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Foto: Portal Unica

Cresce uso de biocombustíveis na aviação nacional

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Os biocombustíveis vêm conquistando espaços antes inimagináveis. É preciso um novo olhar sobre as formas como se dão as relações comerciais e ambientais para que, aliadas, sejam harmônicas e garantam o bem estar coletivo. Inserir combustíveis renováveis em misturas com os produtos já tradicionais pode reduzir a emissão de gases poluentes e dar nova destinação ao que seria descartado na natureza.

Hoje o mercado total de querosene de aviação no Brasil é em torno de 6,7 milhões de metros cúbicos e as tecnologias existentes permitem a mistura com renovável em até 50%, com uma alta concentração de consumo em menos de 30 postos de abastecimento (aeroportos).

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), atualmente 65 companhias aéreas operam no Brasil. Já de acordo com dados disponibilizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), até fevereiro de 2017 foram vendidos pelas distribuidoras 1.105.154 metros cúbicos de querosene de aviação (derivada de petróleo). A venda total do ano de 2016 foi de 6.764.746 metros cúbicos.

Adicionalmente, a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), na sua 39ª Assembleia Geral, alinhada com as resoluções da COP-21, aprovou em outubro de 2016 o CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation), que entrará em vigor em 2020, obrigando a indústria de aviação civil internacional dos países signatários a neutralizar ou compensar suas emissões de CO2 acima da linha de crescimento neutro de carbono, tendo como referência o mesmo ano da efetividade, além da participação da indústria na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, reduzindo o crescimento das emissões do setor de transporte. A maneira efetiva de neutralizar o crescimento das emissões é pela substituição dos combustíveis de origem fóssil por fontes renováveis.

Pedro Scorza, diretor de Biocombustíveis para Aviação da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), explica que o bioquerosene no Brasil é tecnicamente uma realidade. “Já existe uma planta certificada para produção de bioquerosene em Brotas (SP), que exporta para Europa, e outras plantas industriais (biodiesel, etanol ou químicas) que podem, com menores adaptações, se tornar produtoras de bioquerosene.” Entretanto, ainda não há viabilidade econômica. “De um lado, não existem incentivos à produção, pois a carga tributária no bioquerosene é maior que a do querosene de origem fóssil, além da não valoração das positivas externalidades econômicas e sociais. De outro lado, a paridade do custo final do bioquerosene com o combustível de origem fóssil é condição para viabilizar sua utilização pelas companhias aéreas nacionais e internacionais, devido ao seu grande impacto nas linhas de custo e competitividade do negócio.”

Estritamente do ponto de vista técnico, a produção de bioquerosene já ocorre e está inclusive certificada. “O Brasil é um país promissor neste sentido e internacionalmente conhecido pela sua grande experiência no uso de biomassa, como o etanol de cana-de-açúcar, o óleo de soja para o biodiesel e o eucalipto para a polpa de papel. Por causa destes fatores, acreditamos que podemos liderar o processo de substituição dos combustíveis fósseis na aviação por biocombustíveis. Todavia, ainda não há produção em escala suficiente para tornar o produto economicamente atrativo”, explica o engenheiro de Desenvolvimento de Produtos da Embraer, Marcelo Gonçalves.

Com relação à matéria-prima necessária, o Brasil tem o suficiente para atender a demanda dos próximos anos. Pedro Scorza comenta que o País tem posição privilegiada em relação aos demais para se tornar líder na produção de bioquerosene. “Há condições de disponibilidade de terra agriculturável, clima e água, tradição na produção agrícola e duas indústrias de biocombustíveis bastante consolidadas (biodiesel e etanol). O mercado de bioquerosene brasileiro, se comparado aos volumes que já processamos hoje de biodiesel e etanol, não apresenta desafio, sendo uma fração do que já se produz e, proporcionalmente, na necessidade de matérias-primas. Além disto, as diversas tecnologias (paths) que hoje levam ao bioquerosene permitem o uso de matérias-primas não tradicionais, como os resíduos municipais sólidos (lixo urbano) e alternativas como culturas perenes para energia (floresta), elencando um extenso leque de potenciais que podem ser desenvolvidas a médio e longo prazo.”

Desafios

Atualmente, o desafio para produção de bioquerosene é a viabilidade econômica, seja pela ausência de políticas especificas para este segmento e mesmo os valores do querosene de origem fóssil. De acordo com Pedro Scorza, os outros pilares – como tecnologia, sustentabilidade, capacitação e qualidade – estão resolvidos. “O RenovaBio vem como o último degrau viabilizador da indústria do bioquerosene brasileira: a expectativa de uma modelagem de regras e politicas viabilizadoras que permitam a mudança de patamar tecnológico para uma escala industrial, suficiente para alcançar os ganhos de otimização de custos e aumento de tamanho de mercado necessários”, diz, fazendo referência ao programa lançado para incentivo da expansão e produção de biocombustíveis no Brasil.

Marcelo Gonçalves comenta que a indústria aeronáutica assumiu o compromisso de reduzir seu impacto ambiental e estabeleceu metas ambiciosas para reduzir emissões de dióxido de carbono em 50% até 2050, quando comparado aos níveis de emissão de 2005. Hoje a indústria gera aproximadamente 2% das emissões de dióxido de carbono no planeta. “Para que isso ocorra, é preciso que haja uma série de iniciativas, como melhorias aerodinâmicas para reduzir o consumo de combustível e motores mais eficientes, mas não é um objetivo possível de ser atingido sem os biocombustíveis.”

Desempenho

Conceitualmente, o desempenho do querosene oriundo de fóssil e do renovável é igual. “Devido ao perfil global da indústria da aviação, onde uma aeronave decola de um aeroporto no Brasil e pousa em outro continente, potencialmente seguindo para qualquer outro local do mundo, não seria factível que esta aeronave dependesse de um tipo específico de combustível para o voo”, comenta Pedro Scorza.

Daí vem o conceito de produção do bioquerosene, ou drop-in, como conhecido internacionalmente: a matéria-prima, seja qual for, deve sofrer um processo de transformação que resulte em uma série de hidrocarbonetos iguais aos presentes no combustível de origem fóssil, sob um processo produtivo controlado e de altíssima garantia das especificações finais e qualidade, aprovados pela agência estadunidense de normaliszação (American Society for Testing and Materials – ASTM) e adicionalmente pela ANP no Brasil. Por outro lado, as aeronaves não sofrem ou requerem nenhuma modificação ou ajuste. “Qualquer aeronave no mundo pode abastecer com o bioquerosene, com processo certificado pela ASTM, sem restrição alguma”, garante Pedro Scorza.

Como as aeronaves não são substituídas em ciclos curtos, podendo voar por mais de 30 anos, e pelo fato de o segmento aeronáutico ser global, é preciso que os biocombustíveis sejam drop in, ou seja, possam ser transportados e misturados ao produto fóssil na estrutura atualmente existente – dutos, tanques e bombas – sem nenhum problema de compatibilidade, nem modificação na engenharia das aeronaves já em operação. “O bioquerosene de aviação drop in tem exatamente o mesmo rendimento do combustível tradicional. Em sua rota de desenvolvimento, a matéria-prima é transformada em querosene tradicional de aviação”, finaliza Marcelo Gonçalves.

Mercado

Pedro Scorza aponta que, além proporcionar o cumprimento das obrigações existentes com o CORSIA e a contribuição ao NDC nacional, outras vantagens são o não o uso do bioquerosene e, consequentemente, não dependência de uma única commodity (como o petróleo), as garantias de segurança energética e as diferentes formas de precificação do custo com combustíveis. “A médio e longo prazo, com a possível ascensão do valor do barril de petróleo e os constantes ganhos de eficiência na produção de matéria-prima, chegaremos a um ponto de inflexão, onde o combustível renovável retirará a pressão de custos das empresas aéreas.”

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia