução dos sistemas produtivos do etanol, doravante. Obviamente, a conquista de novos mercados completa os esforços correntes para a comoditização da cana-de-açúcar/etanol. É possível produzir etanol e ofertá-lo a um preço ainda mais competitivo? No novo ciclo da cana no Brasil, evoluído desde o Proálcool da década de 1970, em franca era do petróleo e seus derivados e dos transportes rodoviários, tem-se "uma curva de aprendizagem para produção de açúcar e álcool da cana-de-açúcar", que demonstra que inovação tecnológica e gerencial e relação de preços competitivos têm modificado o negócio sucroalcooleiro no Brasil. Instituições, domínio tecnológico e arranjos produtivos lastreiam esses novos negócios, com competitividade e compartilhamento. O Brasil tem vantagens comparativas importantes para a competitividade do setor sucroalcooleiro e industrial. Os negócios têm evoluído para a competitividade integrada dos arranjos institucionais, técnico-científicos e produtivos. Estado e sociedade, buscam ajustamentos para a dimensão, a oportunidade e as perspectivas do setor. A curva de aprendizagem da cana-de-açúcar/etanol demonstra que o fator inovação alavancou a competitividade do negócio, e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento favoreceram uma relação de preços do etanol em relação à gasolina. Esta tendência deverá continuar. Temos ainda um bom espaço a avançar nas tecnologias de primeira geração (etanol de sacarose da cana-de-açúcar), e um potencial enorme a ser explorado em tecnologias de gerações avançadas, a exemplo de maior eficiência de processos para obtenção de etanol de material lignocelulósico, seus derivados e novos produtos e materiais. Por quais motivos ainda não temos variedades de cana transgênicas, capazes de reduzir o custo de produção, assim como já acontece com a soja e o milho? A genética de cana é complexa e diferenciada de soja ou milho. Também, os protocolos e mecanismos de biossegurança estão em desenvolvimento e a regulamentação pertinente está em andamento. Doravante, os esforços técnicos e legais deverão caminhar juntos para o lançamento de cana transgênica. Desde o início do Programa de Produção e Uso do Biodiesel, o pinhão-manso e a mamona foram destacados como oleaginosas de grande potencial produtivo, mas agora já não parecem tão atrativas. Houve um erro de avaliação em relação a essas opções? Matérias-primas, processos de conversão, infraestrutura-logística-distribuição são componentes importantes para uma rota tecnológica de biocombustíveis, em primeira geração tecnológica. Matérias-primas traduzem domínio tecnológico, disponibilidade, dimensão e localização, e o PNPB do Brasil carece de alternativas regionalizadas adequadas visando aumentar a eficiência produtiva, baratear custos, e contribuir para a consolidação do Programa de Biodiesel. Os dados mostram que cerca de 80% dos óleos produzidos no mundo são oriundos de apenas quatro espécies vegetais: soja, dendê, girassol e canola. O Brasil montou uma logística com soja nestes últimos 40 anos, que corresponde hoje a cerca de 22 milhões de hectares plantados e 60 milhões de toneladas de grãos produzidos anualmente. Esta logística contribui para a funcionalidade do programa de biodiesel no Brasil, em um curto prazo. A diversificação de matérias-primas é uma estratégia interessante para o programa, entretanto, há uma questão centrada em condomínio tecnológico das espécies tradicionais (soja, girassol, mamona, algodão, canola e dendê) e sem-domínio tecnológico de espécies potenciais (pinhão-manso, macaúba, e outras oleíferas nativas). Estas espécies oleíferas e outras tantas estão sendo trabalhadas em programas de melhoramento e de adaptação, visando domesticação e usos para fins comerciais de produção de óleos e resíduos. Adicionalmente, deve-se considerar para um programa de produção de biodiesel, que a produção econômica está relacionada com a produtividade física da cultura, o conteúdo de óleo da espécie e a percentagem de extração de óleo por um método físico-químico adequado. Além disto, as características dos óleos e a utilidade industrial dos mesmos conferem às espécies potencialidades técnicas diferenciadas para o programa de biodiesel. Mamona e pinhão-manso (Jatropha curcas L.) são objetos de novas pesquisas e constituem-se em duas espécies importantes para a produção de óleos e resíduos. No Brasil continental, a diversificação regionalizada de espécies oleíferas deverá ser a tônica dos esforços públicos e privados, doravante. Mamona e pinhão-manso, por certo contribuirão com esta agenda. Culturas de ciclo semelhante ao da soja, e que possam ser plantadas em sucessão, aproveitando a mesma tecnologia, a exemplo do crambe, são mais viáveis para a produção de biodiesel? Viabilidade técnica e econômica de espécies vegetais são fatores importantes e variáveis no mercado de matérias-primas para a produção de óleos. Na idéia de diversificação, espécies não tradicionais de cultivo, como o crambe, podem se constituir em opção viável para a produção de óleos, regionalmente. Entretanto, a escolha, produção e uso viável de espécies oleíferas devem ser fundamentadas sobre a necessidade de domínio tecnológico para a espécie, consistindo em disponibilidade de cultivar melhorada, recomendações de boas práticas do sistema de produção da cultura agrícola, zoneamento agroclimático para espécie, dentre outros requerimentos para a produção em escala. Esta logística carece de tempo para ser formada, e depende de arranjos institucionais, técnico-científicos e produtivos. O aproveitamento do conhecimento produtivo de espécies próximas tem contribuído, ao longo dos tempos, para a decisão empreendedora privada, de adaptação de novos cultivos. Historicamente, a pesquisa tem validado e melhorado processos que a iniciativa privada desbravou, pioneiramente, por conta e risco. Quais avanços a Embrapa Agroenergia obteve e quais as prioridades para 2010? No contexto do Plano Nacional de Agroenergia (PNA 2006-2011) coube à Embrapa coordenar ações institucionais e um programa de PD&I que otimize processos e matérias-primas atuais e potenciais no Brasil, nas plataformas de etanol, biodiesel, florestas energéticas e resíduos, para a obtenção de biocombustíveis e de co-produtos. Estas diretrizes estratégicas tem abrangência em três vertentes que implicam no desenvolvimento de tecnologia agrícola, industrial e estudos transversais (socioeconômicos, ambientais, mercado, gestão e elementos para subsidiar políticas públicas), conectando o conhecimento agronômico, o conhecimento industrial e o mercado de energia. Com base nas diretrizes do PNA foi criada a Embrapa Agroenergia / Centro Nacional de Pesquisa de Agroenergia - CNPAE, como uma unidade descentralizada, que atua com visão estratégica do agronegócio e com o enfoque em inovação tecnológica das cadeias produtivas de agroenergia. A Embrapa Agroenergia atua coordenando, executando e integrando redes de pesquisa, nacionais e internacionais, envolvendo gestores e pesquisadores das outras 40 Unidades Descentralizadas da Embrapa e outras instituições parceiras públicas e privadas. A Embrapa Agroenergia, focada em energia de biomassa, complementa e revigora as estruturas e estratégias para fins energéticos correntes nas Unidades da Embrapa, integrando redes, recursos e competências. Nesta fase de implantação, o foco de ação se concentra em tema, time e facilidades. Quanto ao tema, temos implantado a estratégia de ação e a operacionalidade científica de gargalos tecnológicos e acertado parcerias nacionais e internacionais, para compartilhar esforços organizados em quatro laboratórios temáticos, em atividade: biologia energética, processamento de matérias-primas energéticas, aproveitamento de resíduos e co-produtos, e gestão do conhecimento em agroenergia. A implantação da sede administrativa, laboratórios e plantas piloto da Embrapa Agroenergia encontram-se em execução com conclusão e inauguração previstas para 2º semestre de 2010. Novas competências, especialmente focadas para processos de conversão biológica e industrial, tem sido incorporadas ao quadro funcional da Embrapa, bem como desenhadas para contratação via concurso público. Em cana-de-açúcar/etanol os resultados em obtenção ou concluídos, em rede de PD&I, focam cultivares modificadas (por métodos convencionais e transgênicos); estudos especiais sistemas de produção em áreas de expansão e tradicionais de cultivo, teor de sacarose, fixação biológica de nitrogênio, parede celular, características e genes para tolerância à seca e brocas; e, processos de obtenção de etanol lignocelulósico, especialmente em matérias-primas com características especiais para fins energéticos, hidrólise enzimática e fermentação. Para biodiesel, há um fortalecimento em melhoramento de espécies oleíferas tradicionais e domesticação de espécies potenciais, com ênfase em soja, girassol, mamona, canola, dendê, pinhão-manso e macaúba. Adicionalmente, busca-se melhoria de processos de transesterificação por rota etílica, e têm-se ampliado o conhecimento sobre fatores antinutricionais, alergênicos e tóxicos de resíduos, visando tortas para alimentação animal. A avaliação de biomassa e resíduos orgânicos para fins energéticos, e a produção de novos produtos e materiais estão em processo de pesquisa. O Brasil possui diversas oleaginosas nativas. Quais delas o senhor destacaria para a produção de biodiesel a custos competitivos? A Embrapa desenvolve pesquisas, em redes de competências, de avaliação do potencial de inúmeras espécies oleíferas. Oleaginosas nativas ou introduzidas estão também em avaliação, e isto interessa ao princípio de adaptabilidade regional, ou seja, focar a disponibilidade para o curto, médio e longo prazo, de espécies produtoras de óleos e de resíduos em regiões distintas do território nacional. Além de economia, considera-se o balanço de energia para a utilização dessas matérias-primas e produtos delas derivados. As palmeiras oleíferas macaúba, tucumã e inajá tem interesse regionalizado, e a euforbiácea pinhão-manso tem sido objeto de esforço concentrado de pesquisa para sua domesticação e melhoramento. É importante investir no melhoramento da soja em busca de variedades com maior produção de óleo? A soja apresenta variabilidade para o teor de óleo, e isto é o fundamento para todo e qualquer processo de melhoramento. Incorporar uma característica quantitativa mantendo-se alta performance agronômica de crescimento vegetativo e reprodutivo é uma tarefa árdua de melhoramento e que demanda tempo para obtenção de novas cultivares comerciais. Ademais, a atual logística da soja montada no Brasil nestes últimos 40 anos está preparada para cultivares que apresentam cerca de 18% de óleo no grão, e produtividade de grãos em torno de 3 mil kg/ha. E, soja tem foco comercial no mercado mundial de farelos - um importante ingrediente protéico para rações. Para fins de consolidação do programa de biodiesel no Brasil deveremos apostar em outras espécies de maior rendimento de óleo, como dendê, macaúba e pinhão-manso, e com diversificação regionalizada, incluindo canola, girassol, mamona, dentre outras. Qual a maneira mais adequada para lidar com volumes crescentes de subprodutos resultantes da produção de biocombustíveis? Volumes crescentes de resíduos demandam conhecimentos para aplicação e usos. Quantidade, qualidade e concentração de resíduos são fatores associados que farão diferenças competitivas enormes, doravante. Esses substratos diferenciados estão sendo pesquisados, utilizados em escalas piloto e industrial, para produção de biofertilizantes, alimentação de animais, co-geração de energia (calor e eletricidade), combustíveis de 2ª-geração (etanol lignocelulósico, por exemplo), bioplásticos e química industrial diversificada. O senhor acredita que o Brasil continuará à frente dos demais países, no que se refere à agroenergia, em 2020? O Brasil reúne amplas condições para consolidar um programa de agroenergia sustentável. Território continental, recursos naturais, gestão empreendedora e competências institucionais, técnicas e produtivas são elementos importantes para a competitividade do negócio agrícola no Brasil. O país apresenta uma matriz energética com significativa participação de energia renovável, tendo a energia de biomassa expressão de valor (cerca de 35%), incluindo a energia da cana-de-açúcar e derivados com cerca de 16% do total. Entre competitividade e liderança mundial, tecnicamente trabalhamos para saltos de competitividade do país nas várias plataformas de agroenergia (etanol, biodiesel, florestas energéticas e resíduos), acreditando nos ganhos contínuos na primeira geração tecnológica e agregando conhecimentos novos para as gerações tecnológicas avançadas. Isto se dará via talentos nacionais e fortes parcerias internacionais. Frederico Ozanan Machado Durães , Chefe-Geral da Embrapa Agroenergia
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