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Entrevista | André Nahur – WWF-Brasil

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André Nahur é coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil. Biólogo, mestre em conservação e gestão de biodiversidade pela Universidade de Barcelona, possui MBA em gestão de projetos e é mestrando em gestão econômica do meio ambiente na Universidade de Brasília (UnB). Atuou no setor privado, terceiro setor, cooperação internacional e instituições de pesquisas em temas relacionados à biodiversidade, sustentabilidade, mudanças climáticas, energia e alternativas econômicas para conservação. Antes do WWF-Brasil, trabalhou em organizações como Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e GIZ (Sociedade Alemã para a Cooperação Internacional), acompanhando a agenda nacional e internacional de mudanças climáticas e energia. O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira dedicada à conservação da natureza.

World Wildlife Fund”, traduzido como “Fundo Mundial da Natureza”.

Canal: Qual a avaliação da WWF – Brasil  sobre a 21ª Conferência do Clima?

André Nahur: A COP 21 foi um marco na agenda de mudanças climáticas para o mundo. Pela primeira vez, 197 países assinaram um acordo que busca esforços para manter o aquecimento global bem abaixo dos 2ºC, tentando não estar acima de 1,5ºC, com processos periódicos de revisão de ambição das metas para garantir o alinhamento contínuo dos compromissos nacionais com a meta global do Acordo de Paris. O Acordo de Paris entrou em vigor em tempo recorde e é um marco histórico. Após a COP de Paris, entramos no momento crucial de implementar medidas nacionais necessárias para reduzir as emissões. A COP 21 foi um primeiro passo de uma maratona global que estamos correndo contra o tempo.

Canal: As metas traçadas são suficientes para atender as necessidades ambientais globais?

André Nahur: As primeiras análises realizadas mostram que as metas apresentadas pelos países ainda nos levam, em cenários mais otimistas e se implementadas de maneira efetiva, para um aumento médio de pelo menos 2,7ºC até o final do século. Dados de 2016 mostram que estamos com um aumento médio de 1,1ºC e com diferentes impactos das mudanças climáticas em eventos extremos, redução de disponibilidade hídrica e impactos na produção de alimentos. Isso tem gerado impactos sociais que reforçam a urgência de acelerarmos as ações de reduzir emissões, mas também de preparar e aumentar a resiliência e adaptabilidade da nossa sociedade aos impactos das mudanças climáticas, que já estão acontecendo e continuarão nos próximos anos e décadas.

Canal: O Brasil tem se comportado bem com relação aos acordos firmados na COP 21?

André Nahur: A meta brasileira apresentada, de 37% de redução das emissões até 2025 e de 43% das emissões até 2030, coloca o Brasil em um cenário de chegar em 2030 com uma emissão de 1,3Gt. Uma análise realizada pelo Observatório do Clima, com apoio do WWF e outras organizações, baseado em conceitos de qual seria a contribuição justa do Brasil para a o Acordo de Paris, mostra que a meta ideal seria de chegarmos a 2030 emitindo cerca de 1Gt. Diversas análises mostram que é possível atingir essa meta com ações estratégicas realizadas no setor de floresta, agricultura e energia, e ainda tem um potencial de gerar ganhos consideráveis para a economia nacional, gerando mais emprego, aumentando a renda e poder de consumo em relação a cenários governamentais.

Canal: As energias renováveis são o caminho para alcançar os objetivos traçados?

André Nahur: Segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, o setor de energia em 2015 foi o segundo maior emissor de gases de efeito estufa, sendo responsável por aproximadamente 24% das emissões nacionais e no mundo. O setor de energia ainda deve responder por aproximadamente 80% das emissões nacionais.

O Brasil tem enorme potencial de ser líder mundial na geração de energia renovável e já deu um grande passo com a hidroeletricidade no setor elétrico e com o etanol. Para o setor elétrico, a nossa matriz precisa inovar e se diversificar cada vez mais para garantir a segurança em longo prazo. Estudos demonstram que, com os cenários de aumento de temperatura e redução de disponibilidade hídrica, as nossas hidrelétricas podem chegar a perder 30% do seu potencial de geração. Se não continuarmos expandindo a eólica, acelerarmos a solar e a biomassa, ficamos dependentes de térmicas que sujam a nossa matriz e aumentam o custo da energia. Para o setor de transporte, o Brasil já deu um grande passo com o etanol, mas ainda existe um grande potencial que poderia ser explorado, além de outras medidas para o setor conseguir reduzir as emissões.

Canal: Qual setor deve apresentar maior destaque nos próximos anos?

André Nahur: A energia eólica já teve um grande avanço, mas ainda pode avançar bastante. Ainda precisamos acelerar a fonte solar no Brasil e fortalecer a biomassa.

Canal: A COP 23 terá novidades?

André Nahur: A COP 23 será de grande importância para mostrar que os países estão andando e caminhando na implementação das metas nacionais. O Brasil tem, e deve ter, um papel de protagonismo em mostrar ações e apresentar compromissos de acelerar a implementação da meta nacional, assim como de ações concretas que possam fortalecer o processo internacional.

Canal: Quais iniciativas o WWF indica como importantes para a preservação ambiental?

André Nahur: Nos próximos anos, além da questão de energia, precisamos zerar o desmatamento e aplicar medidas de implementação de uma agricultura de baixo carbono. Existe muito o que fazer que pode reduzir as emissões e gerar consequências sociais e econômicas positivas.

Canal: Seguindo no ritmo que está, qual deve ser o futuro do planeta?

André Nahur: Ainda é possível limitarmos o aumento da temperatura global a níveis seguros de um aumento não superior a 1,5ºC. Mas precisamos acelerar essa implementação, pois já existem análises que apontam que se o mundo chega em 2021 emitindo o mesmo que atualmente, teremos em torno de 33% de chances de manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC. Ou seja, se não aceleramos a redução das emissões globais, podemos chegar nos primeiros anos do Acordo de Paris, que vigora de 2020 a 2030, já no cheque especial.

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia