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Lavouras de cana e soja otimizam processos com uso de drones

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Há algum tempo, o campo não é apenas analógico. As tecnologias, redes de comunicação e equipamentos digitais contribuem em serviços significativos, que trazem sucesso para a lavoura e ganhos para o produtor. Neste contexto, os drones e Vants realizam em poucas horas trabalhos que levavam dias. Mais um aliado na produtividade rural.

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) conceitua os dois equipamentos de maneira distinta. Drone é uma expressão genérica utilizada para descrever vários modelos, que vão desde máquinas compradas em lojas de brinquedos até Veículos Aéreos Não Tripulados (Vant) de aplicação militar, por exemplo.

Na agricultura, esses equipamentos podem ser utilizados para a realização de diversos levantamentos e analises do sensoriamento remoto, como captação de falhas, identificação de plantas daninhas e de plantas que competem com a cultura principal, por exemplo. Nas lavouras de cana, as imagens aéreas auxiliam na identificação de áreas que podem ou não ser replantadas, além de indicar áreas que podem estar sofrendo com ataque de alguma praga ou deficiência de algum nutriente no solo. Já nas plantações de soja, as analises podem gerar valores para previsão de colheita e identificação de áreas com problemas, permitindo a tomada de decisão assertiva para a correção da safra seguinte.

O instrutor de Pilotagem de Drone e Uso de Drones para Mapeamento e Monitoramento de Áreas Agrícolas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-GO), Gustavo Morais, explica que “essas analises permitem ao produtor tomar medidas de controle antes que a praga se alastre e desenvolva por completo. Por ser um equipamento que trabalha com GNSS (sistema de posicionamento na superfície terrestre) embarcado, é possível identificar as coordenadas pontuais dos locais (a precisão pode variar de centímetros a metros, dependendo do equipamento que esteja utilizando) que estão com infestações de plantas daninhas e aplicar o defensivo somente no local indicado, auxiliando na redução dos custos com defensivos, desperdício e reduzindo o impacto ao meio ambiente”.

Outros tipos de análise possíveis são as multiespectrais, como análises radiométricas, desenvolvidas no sensoriamento remoto, que permitem resultados mais específicos quanto ao desenvolvimento e saúde da planta. Os resultados colhidos permitem aos profissionais verificar  a condição que o dossel se encontra, podendo identificar áreas com menor desenvolvimento que as outras. Desta forma se faz a programação com maior exatidão das regiões que devem ser analisadas. Com isso, reduzem-se custos com análises, como a de solo. Gustavo comenta que os cálculos gerados são conhecidos como Índices Vegetativos. “Hoje há diversos estudos voltados para entender melhor esses resultados e desenvolver técnicas que possibilitem ao produtor a tomada de decisão mais rápida e assertiva”.

Quanto aos levantamentos topográficos, os drones possibilitam a produção de curvas de nível, projetos de plantio, criação de MDT e MDE, cálculos de volume de bagaço, identificação de áreas para futuras compras.

Utilização

As usinas de cana-de-açúcar já perceberam que utilizar os equipamentos para imagens aéreas no campo pode ser bastante vantajoso, tanto em tempo quanto em dinheiro. José Olavo Bueno Vendramini, gerente-executivo de Desenvolvimento e Tecnologia Agrícola da Tereos, comenta que a empresa começou a utilizar Vants nas lavouras a partir de 2014, com um projeto piloto para o levantamento de falhas nos canaviais. “A partir dos resultados obtidos, o projeto foi expandido em escala comercial e na última safra conseguimos sobrevoar 100% das nossas áreas para levantamento de falhas. Também fizemos o sobrevoo de todas as áreas entre 1º e 3º corte para detecção de plantas daninhas.”

Hoje, a principal utilização é para levantamento de falhas das lavouras. Como aplicações secundárias, o porta-voz cita a medição do volume de biomassa das unidades industriais, com resultados mais precisos que o levantamento anteriormente com GPS. “Também temos projetos pilotos com drones de pulverização e aplicação de controle biológico nos canaviais, ambos em avaliação para expansão em área comercial. Dessa forma, estamos partindo para equipamentos que, além de nos gerar informações da saúde do nosso canavial, possam atuar de forma ágil e assertiva nos desvios levantados.”

O gerente ressalta que toda essa área sobrevoada gera uma grande demanda para processamento de informação. Assim, são feitos investimentos não só em equipamentos, mas em equipe e estrutura. Todo o processo é realizado internamente de forma corporativa para as sete unidades do grupo Tereos. “O foco nestes projetos de utilização de drones e Vants é trazer mais informações, com mais agilidade, para a tomada de decisões, em sistemas integrados de análise de dados”, conclui Vendramini.

O pós-doutor em entomologia Tavvs Alves, que atualmente atua no polo de inovação do Instituto Federal Goiano em projetos com empresas da agroindústria, principalmente nas áreas de agricultura digital, drones, e big data, destaca que os drones possuem vantagens que nenhuma outra ferramenta pode oferecer para agricultura. “Uma das principais é a possibilidade de registrar dados em tempo real e a qualquer momento. É inviável voar debaixo de chuva ou no escuro, mas podemos voar em vários horários do dia para fugir de nuvens e obter imagens com boa iluminação. Obter informações com qualidade sobre talhões de cerca de 300 hectares requer algumas horas de planejamento, voo e processamento, mas podemos identificar vários problemas em tempo real durante a execução do voo.”

Segundo Alves, outra vantagem importante é a possibilidade de customizar câmeras. Algumas empresas já as vendem com capacidade para detectar a causa do problema com precisão e, no futuro, permitirão separar entre os diferentes problemas ocorrendo na lavoura. “Como se pode imaginar, não é fácil customizar câmeras para satélites que estão orbitando sobre nossas cabeças. A grande vantagem dos drones para cana e soja é, sem dúvida, a possibilidade de atender as demandas específicas dos produtores quanto ao momento de voar, disponibilidade instantânea dos dados, câmeras otimizadas etc.”

Agricultura

Atualmente, diversas empresas estão apostando na pulverização com drones. Eles são equipamentos que trabalham com o conceito da agricultura de precisão e visão na aplicação pontual (resultando em redução de custo com defensivos e de impacto ao meio ambiente) e geram relatórios precisos das áreas pulverizadas. No mercado, os mais comuns são equipamentos que podem carregar de 5 a 20 litros e trabalham na faixa de 5 a 15ha/dia. Existem estudos que buscam aumentar a capacidade de carga e tempo de voo, melhorando o rendimento do equipamento.

Ainda neste cenário, a ferramenta reduz o custo com aplicação dos defensivos biológicos, trabalhando uma média de 300ha dia. Assim como na pulverização e no mapeamento, geram relatórios precisos das áreas aplicadas.

Vale ressaltar que os drones não podem ser utilizados com nuvens cobrindo a área de interesse nem podem sobrevoar áreas próximas a aeroportos ou em outras situações que coloquem em risco a vida do ser humano ou afetem a qualidade das imagens. Eles geralmente carregam câmeras passivas, ou seja, dependem da luz do sol para funcionar.  Portanto, é preciso voar em condições adequadas de iluminação, geralmente duas horas antes ou depois do meio dia solar. Câmeras termais precisam ser utilizadas em janelas de tempo ainda menores.

Desafios

Como toda tecnologia, o drone tem limites que variam de acordo com as características de cada equipamento. Entre os principais pontos negativos estão o tempo de voo, a capacidade de carga, os tipos de sensores embarcados, a resistência à água e os custos de aquisição.

Como desvantagem, Tavvs Alves destaca que as baterias dos drones ainda são um dos principais limitantes. “Da mesma forma que precisamos carregar nossos celulares diariamente, as baterias de um drone não conseguem atender a necessidade de energia da agricultura cultivada em grandes extensões. Então, voar grandes áreas diariamente pode exigir várias equipes de campo, mais de um drone, várias baterias carregadas e, provavelmente, uma combinação com dados obtidos por satélites e aviões tripulados.” Além disso, por ser uma tecnologia muito recente para agricultura, outra desvantagem é a carência de profissionais qualificados para interpretar as imagens e explorar o potencial de automação que modelos matemáticos, computadores e inteligência artificial podem oferecer.

A compra do equipamento pode variar de menos de mil reais até valores acima de R$100 mil, dependendo de suas potencialidades. Comprar um mais barato ou mais caro não significa ter escolhido o melhor ou pior. Cada um oferece características próprias e o que deve ser levado em consideração na hora da compra são as necessidades específicas de uso. Isso pode ser feito por meio de estudo de caso para avaliação.

Já para contratação de serviços de manuseio do equipamento, os preços são variados. Para se ter uma ideia, o mapeamento custa em  média de R$5 a R$15 por hectare. Pela pulverização, o valor médio é de R$15 a R$50 por hectare. Já o valor médio no mercado para aplicação de vetores para controle biológico é de R$7 a R$20 por hectare. Esses valores variam conforme a área e a localização.

Ainda assim, Gustavo destaca que o equipamento é mais vantajoso que outros métodos tradicionais. “A ferramenta tem se popularizado em meio aos produtores. As análises entregues por esse tipo de levantamento tem se mostrado eficientes e ajudado o produtor a reduzir seus custos. O drone permite que ele leve o campo para dentro de seu escritório.”

Mesmo com valores que podem assustar num primeiro impacto, Tavvs Alves faz uma comparação muito simples: “o custo pode ser facilmente pago pelas sacas que podem ser salvas do ataque de insetos, doenças, plantas daninhas e deficiências nutricional e hídrica”.

Nas pesquisas do Instituo Federal Goiano são utilizados equipamentos que custam mais de R$ 500 mil. “O produtor não vai precisar comprar esses equipamentos mais caros. Vários pesquisadores de diversas partes do mundo têm trabalhado para selecionar câmeras e plataformas apropriadas para compactar esses drones caros em sistemas de menos de R$ 8 mil. Os atuais drones de baixo custo ainda deixam a desejar, mas podem guiar as equipes de campo durante a amostragem e auxiliar nas decisões sobre manejo. A margem de lucro do produtor tem ficado mais apertada no decorrer das safras. Os desenvolvedores de drones e demais tecnologias têm a importante missão de maximizar a relação benefício-custo de suas utilizações.”

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia