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Mobilização contra a praga Evandro Bittencourt A chegada da ferrugem alaranjada ao Brasil, uma ameaça iminente até poucas semanas atrás, agora já é um fato. Focos da praga foram detectados em diversos municípios produtores de cana, especialmente na Região Leste de São Paulo, e a sua difusão para outros Estados é uma questão de tempo. De pouco tempo, afirmam os técnicos da área que monitoram o problema. Enrico Arrigoni, coordenador de Pesquisa Tecnológica do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), acredita que o impacto da praga na produtividade dos canaviais não terá reflexos nos preços do açúcar e do etanol. "A parcela de variedades que está sofrendo ataque é muito pequena, ou seja, a maioria das variedades apresenta resistência inerente". Segundo o diretor de Sanidade Vegetal da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), Odilson Ribeiro, cerca de 70% das lavouras de cana cultivadas no Brasil são resistentes à ferrugem alaranjada. Como ainda se desconhece o impacto da ação do fungo nas condições climáticas brasileiras, não é possível precisar quais serão as perdas em produtividade em todo o País. "Acreditamos que, nos canaviais de São Paulo, a redução da produtividade das variedades suscetíveis será de 20%, em média". Levantamentos feitos em outros países atingidos pela doença indicaram níveis de perda de até 40% na produtividade. "No Brasil nós ainda não temos informação e, de maneira conservadora, estamos considerando um índice de 20% de perda," completa Enrico Arrigoni. "Se pensarmos que a produtividade média de um canavial na Região Centro-Sul é de 80 toneladas por hectare/ano, teríamos então 16 toneladas perdidas", calcula. Estudos do Ministério da Agricultura estimam que a praga poderá ocasionar prejuízos de, aproximadamente, R$ 300 milhões ao ano. Arrigoni explica que o fungo da ferrugem alaranjada reduz o potencial de fotossíntese da cana-de-açúcar em variedades suscetíveis. Embora os pesquisadores brasileiros ainda estejam "aprendendo" com a doença, já sabem que o fungo se desenvolve mais em condições de umidade e temperatura elevadas, o que na região Centro-Sul brasileira equivale à primavera, verão e início de outono, período compreendido entre os meses de setembro a abril. VARIEDADES SUSCETÍVEIS As variedades suscetíveis à ferrugem alaranjada cultivadas no Brasil que mais preocupam são a SP-891115 e a RB 72454. Outra variedade considerada muito vulnerável é a SP-842025, mas é pouco cultivada no País. A ferrugem alaranjada, provocada pelo fungo Puccinia kuehnii, pode ser confundida com a mancha parda e com a ferrugem marrom. O que a diferencia das outras pragas, segundo o coordenador de Pesquisa Tecnológica do CTC, é a formação e o aspecto das pústulas, principalmente a cor dos esporos, de tonalidade laranja. Agora que a praga chegou ao País, o trabalho de controle será baseado na substituição, o mais rapidamente possível, das variedades suscetíveis pelas resistentes. "Com isso, num prazo de aproximadamente três anos, não teremos mais problemas com a praga. Por outro lado, temos que continuar os programas de melhoramento, fazendo um filtro refinado sobre os clones que apresentam sintomas, para não que não tenhamos futuras variedades suscetíveis no Brasil". A praga não representa nenhum risco para outras culturas, afirma Enrico Arrigoni e nem para os seres humanos, inclusive para os trabalhadores que atuam diretamente nas lavouras, a exemplo dos cortadores de cana. INTERCÂMBIO O CTC, segundo Enrico Arrigoni, desde 2000, quando apareceu o problema na Austrália, já vem se preocupando com o envio e caracterização de variedades para experimentos naquele país. "Desenvolvemos com a Austrália um trabalho de intercâmbio de variedades e, no acordo desse intercâmbio, estão previstos testes contra doenças. Nós mandávamos testes de carvão, que existe no Brasil – e, até pouco tempo, não existia na Austrália – e eles enviavam para nós os resultados dos testes de ferrugem alaranjada.” Com os EUA, o CTC mantém um intercâmbio de informações atualizado pelo menos quatro vezes por ano, com um grupo americano que realiza estudos no País. A partir de 2007 este trabalho começou na América Central. "Sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, a doença surgiria no País". Recomendações aos produtores As recomendações que o coordenador de Pesquisa Tecnológica do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Enrico Arrigoni, faz aos produtores, além do uso de variedades resistentes, começam pelo reconhecimento da praga. "É preciso, também, verificar como ela está ocorrendo na propriedade e, depois, acelerar a tomada de decisão em termos de planejamento para a sua área agrícola. Esta é a forma de eliminar o problema", explica. Produtores associados ao Centro de Tecnologia Canavieira que suspeitarem da ocorrência da praga em seus canaviais podem encaminhar amostras para o laboratório do CTC em Piracicaba (SP), onde o material será avaliado. Os que não forem associados podem entrar em contato com a respectiva secretaria estadual de Agricultura e solicitar a visita de um técnico para coletar amostras e fazer a análise biológica. USO DE FUNGICIDAS Nenhum teste foi realizado ainda no Brasil com fungicidas aplicáveis no controle da ferrugem alaranjada. Esses experimentos foram feitos na Austrália, Estados Unidos e América Central, onde a doença chegou antes. Arrigoni explica que os fungicidas do grupo dos triazóis apresentam eficiência, mas alerta que ainda não existe nenhum produto registrado pelo Ministério da Agricultura para o controle da ferrugem alaranjada em cana-de-açúcar no Brasil. Segundo o diretor de Sanidade Vegetal da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), Odilson Ribeiro, até o mês de março de 2010 o Mapa deverá registrar dois fungicidas para possibilitar o controle químico da praga nos canaviais. Informou, ainda, que já está programado um treinamento com técnicos do Ministério da Agricultura de vários Estados para capacitá-los a acompanhar a difusão da doença no País. A viabilidade do uso de fungicidas, segundo Arrigoni, dependerá de uma análise econômica de cada produtor. "Em canaviais novos, recém-plantados, com variedades mais suscetíveis, pode haver algum benefício econômico no uso de fungicidas, mas, de qualquer maneira, o produtor deve estar consciente de que a troca de variedades é a melhor solução. |