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Entrevista |Otávio Lage de Siqueira Filho

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Otávio Lage de Siqueira Filho é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Administração de Empresas pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília (UniCEUB). O empresário participou de todo o processo de fundação da Jalles Machado. É Diretor-Presidente da empresa desde a sua criação, ausentando-se do cargo de 2000 a 2008 para atuar como Prefeito de Goianésia – GO.  Também é referência pela Política de Gestão Integrada que implantou na Jalles Machado, levando a empresa a se destacar no setor sucroenergético e a alcançar reconhecimento internacional. Foi presidente do Conselho Deliberativo do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg) entre 2014 a 2017. Atualmente é Diretor da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Conselheiro da Fundação Abrinq, membro do Conselho de Administração do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e presidente da Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial).

Canal: Quais os desafios futuros das usinas sucroenergéticas no Brasil e, em particular no Estado de Goiás?

Otávio Lage: O grande desafio das usinas sucroenergéticas no Brasil, e em especial no Estado de Goiás, é a competitividade. No caso do açúcar, temos concorrência com os países asiáticos, que têm elevado a produção, exportado cada vez mais a cotações mais baixas que o brasileiro. Já que o custo de mão de obra nesses países é muito baixo.

Outro cenário é a Índia, que possui uma grande produção de açúcar e se consolidou como o maior produtor do mundo.  Só que esse país consome bastante açúcar e o desenvolvimento é feito pela agricultura familiar.  Esse tipo de produção propicia redução nos gastos, mas também é instável, já que de um ano para o outro há acréscimos e declínios bruscos de produção, criando uma grande alteração de oferta de produto no mercado.

Com relação ao etanol, temos uma concorrência com o carro elétrico. Percebo que com o passar dos tempos podemos ser um grande parceiro através das células de combustível com origem do etanol, fornecendo o hidrogênio. Esta é uma nova tecnologia que tem despertado a indústria automobilística e é a que menos que emite carbono na atmosfera.

Também há a biomassa, que é a geração de energia pela queima do bagaço e da palha da cana. Essa energia é renovável e limpa e tem grande potencial de crescimento com o Renovabio, gerando expectativa positiva para o nosso segmento poder participar da produção de energia elétrica.

Outra novidade que já se iniciou em algumas usinas no país é o biometano, que é a geração do biogás através da linhaça da torta de filtro, que permite  uma pegada de Carbono interessante, e assim, consentindo créditos no Renovabio. Ainda nessa política, as usinas também têm uma oportunidade de produto com o aproveitamento do gás carbônico na fase de fermentação. Enfim, em um futuro, o segmento terá melhores condições de competitividade.

Canal: Que avaliação o senhor faz do cenário de crise no setor sucroenergético brasileiro?

Otávio: A crise foi originária de mudanças na política energética durante seis anos no Governo Dilma e Lula, que fixaram o preço da gasolina sem reajustar, afetando a competitividade do etanol. Com isso, muitas usinas delapidaram seu patrimônio- que é a cana-de-açúcar – , que fez com que a concorrência destas unidades ficasse em um baixo patamar e sem dinheiro para a renovação do canavial, que é um investimento anual pesado.

Na minha visão, não se pode deixar de renovar o canavial ano a ano. Quando se fica por três anos consecutivos, para se voltar a ter produtividade é mais caro e dispendioso. Devido a esses custos, muitas usinas não conseguiram voltar a serem competitivas.

A grande crise do setor é consequência da política energética do governo, que afetou não apenas as usinas de etanol, mas também a Petrobras. Considero uma lastima esta política populista dos governos anteriores.

Canal: Houve progressos nos últimos meses?

Otávio: Acredito que o governo está trabalhando em uma perspectiva de mercado. O setor sucroenergético tem que ser competitivo em relação ao preço da gasolina no mercado externo. No Brasil temos impostos federais e estaduais, talvez uma mudança de alíquota do imposto estadual afete muito a nossa concorrência.  Cada Estado brasileiro tem uma política diferenciada – um tem programa de incentivo fiscal e alíquotas diferenciadas- e essas estratégias não dependem do produtor, por isso temos que nos preocupar em investir cada vez mais em produtividade, redução de custos para sermos mais competitivos.

Canal: Quais as estratégias do Grupo Otávio Lage para enfrentar a crise no setor?

Otávio: Estamos investindo em irrigação para aumentar a produtividade; em redução de custos e na indústria em busca de eficiência durante a safra. Este ano trocamos as turbinas a vapor por elétrica, com isso, reduzimos o consumo de vapor para gerar mais energia e, assim, ter uma receita a mais na queima do bagaço, aumentando a nossa competitividade e reduzindo os nossos custos.

Também temos investido em eficiência na parte agrícola. Além da irrigação, dedicamos a novas tecnologias, como drones, computador de bordo. Investimos em uma agricultura de alta tecnologia.

Canal: Como avalia o potencial de mercado de etanol atualmente? O Renovabio está fazendo alguma diferença?

Otávio: O Renovabio ainda não faz diferença, mas vai fazer a partir do ano que vem para as indústrias que fizeram a certificação e mostrarem que estão colaborando com o meio ambiente. E isso é muito bom para Brasil.

O Renovabio é uma política de combustíveis renováveis que será um diferencial brasileiro a nível mundial. Com a sua entrada em vigor, receberemos um Delta a mais por isso – ainda não sabemos o valor, mas já se iniciaram as avaliações – para ano que vem estarmos preparados para o funcionamento do Renovabio  fazer a diferença no nosso negócio.

Canal: E quanto aos mercados de açúcar e bioeletricidade?

Otávio: Como já disse o mercado de açúcar está fraco devido à elevada produção, principalmente dos países asiáticos e da Índia, que têm exportado muito e também devido a uma mudança política na Europa, no qual houve vários investimentos em açúcar de beterraba que tornaram esse produto mais competitivo, fechando um pouco o mercado para o açúcar brasileiro neste continente.

A exportação para o mercado europeu depende de clima. No ano que a beterraba não vai bem, em que há um custo mais alto, o nosso açúcar consegue acessar. Mas este ano muitas indústrias de açúcar de beterraba fecharam, principalmente de empresas grandes, devido a perspectiva de mercado de concorrência de preços do açúcar do mercado asiático, que estão com preços baixos.

Sobre o mercado de bioeletrecidade, a cada vez mais as indústrias têm que se adequar a ter este diferencial   na receita, que faz a diferença nas empresas que investiram nesta fonte.

Na Jalles temos uma parceria com Albioma Participações do Brasil, e isso nos permite, mesmo em um momento de crise, fazer investimentos e crescer. Estamos felizes em atender o mercado elétrico nacional com a produção de uma energia limpa e renovável, que em um momento de seca, no qual a hidroeletricidade atende com menos intensidade o mercado. A Jalles entra ajudando a produção de energia no Brasil.

Canal: Qual a perspectiva em relação à safra a ser colhida pelas unidades do grupo?

Otávio: Em 2018 choveu bem nos meses de outubro e novembro e, em 2019, também choveu bem em abril e março. A cana veio com muita força, estamos com um canavial de alta produtividade e performance. Esperamos ter uma safra recorde, em torno de R$ 4,8 milhão toneladas. Fomos surpreendidos pela quantidade e intensidade de chuva na hora certa. Com isso, a expectativa é registrar uma produtividade de até superior de 90 toneladas por hectare.

Canal: Quais foram os principais investimentos em tecnologia nos últimos anos?

Otávio: Temos feitos investimentos na produção de açúcar, já que na Unidade Otávio Lage tínhamos apenas a produção de etanol.  Além disso, investimos no aumento da produção de eletricidade e na economia de vapor com o objetivo de gerar mais eletricidade.

Também investimos em equipamentos para melhorar o nosso desempenho na produção de açúcar. Já na área agrícola, investimos na irrigação e no maquinário para a mecanização, além de drones, computadores de bordo e softwares, que nos dê informações gerenciais rápidas para que tenhamos uma boa produtividade.

Para acabar com uma dificuldade que tínhamos, fizemos uma parceria com uma empresa de telefonia para levar a internet 4G para as nossas áreas agrícolas. Quando se tem sinal de uma operadora você consegue receber informações mais rapidamente, otimizando os processos agrícolas.

Na questão da fertilidade temos procurado ser agressivos para ter uma produtividade melhor. Para isso, trabalhamos com novas variedades genéticas em parcerias com Instituto Agronômico (IAC) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) . Procuramos melhorar a qualidade do canavial com canas mais produtivas e melhores, que atendam as  nossas características – clima seco, 100% de cana colhida mecanicamente, que devem ser canas eretas e de alto desempenho. Ainda investimos em consultorias visando aprimorar a eficiência e produtividade.

Canal: E quais devem ser os próximos?

Otávio: É sempre aproveitar os subprodutos, como é o caso do biometano da vinhaça. Também estamos em estudo de aproveitamento de gás carbônico e aumentar a produtividade agrícola.

Canal: Que perspectivas têm em relação ao etanol de segunda geração produzido em escala comercial?

Otávio: Ainda não pensamos nisso como meta principal. Temos acompanhando, mas os resultados ainda não são competitivos.

Algo que tem sido muito pertinente no setor é a produção de etanol de milho. É uma atividade que pode ser incorporada, mas em Goiás o nosso milho é pouco, assim, temos que incentivar a produção do grão ou trazer de fora, que encarece muito.

Canal: Qual nova tecnologia o Grupo já observa?

Otávio: Acompanhamos o desenvolvimento do plantio de cana por sementes desenvolvida pelo CTC. Algumas multinacionais já desenvolvem com o objetivo de otimizar e reduzir o custo do plantio. A Jalles tem expectativa de usar esta tecnologia em dois anos.

Canal: Já há previsão para o início da produção de energia solar?

Otávio: Está em fase de estudos. Como já temos na nossa estrutura de cogeração a interligação ao Sistema Elétrico Nacional (SIN) podemos aproveitar essa rede. Está em nosso radar e em avaliação com a nossa parceira Albioma.

Cejane Pupulin

Canal-Jornal da Bioenergia