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Etanol de milho e de cana na produção de combustível

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A produção de etanol de milho no Brasil é crescente e tem ganhado espaço ao lado do etanol de cana, da qual a produção brasileira é destaque mundial. Ambas atendem demandas de todo o País, mas as questões logísticas são um entrave para o escoamento do grão de milho, que tem como líder de produção o estado do Mato Grosso.

A produção brasileira de etanol à base de milho deve ultrapassar a marca de um bilhão de litros pela primeira vez nesta temporada, de acordo com a INTL FCStone. O RenovaBio estipulou metas federais para níveis mais altos de uso de biocombustíveis. Isso deve dar um impulso de 20 bilhões de litros à demanda nacional até o final da próxima década, de acordo com projeções do governo.

O Brasil é o maior consumidor de etanol do mundo depois dos Estados Unidos, em grande parte por causa do amplo uso de carros que podem rodar com o biocombustível ou com a gasolina convencional. Embora a maior parte das necessidades seja satisfeita com a produção nacional, o Brasil absorve algumas importações, principalmente dos EUA.

Ricardo Tomczyk, presidente-executivo da União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), destaca que o estado do Mato Grosso é um dos grandes produtores do etanol de milho justamente por também ser líder na produção do grão, além dos preços mais competitivos. “Parte da demanda, certamente, é possível de ser atendida, mas não a totalidade, se levarmos em consideração as previsões do Ministério de Minas e Energia (MME), que indicam uma demanda adicional de mais 20 milhões de m³ nos próximos dez anos.“

O setor sucroenergético não vê essa questão como prejudicial ao setor, pelo contrário, entende que é mais uma forma de produção que atende às demandas em regiões específicas, conforme explica Antonio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). “Não temos nenhuma preocupação com relação à produção de etanol a partir do milho, uma vez que deve atender as mesmas especificações do etanol de cana, seja para carburantes ou outros destinos. O que não pode haver é politica de incentivo diferente em detrimento de outro.” Segundo ele, o segmento é um complemento à oferta brasileira. Para este ano, a expectativa da Unica para o plano safra, de abril a março, é que a produção seja de 700 a 800 milhões de litros de etanol milho. Já a partir de cana, é próxima a 32 bi de litros. “Isso vem ajudar o aumento da oferta e não há preocupação, desde que as politicas sejam as mesmas para todas as matérias-primas.”

O analista de mercado da INTL FC Stone, João Paulo Botelho, comenta que vê muito potencial para esse setor. “A rentabilidade de etanol de milho vai variar, mas a possibilidade é interessante para produtor de etanol diversificar os riscos climáticos e de matéria-prima. Por outro lado, para o produtor de grãos, há a diversificação de receitas, sendo que ele entra para mercado de energia. Tudo isso acaba reduzindo riscos da operação e contribuição para diversificação da economia do Centro-Oeste brasileiro e a produção de grãos na região”, avalia.

Produção

De acordo com dados do boletim de grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) do mês de setembro, na Região Centro-Oeste houve redução de aproximadamente 18,7% na área plantada, em comparação à safra anterior, assim como diminuição em produtividade (0,6%) e, consequentemente, na produção total (19,1%) do grão na região. Em Mato Grosso, a colheita do milho primeira safra foi encerrada. O espaço destinado à cultura foi de 27,2 mil hectares, cifra 18,6% inferior em relação aos 33,4 mil hectares registrados no último ciclo.

A queda no cultivo é atribuída aos baixos preços do milho no momento da semeadura. A produtividade média se consolidou em 7.331 kg/ha, menor que na temporada passada.

A Região Centro-Oeste apresentou constrição na área cultivada de 2,7% em relação à safra anterior. Tal comparativo de redução também se verificou nos parâmetros de produtividade (12,3%) e produção (14,6%) do grão na região.

Em Mato Grosso, o milho segunda safra se encontra com a colheita finalizada. O balanço da safra é positivo e fatores que poderiam limitar a produtividade média estadual, tais como o plantio de parte da safra fora da janela ideal e o emprego de menor tecnologia em alguns casos, não afetaram o indicador de maneira generalizada, que foi beneficiado pelo fato de a distribuição pluviométrica ter contemplado a demanda hídrica da cultura. O rendimento médio é estimado em 5.860 kg/ha, considerado satisfatório, apesar de 5,7% inferior à marca obtida em 2016/17, de 6.212 kg/ha, representando o recorde estadual. A produção estadual deverá totalizar 26.201,2 mil toneladas, 8,4% inferior às 28.610,6 mil toneladas registradas no último ciclo.

O Brasil é superavitário em milho, principalmente no Centro-Oeste. A produção é crescente e varia de um ano para o outro principalmente por causa da safrinha, conforme explica Botelho. “A oferta que temos é mais que suficiente para atender demandas das primeiras plantas de etanol de milho. O Centro-Oeste é líder por casa das adequações climáticas, o que tem levado ao forte crescimento da produção. Trata-se de uma região onde já existe produção de soja, ou seja, a rentabilidade não precisa ser tão grande, porque a terra já é bem remunerada”, analisa.

A produção de milho no Brasil até alguns anos atrás era concentrada principalmente na primeira safra e no Sul, onde o milho tinha um preço maior que no Centro-Oeste. Lá, a proximidade com o porto facilita a exportação, sendo que a produção era voltada para o mercado de ração e a exportação não era tão cara. Botelho destaca que “havia essa produção de milho muito concentrada na primeira safra ali no Sul. Porém a viabilidade econômica dessa produção se mostrou maior na segunda safra e no Centro-Oeste. Desafios logísticos tornaram o milho mais barato, o que ajudou a viabilizar produção de etanol de milho. Além disso, até os anos 2010, havia um aumento muito rápido na produção de etanol de cana e a demanda era atendida pela produção de etanol de cana. A estagnação dessa produção estimulou produção a partir do milho”.

Mercado

A produção de etanol a partir do milho é competitiva, mas não deve substituir a cana, sendo apenas mais uma opção no mercado brasileiro. Apesar das características similares e da facilidade de produção em usinas flex, a logística ainda é um gargalo. As usinas flex são uma realidade extremamente competitiva, uma vez que há a utilização do bagaço da cana como biomassa para geração da energia necessária no processo industrial, bem como para a cogeração de energia elétrica.

Hoje, aproximadamente 38% da frota utiliza etanol. Alguns dos produtores de etanol de cana podem utilizar a mesma estrutura para produzir a partir de cana ou milho – que são as chamadas flex. Entretanto, é preciso fazer algumas adaptações, já que os processos de fermentação e destilação são diferentes, além da preparação do caldo. A fábrica, entretanto, é movida com a mesma energia e o mesmo vapor.

Sendo assim, existe certo compartilhamento, dependendo dos processos produtivos, possibilitando investimentos em usinas flex. Além disso, a produção de etanol a partir do milho precisa de energia, sendo que a usina de cana tem a vantagem de dispor do bagaço, que gera vapor para atender a demanda da produção de etanol de milho. Além disso, aproveita-se a expertise do mercado sucroenergético, tendo em vista que as empresas possuem atuação no mercado, com áreas comerciais e administrativas já acostumadas ao setor, o que facilita essa flexibilização para mercado de milho.

Padua considera ser difícil haver uma equiparação das produções nos próximos anos. Segundo ele, por questões logísticas, dificilmente o milho vai chegar a 10% do volume global de etanol que vai ser necessário. “Não há demanda de etanol onde está se produzindo o milho. Há cana em São Paulo, Paraná, Goiás, Minas Gerais, por exemplo. Planta de milho, temos uma em Goiás e nenhuma em São Paulo. Assim, há potencial de crescimento onde existe grande oferta de milho e onde o grão é mais competitivo.”

Nesse sentido, a viabilidade financeira não chega a ser um entrave, em muitos estados brasileiros. “O etanol de milho é extremamente competitivo e conta com matéria-prima abundante. Nos atuais preços de milho, é mais competitivo do que a cana-de-açúcar nas principais regiões produtoras de etanol de milho”, afirma Tomczyk.

A dificuldade logística é um dos grandes entraves para o escoamento do etanol de milho, o que trava o crescimento da produção, já que o combustível precisa chegar com preço competitivo na bomba. “Os dois vão conviver naturalmente, ajudando o Brasil a diminuir importação de gasolina”, acredita Padua. Entre as vantagens, destaca-se a grande produção do grão, que ocorre durante todo o ano, enquanto a da cana é de abril a novembro. Assim, o milho segue ainda que durante a entressafra da cana.

Por outro lado, de acordo com Botelho, o preço do grão varia muito de um ano para o outro. Ainda assim, o etanol de milho tem se mostrado competitivo, mas depende muito da safra de milho e da safra de cana para dar continuidade a essa competitividade. Para o futuro, a projeção é que esta produção se mantenha crescente. “Em cinco ou 10 anos, nós já veremos etanol de milho brasileiro sendo direcionado para todas as regiões do Brasil. Mato Grosso tem mostrado que já está se aproximando do limite, movimento que deve se ampliar pelo País.”

Norte e Nordeste são destinos mais favorecidos pelo etanol de milho do Mato Grosso pela proximidade logística. O Norte é atendido principalmente pelos portos da bacia do Rio Amazonas. A expectativa é que seja possível fazer esse deslocamento até o Nordeste, além de Goiás, por meio do caminho rodoviário, continuando na entressafra de cana. “Após esses mercados, as usinas, com certeza, vão começar a destinar etanol para Sul e Sudeste do Brasil”, afirma Botelho.

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia