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04 de Setembro de 2010
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Perspectivas

Setor sucroenergético no centro das atenções do agronegócio

Luisa Dias

A nova safra de cana-de-açúcar começa emmarço, mas a matéria-prima já promete ser a vedete do agronegócio brasileiro em 2010. Com a boa cotação internacional do açúcar, que salvou a lavoura em ano de crise, a ampliação do mercado interno do etanol e as perspectivas de alcançar novos mercados com o combustível verde, somados ao crescimento do uso da biomassa como fonte de energia e à necessidade mundial de acelerar a redução de emissão de CO2, o setor sucroenergético brasileiro já pode esperar um 2010 mais animador e com vantagens sobre 2009. O que não significa que grandes e pequenos empresários não vão enfrentar situações difíceis relacionadas, principalmente, aos reflexos da crise e à falta de investimento nos dois últimos anos.

Segundo a consultoria da Datagro, a projeção de moagem para a safra 2010/2011, na Região Centro-Sul, principal produtora do País, é de 565 milhões a 595 milhões de toneladas. Uma das poucas sombras em um cenário rico em perspectivas positivas é o clima. O excesso de chuvas, no final do ano passado, prejudicou a safra 2009/2010 e ainda deixa cautelosos os mais otimistas. Mas se a chuva colaborar, o cenário é excepcional, porque reúne fatores favoráveis aos produtos da cana: açúcar, etanol e energia.

O primeiro deles é o início da superação da crise econômica que atrapalhou os novos investimentos nos dois últimos anos. 2010 já começa com o anúncio de novas usinas a serem instaladas em todo o País. As iniciativas são tímidas, mas já sugerem uma reação do mercado. Dos 70 novos projetos previstos, apenas 30 devem ser consolidados ainda este ano. Uma delas, em Goiás, já deve operar nesta safra. A Brenco pretende iniciar as suas atividades no município de Mineiros ainda no mês de abril (leia nota na página 6).

Depois de enfrentar um período de dificuldades, o diretor-presidente do grupo Brenco, Henri Philippe Reischtul, afirmou que o momento é positivo para o setor sucroenergético e outros negócios devem ser anunciados este ano, como um alcoolduto associativo para escoar as produções de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.

A usina em Mineiros é a 24ª usina a entrar em operação no Estado e uma das duas usinas que serão instaladas em Goiás este ano. Para 2011, estão previstas outras duas novas unidades.

 

MAIS DOCE

Segundo o representante da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) em Ribeirão Preto, Sérgio Prado, haverá muita matéria-prima disponível, o que é o segundo ponto positivo para a safra 2010/2011. “Tem cana para moer e tem mercado para o produto: seja açúcar ou etanol”, afirma. Com relação ao açúcar, o mercado continua “doce” e previsões indicam que, antes de estabilizar os valores, ele possa ainda atingir o topo, seguindo a tendência da Bolsa de Nova Iorque. Os valores animam o empresariado, que investe na produção e atinge a capacidade máxima do País.

Para a safra 2010/2011, segundo levantamento da Datagro, a previsão é a de que a produção brasileira de açúcar varie entre 32,3 milhões de toneladas e 32,6 milhões de toneladas, o que significa um aumento de 3,5%. O preço atual do produto é o maior dos últimos 28 anos, mas deve voltar à cotação habitual até 2012, segundo a avaliação do diretor técnico da Unica, Antonio de Pádua. "A próxima safra tem início oficialmente em meados de março. Em abril e maio, todas as unidades estarão de novo em processo. Diria que haverá uma queda no preço do açúcar no mercado mundial, já no próximo ano. Mas o preço continuará em patamares altos", afirmou durante entrevista.

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a produção brasileira de açúcar registrou o maior índice dos últimos 30 anos. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foram produzidas 34,64 milhões de toneladas, crescimento de 9,6% se comparado à safra anterior. O resultado só não foi melhor por causa das chuvas, que impediram a colheita de 10% da cana madura e reduziram o teor de sacarose do produto. Por isso, usinas com maior capacidade de reversão já começam a moer a cana-de-açúcar restante da última safra este mês para aproveitar o boom do mercado.

 

FLEX

Se o açúcar, chamado de ouro branco pelos empresários do setor, adoçou a vida do empresariado, o mercado automobilístico garantiu ao etanol um aquecimento da vendas em 2009 e continua a ser uma tendência para este ano. O sucesso do carro flex gerou demanda de 1,5 bilhão de litros por mês e ajudou na reação do preço do etanol. As vendas representaram 92,3% do total vendido pela indústria automobilística em 2009, atingindo uma cifra recorde de 2,652 milhões de unidades, de acordo com informações divulgadas pela Associação Nacional Fabricantes de Veículos Automotores (Afavea).

O mercado garantido trará vantagens para todos, do consumidor ao governo, que aumentará a arrecadação de impostos. "É provável que o consumidor tenha preço melhor do que aconteceu neste início de ano, durante a entressafra. A frota será ainda maior e, enquanto a demanda mundial de carros caiu, o Brasil vendeu mais que em 2008. O etanol trará boas surpresas para o mercado”, explica Sérgio.

A frota de carros bicombustíveis deve ser ampliada em 200 mil veículos por mês, o que aumentará o consumo do etanol brasileiro, que também ganhou como aliada a Conferência de Copenhague. Mesmo sem uma saída oficial do COP15, o etanol começa a abrir fronteiras e pode, em 2010, alavancar a fraca exportação em 2009.

A demanda externa é o grande desafio do combustível brasileiro, que precisa do apoio de políticas governamentais para derrubar as barreiras tarifárias e não-tarifárias impostas ao produto, especialmente nos Estados Unidos e na União Europeia. O que pesa a favor do etanol é a adoção de mandatos de mistura por número crescente de países desenvolvidos e as exigências de combustíveis de “baixo carbono”, que é o grande diferencial oferecido pelos brasileiros.

ENERGIA

A bioeletricidade caminha lentamente em comparação ao açúcar e ao etanol, mas é a grande aposta no futuro da cana-de-açúcar. Em 2010, a perspectiva é de consolidação do trabalho realizado em 2009. As novas usinas de geração da energia feita da biomassa, matéria-prima da bioeletricidade, representaram 1.042 MW de potência instalada no País em 2009, ficando atrás apenas das termelétricas convencionais que totalizaram 1.063 MW. Os dados são do Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica, divulgado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O total de potência instalada em 2009 foi de 3.373 MW.

A bioeletricidade ocupou a segunda posição, com mais de 30% do total, ultrapassando até as usinas hidroelétricas (UHEs), de maior porte, que somaram apenas 576 MW ao sistema. Na quarta posição ficaram as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), com 449 MW instalados, e por último a fonte eólica, com 242 MW.

Para o diretor de bioeletricidade da Companhia Operadora do Mercado Energético (Coomex), Onório Kitayama, a crise afetará o setor depois de 2010. "A colocação no sistema de energia de biomassa em 2009 e 2010 ainda se refere a investimentos feitos antes da crise. Com a crise e com a falta de uma política setorial para a bioeletricidade, os investimentos estão minguando", disse. O setor sucroenergético precisa mobilizar o governo para a criação de uma política de desoneração fiscal, que permita a customização de contratos e uma redução de preços, para que os investimentos voltem a ser atrativos ao empresariado.

 

CO2

Apesar das previsões a longo prazo ainda serem de crescimento, a Bloomberg New Energy Finance (NEF) previu, em uma análise divulgada em janeiro, que, pela primeira vez, o mercado global de carbono poderá ter uma redução este ano, depois de um modesto crescimento em 2009. Este é um cenário para 2010, que desmotiva o setor sucroenergético, um dos grandes responsáveis pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) no País.

A iniciativa inovadora para mitigar os efeitos do aquecimento global, em muitos casos, não recompensa, plenamente, iniciativas empresariais que reduzem as emissões de gases de efeito estufa. A principal razão apontada pela consultoria NEF seria a queda nos preços e as mudanças no tratamento de produtos ligados ao carbono para desestimular casos de fraude, relacionados à sonegação de impostos, como os que ocorreram  em 2009. O setor sucroenergético terá que ser persistente para se manter no mercado do carbono, mas pode ser uma forma de retribuir à sociedade o bom momento vivido com o açúcar, o etanol e, em menor escala, a bioeletricidade.

 

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