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O ano da recuperação Evandro Bittencourt Natural de Porto União, Santa Catarina, e filho de pequenos produtores rurais, José Mário Schreiner é presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Goiás (Faeg) e do Conselho Administrativo do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Técnico Agropecuário formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, Schreiner é empresário rural na área de agricultura (cereais e algodão) e pecuária de corte. Atua, ainda, no segmento de armazenagem e beneficiamento de algodão. Foi, também, secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de Goiás e vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Goiás ocupa, atualmente, o segundo lugar entre os maiores produtores de etanol do Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo. Como o senhor avalia a expansão do setor sucroenergético? O Brasil tem uma matriz energética, em grande parte, baseada em combustíveis renováveis, e tem se tornado uma referência nesse setor. Isso beneficia a socioeconomia do Estado e representa uma alternativa muito importante, devendo se tornar um dos seus principais focos produtivos. O setor passou por algumas dificuldades grandes no ano passado, mas agora já mostra sinais de recuperação bastante fortes. Qual a sua opinião sobre o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar, realizado pelo Ministério da Agricultura, no caso de Goiás? O zoneamento mostra o potencial desse setor. O Estado tem 12,6 milhões de hectares apropriados para a produção de cana-de-açúcar. Destes, 7,8 milhões de hectares são de pastagens degradadas, que podem, perfeitamente, ser integradas ao processo produtivo, o que é extremamente interessante para o Estado. Há, também, áreas usadas para a agricultura e que podem ser aproveitadas, alternadamente, para a produção de etanol. Com a limitação do plantio na Amazônia e no Pantanal, esse avanço se direciona para o Cerrado. Hoje, representamos 7% da área plantada de cana no Brasil e 10% da produção de álcool. Qual o modelo produtivo defendido pela Faeg? Acreditamos que a produção de etanol e açúcar deve ser incentivada e defendemos uma integração maior entre indústria e produtores, principalmente o modelo produtor-fornecedor e formas associativas de produção, como as cooperativas. Entendemos que esse processo, quando é trabalhado de forma harmônica, proporciona uma divisão melhor desse bolo. Hoje, temos apenas 130 fornecedores de cana-de-açúcar no Estado, o que corresponde a 4% da área plantada, um número muito pequeno. Trabalhamos muito no sentido de aumentar esse número, para que esses produtores consigam permanecer na propriedade e possam usar a cultura da cana como uma alternativa de renda, de modo que, além de produzir leite, gado de corte e grãos, eles possam, também, destinar parte da propriedade para a produção de cana. A indicação da federação foi sempre no sentido de que a produção possa, prioritariamente, se encaminhar para áreas de pastagens degradadas, pois existe a disponibilidade dessas áreas. Temos batido muito, também, na tecla das questões contratuais. Temos uma assessoria jurídica que orienta os produtores quando forem fazer o seu contrato de fornecedor. Como está se dando, na sua avaliação, a convivência da cana com os grãos, tendo em vista que o Estado de Goiás é um dos maiores produtores nacionais de soja e milho? Isso é muito regido pela questão do mercado, pois temos produtos que, em determinados momentos, ficam com seus preços baixos, o que proporciona o avanço de outros produtos. Já houve, num passado recente, questionamentos relacionados à sobreposição da cana sobre outras culturas, mas, hoje, isso já está bem amenizado. O que nós defendemos é uma convivência harmônica, pois nós temos um parque agroindustrial bastante forte no Estado. A produção de soja, milho, algodão, feijão, sorgo, leite, carne e outros produtos também precisa ser incentivada. Quais as perspectivas para a agricultura brasileira em 2010? A gente espera que seja um ano mais positivo. A agricultura brasileira teve uma retração bastante forte em 2009. Nós enfrentamos um decréscimo no PIB em torno de 1,7% e a agricultura foi negativa em 5,3%. Isso se deu, principalmente, em função da questão cambial. Em 2010, a gente espera um crescimento da produção de, aproximadamente, 4% a 5%, e um aumento do PIB agropecuário em torno de 5% a 5,5%, ou seja, seria o ano da recuperação. Mas vamos ter fatores preponderantes, que vão nortear esse desempenho da agricultura e a questão cambial talvez continue sendo a principal. A desvalorização do dólar frente ao real em 2009 foi de 25%. Apesar de termos um mercado interno bastante pujante, e que ajudou a minimizar os efeitos da crise no País, ainda somos dependentes do mercado externo e a questão cambial, neste aspecto, é fundamental. Todos os indicativos mostram que existe uma tendência de o câmbio continuar da forma como está ou até mesmo o real se valorizar um pouco mais frente ao dólar em 2010. E o que o setor agrícola pode esperar da economia mundial em 2010? A economia mundial tende a melhorar um pouco em 2010, principalmente nos países em desenvolvimento, que ajudaram muito a segurar a crise, para que ela não se tornasse mais profunda. A China, por exemplo, continuou comprando volumes maciços de produtos do Brasil e do mundo. Ficaremos muito dependentes da economia desses países, com destaque, também, para a Rússia e a Índia, mas esperamos uma melhora nos países centrais, como os EUA, e os da Comunidade Europeia. Recebemos, recentemente, uma excelente notícia que é a abertura do mercado chinês às cargas brasileiras. O clima está razoavelmente bem no País, ainda não tivemos problemas sérios, existe uma perspectiva de reposição dos estoques mundiais em função da colheita americana ter sido boa e uma recuperação das colheitas nos países latino-americanos, principalmente a Argentina, que teve perdas muito grandes na safra passada. Como estão os preços das commodities no mercado internacional? Eles caíram bastante em relação ao período pré-crise, mas ainda continuam acima da média histórica e, por isso, nós vamos depender da manutenção do consumo e da reposição dos estoques mundiais. Acredito que 2010 será um ano melhor que 2009. Qual é o ponto de equilíbrio desejável para o câmbio, que não seja ruim para a exportação nem inflacione os custos de produção? A questão do dólar é mundial. Hoje vemos vários países que têm o mesmo sistema cambial adotado pelo Brasil, a exemplo da China. Mas é difícil dizer qual a cotação ideal. Especialistas em macroeconomia falam em R$ 2,20 a R$ 2,30. E quanto à taxa de juros atualmente praticada no mercado? Estamos ainda muito atrelados a essa questão. Apesar de ter caído muito no último ano, essa taxa de 8.75% continua sendo extremamente alta. Há uma tendência de os juros se elevarem ainda um pouco mais em 2010, o que piora a situação, pois o dólar que chega nessa situação é o especulativo e não o dos investidores. Isso é extremamente ruim, porque, na medida em que entra dólar, o real se valoriza. A questão cambial está atrelada às altas taxas de juros praticadas no País, o que prejudica a própria política agrícola. Se nós tivéssemos taxas menores de juros no País, poderíamos usar o dinheiro da subvenção – que é usado na agropecuária brasileira para a equalização da taxa de juros – para outras políticas públicas. Cito como exemplo seguro rural, logística e infraestrutura de escoamento, seguro anti-cíclico e outros instrumentos de política agrícola que dariam muito mais segurança à produção agropecuária no País, que é uma atividade de alto risco. A taxa de juros aplicada na agricultura é de 6.65%, enquanto o mercado pratica uma taxa de juros mais alta, a exemplo da Selic, que está em 8,75%. Boa parte do recurso subvencionado que vai para agricultura serve para cobrir essa diferença. E em relação às propostas de mudanças no Código Florestal Brasileiro, o senhor acredita que o diálogo entre ambientalistas, produtores e lideranças políticas já amadureceu o bastante? Acho que já houve um desarme entre as partes. Mas só acredito que realmente haverá avanços quando deixarmos de discutir com o lado emocional e passarmos a discutir com a razão, de modo que a ciência, as universidades e a Embrapa possam indicar qual o melhor modelo de preservação que podemos ter, principalmente no que diz respeito às reservas permanentes, as quais não abrimos mão e queremos preservar, principalmente no que se refere à questão da água. Entendemos que é importante, por exemplo, a questão da complementaridade dos Estados, que é a capacidade de eles poderem fazer legislação própria também, ou seja, que, nós tenhamos uma legislação federal ampla, macro, mas que cada Estado possa legislar as suas peculiaridades. Isso contempla a questão da legislação concorrente, que está no Artigo 24 da Constituição. Defendemos, ainda, o desmatamento zero, para consolidarmos o que está sendo produzido. A Faeg também desenvolve programas nesse sentido? Sim, temos dentro da Federação o Programa Agrinho, por exemplo, que leva conteúdo sobre as boas práticas ambientais às crianças do 1º ao 9º ano, num total de mais de 300 mil alunos inscritos. Estamos capacitando professores das redes públicas municipais do Estado para que eles possam conhecer essas práticas e desmistificar o que, muitas vezes, não é bem a realidade, ou seja, partir do discurso para a prática. Quais seriam os investimentos necessário para adequar a logística de transporte, de forma a tornar os produtos brasileiros mais competitivos? O grande desafio é a utilização do transporte intermodal: rodoviário, ferroviário e hidroviário. Estive recentemente nos Estados Unidos, onde pudemos observar a hidrovia no rio Mississipe, de 3,2 mil quilômetros de extensão, onde o transporte custa 15 dólares por tonelada. Aqui, quando transportamos a mesma carga de Rio Verde (Região Sudoeste de Goiás) até o Porto de Santos (SP), uma distância de menos de 1 mil quilômetros, nós pagamos 40 a 45 dólares, conforme a época do ano, para transportar a mesma carga. Por essa comparação dá para perceber o nível de competitividade que a gente perde. O transporte hidroviário é uma prioridade, mas hoje ainda vemos hidrelétricas serem projetadas sem eclusas que, quando construídas depois, custam cinco, seis vezes mais. No que se refere ao transporte ferroviário, a Ferrovia Norte-Sul representa um grande avanço. Precisamos melhorar a qualidade das nossas rodovias e, para o setor sucroenergético, o alcoolduto é fundamental para que nós possamos ganhar competitividade. Estamos vivendo um momento de consolidação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. Qual a sua avaliação em relação a este programa? Quando a questão do biodiesel começou a ser discutida, falava-se muito em diferentes alternativas de matéria-prima, mas, antes de tudo, é preciso pensar em pesquisa. É necessário ver se o o óleo da mamona tem um custo que justifique o seu uso, ou mesmo o pinhão manso e o girassol. Por isso defendemos uma pesquisa agropecuária forte, que produza conhecimento para o País. Na época, já podíamos ver que a tendência era usar uma matéria-prima que já estivesse consolidada e a soja era a que mais se destacava, seguida pelo sebo animal, em torno dos quais hoje gira a questão do biodiesel. Nesta fase do B5 estamos aumentando o consumo de um produto sobre o qual já temos um conhecimento muito forte, que é a soja. Além disso, como esse grão é transformado em óleo e farelo, temos no consumo desse segundo produto a transformação em carne. O biodiesel, por sua vez, criou uma nova opção de mercado para o óleo, ajudando a harmonizar a cadeia produtiva. Como o senhor vê hoje a realidade da agricultura familiar no Brasil? Eu acredito que a agricultura familiar é um ponto muito forte de equilíbrio nas soluções sociais para o País. Muitas vezes, no entanto, cria-se uma situação em que se tem duas agriculturas distintas, dissociando a familiar da empresarial, como se uma fosse do bem e a outra do mal. Isso é um preconceito, as duas são importantes. O que as diferencia é apenas o tamanho. O importante é que elas sejam sustentáveis. Defendemos, no entanto, que a a chamada agricultura familiar tenha políticas públicas diferenciadas, apoio e incentivo, por meio de uma assistência técnica e extensão rural de qualidade e gratuita, pois sabemos que o nível de competitividade dela é menor. Além disso é preciso uma política de crédito diferenciada e ainda mais ousada que o Pronaf, nichos de mercado específicos e trabalhar na organização desses produtores. E em relação à política agrícola. Qual o maior desafio? Talvez o maior problema que a agricultura brasileira venha enfrentando nos últimos anos seja, exatamente, a falta de uma política agrícola adequada, conceituada sobre uma política de crédito. Se tenho uma política de juros baixos no País e um setor atraente, o governo não precisa colocar tanto dinheiro, o setor privado o faz. Precisamos de um seguro rural eficiente, assim como de uma política pública que possa cobrir o diferencial de preços dos produtos, quando estes caírem drasticamente, e programas que sustentem a comercialização da safra quando a cotação dos produtos ficar abaixo do custo de produção. Se conseguirmos estabelecer isso, teremos uma política agrícola mais eficiente e mais abrangente, diferente do que vem acontecendo nos últimos anos. O setor agropecuário tem uma dívida de R$ 155 bilhões, atualmente, em razão desse descompasso. Esse dinheiro acabou passando para outras mãos, a exemplo do setor financeiro. Esse montante, para se ter uma ideia representa o valor de toda uma safra. José Mário Schreiner, presidente da FAEG
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