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Os novos caminhos do setor sucroenergético

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Plínio Nastari é presidente da Datagro, consultoria especializada em açúcar e etanol. Atuou como membro dos Comitês Técnicos do Conselho Interministerial do Brasil sobre Açúcar e Álcool, Comissão Nacional de Energia e Comissão de Reexame da Matriz de Energia.

Canal: O Brasil e o mundo passam por uma grave crise econômica. Como isso afeta o setor de bioenergia?

Plínio Nastari: O baixo crescimento econômico mundial reduz o consumo de energia e de combustíveis. Apesar da redução no consumo, o número de poços de exploração de petróleo e óleo de xisto nos EUA cresceu de 335 para 850 nos últimos 12 meses. Além disso, a Líbia anunciou o aumento da extração de óleo para até um milhão de b/d. Esses fatores ajudam a explicar a queda no preço do petróleo e da gasolina, que vem sendo transmitida via preço nas refinarias pela Petrobras. Na falta de um tributo compensatório, como a Cide ou o PIS/COFINS, sobre a gasolina e o diesel, a competitividade dos biocombustíveis e do etanol, em particular, tem sido afetada por esse movimento.

É, portanto, urgente a recuperação do valor da Cide e do PIS/COFINS sobre a gasolina, para que não seja ainda mais prejudicada a produção de etanol e os investimentos a ele relacionados.

Canal: Quais os cenários para atividade sucroenergética até o fim deste ano?

Plínio Nastari: Na safra 17/18, atualmente em operação, a Datagro prevê moagem de 605 milhões de toneladas de cana na Região Centro-Sul e de 42 milhões de toneladas na Região Norte-Nordeste. A produção de açúcar deve atingir de 36 a 38 milhões de toneladas no Centro-Sul e 2,9 milhões de toneladas no Norte-Nordeste, e a produção de etanol deve ser de 25,23 bilhões de litros no Centro-Sul e de 1,45 bilhão de litros no Norte-Nordeste.

Canal: O RenovaBio deve se tornar realidade? Quando ele poderá começar a trazer resultados positivos para o setor de biocombustíveis e biogás?

Plínio Nastari: As diretrizes principais do RenovaBio foram aprovadas por unanimidade na última reunião do Conselho Nacional De Politicas Energéticas (CNPE), e devem ser divulgadas em breve através de resolução CNPE a ser publicada no Diário Oficial da União. Minuta de medida legislativa já foi encaminhada pelo Ministério de Minas e Energia a consideração da Presidência da República, que deverá definir o seu encaminhamento através de projeto de lei ou de medida provisória.

Canal: Quais os principais pilares do RenovaBio e como eles influenciarão no setor de bioenergia?

Plínio Nastari: O RenovaBio tem como pilares principais: (i) a indução a ganhos de eficiência energética na produção e uso de biocombustíveis; (ii) o reconhecimento da capacidade de cada biocombustíveis contribuir para o atingimento da meta de descarbonização. Ao ser definida uma meta de descarbonização, será criado um farol sobre o tamanho do mercado de biocombustíveis à frente, que deverá induzir uma contratação mais estruturada e de longo prazo, com o possível desenvolvimento do mercado futuro de etanol, ainda incipiente pela falta de incentivos para que os agentes de mercado operem. Espera-se também que a troca de certificados de descarbonização leve à formação, em mercado, do valor do carbono a eles relacionado. O RenovaBio é uma regulação que organiza e confere previsibilidade para o longo prazo. Mas será preciso superar os desafios de curto prazo.

Canal: Que efeitos práticos a posição do presidente dos Estados Unidos em relação a cop 21 trará para a luta ambiental no mundo?

Plínio Nastari: A decisão do presidente Trump de retirar os EUA do Acordo do Clima de Paris ao invés de arrefecer, acirrou e incentivou o comprometimento de todos os demais signatários sobre a importância e a urgência de serem adotadas medidas para a mitigação de emissões de gases, inclusive por parte de governos estaduais e municipais dentro dos EUA, que não aceitaram a orientação da administração federal.

O efeito prático foi apenas o isolamento da administração Trump num tema considerado prioritário em termos globais.

No caso do Brasil, é uma oportunidade para que o presidente Temer reafirme o compromisso do país com as metas assumidas no acordo do clima e indique o setor de biocombustíveis como prioritário para o seu atingimento, não só pelo significativo e rápido impacto que propicia, mas fundamentalmente por ser um projeto de desenvolvimento econômico, com geração de emprego e renda no interior, fixando o homem no campo e valorizando a capacitação produtiva indiscutível que o Brasil possui na área agroindustrial e energética.

Canal: Como o senhor avalia o futuro do etanol celulósico?

Plínio Nastari: Terá um futuro brilhante, assim como a conversão da celulose em energia elétrica e em biogás e biometano. Cada região e cada situação fará com que uma dessas rotas de conversão seja a preferencial ou mais econômica.

Canal: A produção de etanol de milho no Brasil tem cenários futuros positivos?

Plínio Nastari: Sim. A produção de milho deve passar dos atuais 93 a 96 milhões de toneladas para cerca de 200 milhões de toneladas nos próximos anos. Isso significa que o preço do milho próximo às origens de produção continuará baixo, pelas ainda deficientes condições de logística que o país enfrenta. A conversão do milho em etanol e DDG, para alimentação animal, bovina, suína e avícola, reduz a pressão por logística, agrega valor e promove a cadeia de conversão do grão. Na safra 15/16 a produção de etanol de milho no Brasil foi de 144 milhões de litros. Em 16/17, foi de 235 milhões de litros. Em 17/18, a Datagro estima que será de 480 milhões de litros e, em dois anos, deve ser superior a 800 milhões de litros por ano.

Canal: Como está a produção de açúcar no cenário internacional e brasileiro? Os estoques vão influenciar de que forma os preços?

Plínio Nastari: Estamos prevendo para o ano comercial de 16/17, que encerra em 30 de setembro, um déficit de 5,71 milhões de toneladas. Para o ciclo de 17/18, que inicia em 1º de outubro, estamos prevendo um superávit de 590 mil toneladas. A relação estoque-consumo deve de manter no nível de 38%, o que é relativamente baixo, comparado com 47,4% registrados em 30 de setembro de 2015, e 42,5% em 30 de setembro de 2016.

No entanto, o mercado permanece pressionado por um trade flow superavitário em 17/18 e um mix de produção no curto prazo no Brasil, que está na primeira quinzena de junho de 2017 na Região Centro-Sul 8,6% mais açucareiro do que na mesma quinzena do ano passado.

Na Datagro, acreditamos que ultrapassado o período de entrega dos compromissos de exportação firmados a preços mais      elevados, os produtores irão direcionar o mix de produção ao etanol, pois o preço do açúcar de exportação em várias regiões do Brasil é menor do que o preço do etanol, mesmo com a competição de gasolina mais barata atualmente.

 

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia