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Divulgação Absolar

Cresce uso de energia solar na área rural

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Os custos com energia no campo são altos e consomem grande parte do investimento de produção. Muito dessa demanda está atrelado à necessidade de irrigação, relacionada ao bombeamento de água. Para o agricultor familiar, essa preocupação existe, mas vem sendo minimizada graças à facilidade de acesso ao crédito para instalação de sistemas solares em suas propriedades.

A supervisora de Energias Renováveis da Globaltek, Suzzane Mercandelli, explica que há duas formas de atender às demandas energéticas do agricultor familiar por sistemas fotovoltaicos: on-grid e off-grid, ou seja, sistema conectado à rede e sistema isolado.

No primeiro caso, o consumidor produz a própria energia e gera crédito na concessionária local, fazendo com que a conta seja reduzida, em média, em 95%. Já a segunda forma é utilizada em locais remotos, onde não há rede de distribuição de energia elétrica ou em substituição aos poluentes geradores à combustão. Os sistemas off-grid, no meio rural, são geralmente utilizados para suprir bombas para retirada de água de poço e irrigação de culturas. Esse sistema é composto pelas placas fotovoltaicas, cabos, conectores e exige um inversor específico para partida suave de motores, que converte corrente contínua em alternada. Assim, o sistema permite que agricultor utilize a bomba durante todo o tempo que tiver radiação solar e utilize a energia onde a rede de distribuição não chega, sanando os problemas relacionado à má qualidade da energia distribuída (queda de energia, oscilação de tensão etc.) variáveis que, quando não são bem equalizadas, podem danificar motores.

Algumas ações específicas são voltadas para a utilização por agricultores familiares, como explica o engenheiro eletricista, civil e de segurança da Stonos Desenvolvimento Criativo, Pedro Provázio. São exemplos os sistemas de bombeamento com energia solar para agricultores que não possuem energia elétrica próxima aos locais de cultivo. “É possível instalar sistemas fotovoltaicos desconectados da rede de energia da concessionária e desconectados de bancos de baterias, interligando as placas ao inversor específico para alimentação das bombas elétricas convencionais (de corrente alternada), garantindo economia e simplicidade no acesso à água em pontos remotos como pastos e/ou para aplicações na agricultura através do abastecimento de reservatórios de água que podem irrigar os cultivos familiares.” Outra solução se trata dos sistemas de energia fotovoltaica conectados à rede, sendo possível reduzir os gastos que o agricultor familiar já possui junto à concessionária.

Utilização

A opção por uma tecnologia totalmente limpa e que oferece independência com relação à concessionária de energia foi o que motivou o agricultor familiar baiano Ivan João de Brito a instalar um sistema solar em sua propriedade. Para irrigar as plantações de milho, hortaliças, abóbora, melancia, mamona e cebola, por exemplo, a água é bombeada graças a um sistema instalado há cerca de um ano. “Eu gastava, em média, 300 a 400 kVA por mês, um custo de R$600 a R$800 de energia para a concessionária.”

Para a instalação do sistema, foram investidos R$14 mil, valor que já pode ser percebido em retorno positivo na produção. “Estou com o sistema funcionando plenamente, em média, de 8 a 9 horas por dia. É muito vantajoso! O investimento que fiz já se pagou, levando em consideração a economia do valor destinado à concessionária e o retorno com as culturas que eu planto.” Ao todo, o sistema ocupa quase cinco metros quadrados da propriedade, incluindo as placas e a sua estrutura metálica.

O presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, explica que a energia fotovoltaica, por conta de três fatores, se tornou hoje viável e esta cada vez mais próxima do pequeno produtor rural. O primeiro fator foi uma redução continuada do preço da energia solar fotovoltaica. “Na ultima década, houve uma redução do preço dessa tecnologia em mais de 75%. Por conta disso, ela está se tornando cada vez mais acessível e competitiva para o pequeno agricultor.” O segundo ponto seria o continuado processo de alta das tarifas de energia, superior à inflação. “No ano passado, a inflação média anual foi de 2,95% e o aumento da tarifa elétrica foi de 10% na média anual. Em 2015, o aumento foi de mais de 50% no ano. Para 2018, a previsão de aumento é de 15 a 20%. Por conta desse reajuste, os consumidores estão buscando formas de reduzir os gastos – uma das maneiras é gerando energia na própria propriedade.” Por fim, o terceiro fator é o acesso ao crédito, com diferentes linhas de financiamento disponíveis para a área rural.

De acordo com Sauaia, a energia fotovoltaica possui inúmeras aplicações no campo. “Estamos acostumados a pensar em energia solar como forma de acender lâmpadas, mas também é possível aplicar em monitoramento, cercas elétricas, telecomunicação, bombeamento de água, irrigação, refrigeração, tanques de aeração, processo produtivo, entre outros.”

Trata-se de uma tecnologia versátil, de rápida instalação e baixos custos de manutenção. Rodrigo considera que o agricultor pode investir em um sistema que trará maior autonomia, segurança e diversidade. “Ele não precisa depender integralmente da energia elétrica fornecida por terceiros.“ Eventualmente, caso a produção seja superior à demanda, é possível injetar energia de volta à rede e receber crédito junto à concessionária, que pode ser utilizado pelos próximos 60 meses. A alternativa é possível caso haja adequação ao sistema de compensação de energia elétrica, regulamentado em 2012 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Financiamentos

O engenheiro Pedro Provázio afirma que os benefícios de utilização de um sistema fotovoltaico já são realidade. “A resolução normativa da Aneel já passou por revisão e hoje fornece diversos benefícios para os interessados em conectar os sistemas fotovoltaicos à rede da concessionária. Os governos federais, estaduais e até mesmo alguns municipais estão se mobilizando para orientar os clientes e também os fornecedores de soluções com energia solar”, diz, exemplificando como o programa federal ProGD, o programa estadual Goiás Solar e a iniciativa municipal da capital de Tocantins, Palmas Solar. “Também estão surgindo a cada mês novas opções de financiamento para a aquisição e instalação dos sistemas fotovoltaicos, com taxas, carências e amortizações que viabilizam ainda mais o fluxo de caixa dos clientes das soluções de energia solar.”

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) financia projetos individuais ou coletivos que gerem renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária. O acesso ao Pronaf pode ocorrer para custeio da safra ou atividade agroindustrial ou ainda investimento em máquinas, equipamentos ou infraestrutura de produção e serviços agropecuários ou não agropecuários.

O produtor familiar deve procurar o sindicato rural ou a empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), como a Emater, para obtenção da Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), que será emitida segundo a renda anual e as atividades exploradas, direcionando o agricultor para as linhas específicas de crédito a que tem direito. Para se habilitar, o agricultor deve estar com o CPF regularizado e livre de dívidas.

Para o setor fotovoltaico, são disponibilizadas duas linhas: Pronaf Eco e Pronaf Mais Alimentos. Nas duas linhas, a taxa de juros de 2,5% ao ano e participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em até 100% do valor dos itens financiáveis. O prazo máximo para financiamento é de 10 anos e prazo máximo de carência é de três anos.

Rodrigo Sauaia evidencia que o Programa contribui com o desenvolvimento da cadeia integrada nacional, valorizando a produção brasileira. “Gera-se empregos não só na instalação dos sistemas, mas na fabricação dos componentes.”

Há um ano, o Banco do Brasil lançou o Programa Agro Energia. A iniciativa veio como forma de apoiar a produção de energia limpa e renovável em atividades do agronegócio e engloba pessoas físicas, empresas e cooperativas do agronegócio. As linhas de financiamento são: Inovagro, Pronamp, Investe Agro, Pronaf Eco, Pronaf Agroindústria, Prodeccop e o FCO Rural, para a região Centro-Oeste. A taxa de juros varia de 2,5 até 12,75% ao ano, dependendo das taxas específicas utilizadas.

Meio ambiente

Do ponto de vista socioambiental, a tecnologia fotovoltaica é grande geradora de empregos locais e qualificados. Além disso, pode contribuir para a atração de novas indústrias de alto conteúdo tecnológico, ajudando a aquecer a economia local e da região, contribuindo para redução de gastos de energia elétrica e promovendo alívio para agricultor. É o que comenta Sauaia, destacando ainda a contribuição da energia solar para a redução das emissões de gases de efeito estufa na geração de energia elétrica.  “A produção fotovoltaica não faz uso de água para geração de energia elétrica; não depende de recursos hídricos, cada vez mais escassos e com múltiplas funcionalidades para a população e não emite nenhum tipo de poluente para a atmosfera durante o funcionamento do sistema. É uma tecnologia alinhada não só com necessidades de curto prazo, mas com visão de médio e longo prazo.”

Os sistemas fotovoltaicos produzem eletricidade com pouquíssimos impactos ambientais, sem a emissão de ruídos sonoros ou sem a produção de resíduos. Além desse fator importante do ponto de vista ambiental, Pedro Provázio ressalta que cerca de 95% dos componentes de um sistema fotovoltaicos são recicláveis. O processo de fabricação também já está bem desenvolvido, como constatou a análise da ThinkStep (empresa australiana especializada em consultoria ambiental), que diz que um sistema fotovoltaico é capaz de produzir a mesma quantidade de energia que foi utilizada para fabricá-lo em, aproximadamente, 1,7 a 2,3 anos.

Ele explica que, como qualquer mercado de equipamentos tecnológicos, o de energia solar possui um comportamento característico.  “É possível constatar que, atualmente, o mercado de energia solar ainda está no estágio inicial, ou seja, com adesão de entusiastas e de visionários. Com o tempo, o amadurecimento será natural, e o mercado principal tornará a energia solar fotovoltaica uma realidade ainda mais sólida, com a adesão de grandes massas de consumidores, denominados pragmáticos e conservadores”, analisa Pedro Provázio.

Infraestrutura

O pequeno produtor enfrenta desafios particulares relacionados à infraestrutura. Geralmente, eles estão em regiões mais precárias do que áreas mais urbanizadas. Fatores que levam a melhoria dos serviços, como estradas e estruturas de energia, demandam elevado custo de investimento. As estradas, vias de acesso e disponibilidade de energia não têm a mesma segurança e confiabilidade dos grandes centros, cenário em que a energia solar pode contribuir.

Pela dificuldade de acesso à infraestrutura que proporcione o fornecimento de energia de maneira eficiente, muitos produtores utilizam geradores à combustão (que consomem gasolina ou diesel) para atender suas demandas, equipamentos estes que apresentam custos de operação (custo do diesel ou gasolina) e manutenção, além de investimentos destinados à logística e armazenamento de combustível. “Nesse cenário, a energia solar é mais vantajosa, já que não tem custo operacional, pois a fonte de energia é o sol e, por ser muito robusto, devido às proteções do sistema em redundância, necessitam de periodicidade de manutenção menor”, explica Suzzane Mercandelli.

Com relação aos incentivos voltados para renováveis, especificamente para o setor fotovoltaico, Suzzane comenta que têm contribuído significativamente para o aumento de aquisições de sistemas solar fotovoltaicos. “Na Globaltek, notamos aumento da procura pela tecnologia, uma vez que os incentivos apoiam os produtores agrícolas. O governo federal realmente tem que incentivar esse tipo de produção, que atende tanto a agricultura de subsistência quando a que fornece por volta de 70% dos produtos que consumimos nas mesas das famílias brasileiras.”

As tarifas voltadas para área urbana são diferentes das aplicadas em zona rural.  Para se levantar a diferença do sistema de compensação de créditos provenientes da geração distribuída com sistemas fotovoltaicos conectados à rede entre um agricultor familiar e um agricultor em larga escala, é preciso entender se existem descontos na tarifa de energia.

De acordo com informações da Aneel sobre a aplicação da Resolução Normativa nº 482/2012 (atualizado em 25/05/2017), devem ser adotados para os consumidores do grupo B que fazem jus a algum desconto na tarifa os mesmos procedimentos para o faturamento de unidades consumidoras com micro ou minigeração distribuída classificados como baixa renda, ou seja, deve-se, primeiramente, aplicar as regras de faturamento previstas no art. 7º da Resolução Normativa n° 482/2012 e, em seguida, conceder os descontos conforme estabelecido na Resolução Normativa n° 414, de 2010.

Pedro Provázio explica que, para o caso do consumidor integrante do grupo A com direito a desconto, por exemplo, um irrigante, devem-se observar os horários das energias injetada e consumida ao longo do ciclo de faturamento, ou seja, o mesmo procedimento adotado para os demais consumidores do grupo A que possuem micro ou minigeração distribuída, para somente depois aplicar os descontos na TUSD e TE.

Mesmo se tendo tarifas rurais mais baratas que as aplicadas no meio urbano, o custo de investimento em energia solar e o tempo de retorno não sofrem grandes alterações, já que elimina-se grandes gastos econômicos com perdas de equipamentos (danificados pela utilização de uma energia ruim) e combustível fóssil, além de permitir a geração de faturamento por meio das vendas das culturas.  “Apesar das taxas mais baratas no meio rural, o consumo de energia do produtor é muito alto, ou seja, utilizando energia da concessionária, a conta ainda tem valor elevado”, esclarece Suzzane Mercandelli.

Além disso, Sauaia comenta que a tarifa rural também sofre tendência de alta acima da inflação. Como fatores positivos, o agricultor familiar geralmente tem área disponível, de terreno ou telhado, e acesso às linhas de financiamento com condições especiais. “Desta forma, é interessante financeiramente. O produtor demora cerca de cinco anos para quitar o empréstimo e ter benefício direto. Essa energia pode abastecer não apenas demanda elétrica no campo, como urbano, desde que esteja conectado à mesma distribuidora da energia elétrica, com mesmo CPF ou CNPJ da empresa e suas filiais.” A fotovoltaica propicia uma estabilidade, já que o consumidor tem controle de quanto irá gerar de energia pelos próximos 25 anos. “É uma forma de oferecer previsibilidade para agricultores que já precisam enfrentar os riscos do clima”, finaliza Sauaia, destacado uma das principais variáveis que afetam a produção no campo.

Com relação ao payback, ou seja, tempo de retorno financeiro da tecnologia, o engenheiro da Stonos Desenvolvimento Criativo, Breno Reis, comenta que há diferença para sistema de bombeamento solar e sistema fotovoltaico conectado à rede. “No caso do bombeamento, o sistema abastecerá somente o consumo daquela bomba, não sendo necessárias adaptações elétricas para levar energia até seu local, reduzindo a conta de energia somente referente ao consumo desse dispositivo. No caso do sistema fotovoltaico conectado à rede, o gasto com energia da conta pode ser reduzido à taxa mínima da concessionária. O sistema é dimensionado pra abater o consumo de toda a propriedade rural.” Segundo ele, em geral, o sistema interligado à rede é mais barato e possui payback menor caso a rede elétrica já tenha fornecimento no local. “Em média, um payback on-grid é de cinco anos e de um sistema de bombeamento é de sete anos. Ou seja, para uma propriedade que já possui sistema de bombeamento movido à energia elétrica, é mais vantajoso instalar o sistema interligado na rede. Porém, quando a localização da bomba é distante do ponto de entrega de energia, é mais vantajoso instalar o sistema de bombeamento isolado”, finaliza.

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia