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Quando a irrigação é um problema

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O Brasil tem cerca de 60 milhões de hectares cultivados, mas apenas 10% são irrigados.  Só de cana, que é a cultivar que mais recebe este benefício, são aproximadamente 1,2 milhão de hectares. Dados do Grupo de Irrigação e Fertirrigação de Cana-de-Açúcar (GIFC).

O Estado de Goiás irriga cerca 180 mil hectares, sendo 70% por pivô central, segundo levantamento realizado em 2014 pela Secretaria de Desenvolvimento (SED). Já o estudo da Agência Nacional das Águas (ANA), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Goiás irriga 233 mil hectares, com base em imagens de satélite. Entre os municípios goianos que mais irrigam estão Cristalina, Paraúna, Campo Alegre, Água Fria, Jussara, Rio Verde, Luziânia, Morrinhos, Cabeceiras, Ipameri e Formosa.

Mas cada vez que se fala em irrigação, se lembra da falta de água que a população passa nas cidades e na escassez dos recursos hídricos. Mas, segundo o Professor de Irrigação e Drenagem da Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), José Alves Júnior, o desafio da irrigação nos dias atuais não é a quantidade de água, mas sim, políticas públicas de armazenamento desta.  “A quantidade de água dos ciclos hidrológicos de um ano para o outro é praticamente a mesma, alterando apenas a distribuição. O problema é a falta de armazenamento. Precisamos guardar melhor durante o período de chuva para o de seca”, explica.

Para o professor da UFG, a sociedade cresce e o consumo deste bem também. “O nosso problema hídrico é de dificuldade de gestão. Temos que ter uma melhor consciência do uso da água e a irrigação é apenas um deles”, esclarece. A irrigação é usa muita água, por isso a indicação do especialista é armazenar a água do durante o período de chuvoso para a época de seca, que permitiria também a expansão da área irrigada no território brasileiro.

Políticas

O uso da água de irrigação só é liberado pelos órgãos competentes de cada estado através de uma outorga. E isto representa mais um entrave. Esta concessão só é liberada quando se faz um estudo e se comprova que há água suficiente na bacia hidrográfica correspondente ou no aquífero para o projeto de irrigação em análise. Logo, se usa a água que está disponível.

Mas todo o processo  para se conseguir uma licença ambiental para a construção de barragens ou açudes de armazenamento pelos órgãos ambientes é lento. A resposta de uma solicitação pode demorar até dois anos e meio.

Outro ponto levantando pelo especialista é a falta de energia.  “A energia é o que mais dificulta o crescimento da agricultura irrigada no Brasil”, afirma. Com o armazenamento de água há necessidade de potência para o funcionamento das bombas. “Com isso, o agricultor vai precisa de alguma maneira bombear esta água para o ponto alto. Precisamos de energia, seja elétrica, diesel ou outra fonte, e não só de água”, ressalta.

“Falar de agricultura irrigada pode ser um pleonasmo no Brasil do futuro”, garante José Alves Júnior. Para ele, o Brasil em poucos anos terá 100% da agricultura irrigada. “Se utilizarmos as tecnologias para armazenar água das chuvas, teremos água para irrigar toda a área dos cultivares, mas teremos dificuldade com a energia”, pontua.

 Benefícios

Goiás é está dentro do segundo maior bioma do Brasil, o cerrado, que tem um clima bem característico com seis meses de chuva e seis meses de tempo seco. Antes da implantação da irrigação usava-se apenas a chuva para início da safra de grãos e era possível a realização de uma safra e uma safrinha. Atualmente, nas áreas irrigadas é possível colher até três safras.

Já na cana, por exemplo, números apresentados por usinas como Bevap, Jales Machado, Cerradinho, Grupo Cururipe, Agrovale e Clealco demostram que o melhor uso da água e irrigação traz como benefícios produtividades superiores a 33%.

Um trabalho conduzido pelo Professor Alexandre Dalri, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, demonstra que o melhor uso da água e a irrigação aumentam a produtividade em 30 toneladas na região de Ribeirão Preto, em São Paulo, que tem déficit variando de 150 a 180 mm, considerado baixo para a cultura.

Segundo o Superintendente do GIFC, Marco Viana, os benefícios do aumento da produtividade estão ligados diretamente aos custos da tonelada produzida, ou seja, podem baixar os custos na mesma proporção, sendo um seguro para as frequentes oscilações de mercado.

Assim, segundo o GIFC, se a irrigação aumentar a produtividade em 30 toneladas no primeiro corte- considerando que a média da produtividade do primeiro corte nas regiões produtoras tem sido em torno de 100 toneladas por hectare – os gastos com plantio por tonelada serão reduzidos em até 30%. “Desta forma, podemos afirmar que os custos de produção podem ser reduzidos de forma significativa, blindando os resultados das usinas das constantes variações de preço impostas pelo mercado”, salienta Viana. Ele ressalta que é importante a elaboração de um Plano Diretor Agrícola e Plano Diretor de Irrigação para direcionar ações e definir investimentos.

O principal destaque são os estados da Região Nordeste, com 67% dos canaviais irrigados do Brasil, entre eles Bahia, Alagoas, Pernambuco e Paraíba. Os outros 33% estão espalhados pelas demais regiões produtoras, incluindo Goiás, Minas Gerais e uma pequena parcela em São Paulo.

Neste caso o agricultor sempre tende a errar para mais. Já que a irrigação representa menor custo na lavoura, em comparação com adubos, fertilizantes e etc. “Neste ponto a agricultura irrigada vira vilã, já que retira dos rios mais do que necessita”, reconhece José Alves Júnior.

Métodos

A irrigação serve para devolver para a planta o que foi perdido pela transpiração – a água que sai pelas folhas – e para devolver ao solo a água evaporada.

Existem no mercado várias tecnologias de irrigação. É importante avaliar cada caso para a seleção da melhor técnica. Métodos como o pivô e canhão – mais tradicionais que irrigam a cana – simulam a chuva. Nestes modelos, no momento da aplicação muita água é perdida por evaporação. “A planta não absorve água pela folha, mas pela raiz. Apenas a água que foi para o armazenamento do solo voltará na forma de transpiração”, orienta o Professor de Irrigação e Drenagem.

Para a cana uma indicação é o uso do gotejamento, que é um sistema muito eficiente, no qual se gasta metade de água se comparado a outros métodos tradicionais, como a dispersão. “Não é necessário molhar toda a área para atender o cultivo”, explica o professor da UFG.

Mas o gotejamento é um processo de alto custo de instalação, além disso, pode ter problemas com entupimento. Se a qualidade da água utilizada  não for adequada para o sistema há a necessidade de se usar filtros.

Exemplo de sucesso

A Usina Japungu , com unidades na Paraíba em Goiás, transformou o modo de produzir cana-de-açúcar. Depois de períodos de irregularidades climáticas, o grupo investiu na irrigação por gotejamento. Com capacidade de moagem total de 4,7 milhões de toneladas, a empresa empregou no nordeste a irrigação localizada para aumentar a produtividade e longevidade dos canaviais.

O Gerente de Irrigação Japungu Agroindústria, Alexandre Guerra conta que a produtividade média do canavial era de apenas 47 ton/ha, sendo necessário reformar a lavoura a cada três anos. Em 2008, a área piloto foi implantada em 50 hectares da Fazenda Ilha, localizada na Paraíba. Atualmente, a Fazenda da Ilha está em seu nono corte sem reforma, conseguindo produzir, em média, 104 ton/ha. Daniel Pedroso, engenheiro agrônomo da Netafim, explica que esse TCH indica o dobro de ganho de produtividade e três vezes mais longevidade no ciclo.

 

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia