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Entrevista | Mário Campos filho-Siamig

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Mário Ferreira Campos Filho é economista com MBA em Finanças e  Relações Governamentais e é presidente da Associação das Indústrias Sucroenergéticas de Minas Gerais, o Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool do Estado de Minas Gerais e o Sindicato da Indústria do Açúcar no Estado de Minas Gerais. Ele é também diretor do Centro Industrial e Empresarial de Minas Gerais (CIEMG) e faz parte do Conselho Regional do SESI-SENAI-IEL da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG).

Canal: Como a dependência do transporte rodoviário afeta o setor sucroenergético brasileiro?

Mário: A discussão sobre a dependência do transporte rodoviário sempre vem à tona quando ocorre alguma greve ou colapso no sistema de transporte. Há 50 anos, o país tomou a decisão de investir na área rodoviária e criou uma infraestrutura de estrada, equipamentos e carretas disponíveis para atender a economia como um todo. O transporte precisa ser pensado de forma econômica, sempre no fluxo de ida e retorno dos produtos utilizados. Por exemplo, o Brasil é um grande exportador de produtos agrícolas e importador de insumos, com um bom aproveitamento do modal.

O setor sucroenergético é um grande consumidor, principalmente, de óleo diesel e insumos agrícolas, além de realizar todo transporte da cana até a unidade industrial. Já o  transporte de etanol é também feito por carretas, as já existe parte que é  por duto, saindo de Uberaba (MG) até Paulínia (SP) e passando por Ribeirão Preto (SP), tendo condições, através do ramal da Transpetro, de chegar ao Rio de Janeiro (RJ).

Mas a parcela de açúcar que fica no mercado interno é toda dependente do transporte rodoviário. Já na exportação há uma dobradinha bem feita no multimodal rodoferroviário até o Porto de Santos, que é o principal ponto de  saída do açúcar brasileiro.

Ainda há  espaço para otimização desse processo e alternativas sempre serão bem vindas ao setor. Atualmente, em Minas Gerais há mais de mil carretas que realizam o transporte de etanol das usinas, principalmente do Triângulo Mineiro até o principal polo de distribuição de combustíveis que é Betim. Existia também no passado um ramal ferroviário que ligava essa região até a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), que já não é mais utilizado. Da mesma forma, a ampliação do alcoolduto poderia também auxiliar o escoamento da produção de etanol, já que houve um grande crescimento dessa produção na região Centro-Oeste do país, principalmente, na região de Goiás.

Canal: As alternativas como hidrovias e ferrovias são poucas e emperram o escoamento da produção de etanol e açúcar?

Mário: No  caso do etanol, é usual o setor vender o produto e as distribuidoras ficarem responsáveis pela contratação do transporte das usinas até as bases de distribuição. Incluir as usinas na responsabilidade de otimizar a logística é modificar a atual estrutura de comercialização do produto. Sem dúvida alguma, há espaço para melhorias e realização de parcerias neste sentido, afinal de contas os fluxos logísticos já são conhecidos e bem determinados tanto de etanol anidro quanto de hidratado.

Com relação ao açúcar para o mercado externo, em geral as usinas são responsáveis pela entrega nos terminais portuários, contudo há uma série de parcerias que envolvem as tradings e terminais rodoferroviário já existentes no setor que otimizam a logística. As hidrovias são rarissimamente utilizadas não só pelo setor como pela economia como um todo. Uma modificação neste cenário precisaria de uma grande discussão no país, porque em diversos rios foram construídas hidrelétricas sem ao menos pensar na possibilidade de um dia se ter a navegação de carga.

Canal: O que o setor tem feito para melhorar esse cenário? Há opções a curto e médio prazo?

Mário: O setor tem observado que em alguns momentos da safra da cana-de-açúcar ocorrem distorções tributárias, o que acaba por viabilizar um maior passeio do etanol até o centro de consumo. Recentemente, observamos o atendimento para alguns postos da RMBH pelas bases de distribuição de Goiânia (GO), sendo que Betim (MG) está ao lado. A distorção tributária faz com que o produto percorra uma maior distância gerando uma deficiência logística. A correção tributária ao longo do tempo pode racionalizar ainda mais a logística dos produtos no Brasil.

Canal: Como é a situação particularmente em Minas Gerais?

Mário: Foi constituída no Estado uma grande plataforma de exportação de açúcar, principalmente, na região do Triângulo Mineiro, com a construção do maior terminal rodoferroviário do país em Uberaba, o que já contribuiu muito para o escoamento do produto, este município conta também com o final da linha do etanolduto.

Há o desafio de abastecer o Estado, que conta com 853 municípios, cinco polos de distribuição de combustíveis, um poliduto que cruza o Triângulo Mineiro, uma refinaria em Betim, que  recebe petróleo pelo modal dutoviário e, pela incapacidade de atender toda a demanda, acaba recebendo produtos derivados de vários estados do Brasil inclusive gasolina C  e diesel já misturados. Há necessidade, no caso do etanol, de entender melhor essa logística e aproximar mais o produtor desse processo otimizando os fluxos e gerando novas oportunidades de negócios.

 

Canal-Jornal da Bioenergia