Cana-de-açúcar: heroína ou vilã? Temos notado, principalmente nos últimos dois anos, e devido à rápida expansão, algumas ideias equivocadas sobre a cana-de-açúcar e seus produtos derivados (açúcar e etanol). Tem havido uma grande preocupação com essa expansão, alegando-se o risco de se criar uma monocultura de cana-de-açúcar. Muitos defendem e até regulamentam leis para restringir o avanço, ou até mesmo o estabelecimento da cultura, alegando proteção à segurança alimentar. Mas, será que a cana-de-açúcar também não produz alimento? Percebemos que a cana-de-açúcar tem sofrido algumas "injustiças". Somente em Goiás, considerando toda área agricultável, de acordo com dados do IBGE em 2008, a cana-de-açúcar ocupa 2,4% do total e, no País, essa área não passa de 1%. As pastagens ocupam 82,4% do total, enquanto a soja ocupa 9,6% e o milho 3% da área total agricultável no Estado. Mesmo com esses números, a cana-de-açúcar ainda causa temor. Apesar das inúmeras publicações e estudos, a cana-de-açúcar ainda é muito mal vista. Esquecem que ela já ocupa o segundo lugar na matriz energética brasileira com méritos, atrás apenas do petróleo e superando a energia hidroelétrica. A falta de entendimento ou difusão de informações erradas, que pode ser sinal de inexperiência ou falta de exposição ao tema, são bastantes evidentes conforme notamos em alguns acontecimentos recentes. O Ministério do Meio Ambiente divulgou, em setembro de 2009, o Plano de Ação para controle do desmatamento no Cerrado, onde fontes afirmam que a cana-de-açúcar seria um dos principais vetores de desmatamento desse bioma. Os dados do INPE mostram, claramente, que 98% da expansão da cana ocorrem sem nenhum desmatamento em todo Brasil. Também no mês de setembro, o governo lançou o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar, que visa delimitar as áreas propícias ao cultivo da cana, observando também essas questões ambientais. Uma medida um tanto quanto válida e que deve ser apoiada, porque acreditamos que o etanol não pode estar vinculado ao desmatamento. O açúcar já foi acusado, em revista de grande circulação no País e estampado na primeira página, como o principal vilão da epidemia global de obesidade. O problema está somente no açúcar ou também no sedentarismo da sociedade moderna e consumo exagerado de outros produtos altamente calóricos? Será que somente o açúcar é que causa a obesidade? São essas e outras informações que, de certa forma, denigrem a imagem dessa máquina biológica de produção de alimento e energia e que hoje é invejada por muitos países que não tem condição de produzi-la. Não somos a favor de que um Estado ou município ou até mesmo um País se torne "totalmente canavieiro", até porque não se vive somente de açúcar e nem só de energia. O que devemos defender é o equilíbrio. A diversificação da propriedade é algo totalmente recomendável e um fator de mitigação em tempos de crise, o que não se pode aceitar é que com a plantação de um pé de cana haja temor de "monocultura". O zoneamento da cana-de-açúcar de todos os Estados brasileiros, quando divulgado, apresentou Goiás como o Estado com a maior área disponível para a expansão das lavouras de cana-de-açúcar, e, como já havia ocorrido antes, os defensores da produção de grãos, ambientalistas e prefeitos, entre outros, manifestaram sua preocupação. Acreditamos que não há com o que se preocupar, pois o zoneamento veio exatamente com o objetivo de organizar o setor, evitando que ele se expanda de forma desorganizada. Nele próprio se vê questões muito bem definidas e que abrangem não somente fatores econômicos, mas também ambientais e sociais, algo inédito no mundo e até no Brasil, pois os zoneamentos para as outras culturas abrangem somente fatores econômicos. Não há causas para guerra entre cana-de-açúcar e grãos ou com o boi. Há espaço para todos. Não somos defensores da cana-de-açúcar, somos defensores da produção agropecuária brasileira, onde cana-de-açúcar está incluída, e que é exemplo de sustentabilidade e geração de riquezas para o mundo, além de possibilitar a diversificação da produção. Vemos que a cana-de-açúcar é somente mais uma das dávidas que recebemos e que nos coloca em situação privilegiada no contexto mundial. É certo que ela não pode mais ser vista como vilã da história, mas como um instrumento de diversificação na propriedade rural, geradora de renda, além de promover comprovado desenvolvimento para os municípios, para os Estados e para o País. Alexandro Alves é engenheiro agrônomo e assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) para a área de cana-de-açúcar e bioenergia.
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