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Cenários para safra 2018/2019: produção terá crescimento pequeno

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A safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul brasileiro se iniciou oficialmente no mês de abril. Os resultados deste ano devem ser um pouco diferentes do que os alcançados na última safra. Os números mostram que, mesmo com redução no volume de cana, a produção de etanol hidratado se destacou na safra 2017/18. Ao todo, 278 unidades de operação no Centro-Sul estiveram em atividade produtiva no ciclo 2017/2018. A expectativa é manter o aumento de produtividade nos próximos meses, mas diminuição de unidades operando.

De acordo com informações divulgadas pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), dados finais da safra 2017/2018 da região Centro-Sul indicam uma moagem de 596,31 milhões de toneladas de cana-de-açúcar entre 1º de abril de 2017 e 31 de março de 2018. Este resultado representa uma ligeira retração de 1,78% sobre as 607,14 milhões de toneladas processadas no ciclo 2016/2017.

A produção final de etanol totalizou 26,09 bilhões de litros, cerca de 1,72% superior ao volume registrado na safra anterior (25,65 bilhões de litros). Deste total produzido, 10,42 bilhões de litros foram de etanol anidro e 15,67 bilhões de litros de hidratado – este último com aumento de 4,49% em relação aos 14,99 bilhões de litros registrados na safra 2016/2017.

Do volume de etanol fabricado no ciclo atual, 521,58 milhões de litros foram a partir do milho, registrando crescimento de 123% em relação ao volume produzido em 2016/2017. A produção de açúcar somou 36,05 milhões de toneladas na safra 2017/2018, crescimento de 1,21% sobre as 35,62 milhões de toneladas observadas na safra anterior.

Ainda segundo a Unica, na 2ª metade de março de 2018, a moagem de cana no Centro-Sul atingiu 7,76 milhões de toneladas, enquanto a produção de açúcar somou 173,12 mil toneladas. Neste mesmo período, o volume de etanol totalizou 428,70 milhões de litros, com a hidratação (volume de etanol anidro reprocessado e convertido em etanol hidratado) atingindo 72 milhões de litros. A produção de etanol de milho somou 31,35 milhões de litros na quinzena. Já com relação ao número de unidades em safra, 78 registraram moagem na região Centro-Sul até 31 de março de 2018.

No acumulado da safra 2017/2018, o teor de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por tonelada de matéria-prima alcançou 136,60 kg, maior índice desde a safra 2011/2012, assinalando aumento de 2,68% frente aos 133,03 kg por tonelada verificados na safra 2016/2017.

No agregado da safra 2017/2018, as vendas de etanol totalizaram 26,41 bilhões de litros, alta de 1,71% quando comparada aos 25,97 bilhões de litros comercializados no ciclo 2016/2017. Desse volume, 1,51 bilhão de litros foram direcionados para exportação e 24,90 bilhões de litros ao mercado interno. Destaque para o etanol hidratado, com volume de 15,46 bilhões de litros vendidos, superando em 7,88% o apurado no ciclo 2016/2017 (14,33 bilhões de litros).

O diretor-técnico da UNICA, Antonio de Padua Rodrigues, antecipa que esta safra que se inicia deve ser menor devido ao fato de que, apesar da mesma área de colheita do ano anterior, o canavial está mais velho. “As previsões dependem ainda das condições climáticas no decorrer da safra. Temos colheita em todos os meses e cada uma sofre impacto.” A redução esperada deve ser de 8 a 16 milhões de toneladas. Além da quantidade, dificilmente deve-se repetir a performance da safra passada em relação à quantidade de produto por tonelada de cana. Deve-se perder de 2 a 3 kg de ATR por tonelada de cana processada.

Padua reafirma que a crise econômica que assolou o setor é antiga e que os investimentos, como mudança de canavial, são de longo prazo. Para 2018/19, sete unidades de operação devem ser reduzidas, frente às 276 da última safra. Por questões de mercado, esta safra deve ser mais alcooleira, mesmo que haja redução na quantidade de cana a ser processada e na qualidade de matéria prima. “Não haverá redução na oferta de etanol. Haverá maior contingente de cana para produção de etanol em detrimento ao açúcar pelo excesso mundial e pelo preço inferior do açúcar.”

Em março de 2018, o total de etanol comercializado pelas empresas da região Centro-Sul somou 2,23 bilhões de litros, sendo 79,02 milhões de litros para exportação e 2,15 bilhões de litros para o mercado doméstico. No mercado doméstico, as vendas de março alcançaram 773,41 milhões de litros de etanol anidro produzido no Centro-Sul do País. As vendas internas de hidratado totalizaram 1,38 bilhão de litros de etanol hidratado, registrando impressionante crescimento de 29,69% em relação aos 1,06 bilhão de litros vendidos no mesmo mês de 2017.

O consultor sênior em Gerenciamento de Risco – Açúcar & Etanol da INTL FCStone, Murilo Aguiar, comenta que, devido ao volume acumulado de chuvas desde outubro do ano passado superar tanto a média histórica como o registrado no ciclo anterior, nos principais estados canavieiros, a disponibilidade hídrica não se configura como uma preocupação, auxiliando no bom desenvolvimento da planta. “A área disponível para colheita deve apresentar ligeiro aumento (0,2%) em relação ao ano passado devido à redução de zonas de renovação da cana. Contudo, sabe-se que a baixa renovação, ausência dos tratos culturais devidos e baixos investimentos nas últimas safras mantém elevada a idade dos canaviais, sendo um dos principais fatores de alerta para o setor.”

Com esse cenário, a INTL FCStone reduziu a estimativa de moagem em 2018/19 para 590,7 milhões de toneladas, 1% abaixo do previsto para o ciclo recém-finalizado. “Tal volume, em caso de concretização, configuraria como a menor moagem desde 2014/15, safra afetada por forte seca em São Paulo. Ainda, a concentração de açúcares na cana tem registrado níveis decepcionantes nas primeiras usinas que iniciaram a moagem, sendo atribuída à colheita precoce de alguns talhões e também à elevada idade dos canaviais. Desse modo, reduzimos nossa previsão de ATR médio para 135 kg/t, o que também representa 1% abaixo na comparação com 2017/18.”

Economia

Murilo Aguiar avalia que o atual contexto do cenário econômico brasileiro é positivo para 2018, com o PIB total projetado para um crescimento pouco abaixo de 3%. Contudo, para o setor sucroalcooleiro as projeções não são tão otimistas, principalmente devido à derrocada dos preços internacionais do açúcar, reflexo de um elevado aumento de oferta nos players do hemisfério norte (notadamente Índia, Tailândia e União Europeia), causando a formação de um superávit projetado pela INTL FCStone de 6,9 milhões de toneladas no ciclo mundial 2017/18 (findo Set/18).

De acordo com um levantamento feito pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), a safra recém finalizada deve ter faturamento total ao redor de R$ 90 bilhões, uma redução de 8% frente ao ciclo 2016/17 e abaixo do endividamento total do setor (estimado ao redor de R$ 100 bilhões). “Assim, além da recuperação econômica incentivar o consumo dos produtos, o setor conta com a ajuda do novo programa do governo para voltar a crescer, o RenovaBio (Plano Nacional de Biocombustíveis).”

Plínio Nastari, presidente da Datagro, consultoria especializada em açúcar e etanol, comenta que, o começo da safra 2018/19 na região Centro-Sul tem sido marcado pela acentuada retração do preço médio do etanol, anidro e hidratado. “Em virtude da necessidade de recompor o fluxo de caixa vis-à-vis, o quadro baixista no mercado de açúcar, muitas usinas foram levadas a antecipar o início das operações a fim de aproveitar os preços ainda atrativos do etanol no início do mês de março, por mais que as condições dos canaviais não tenham alcançado o ponto ideal de colheita.” Segundo o indicador Datagro, o preço médio do etanol hidratado no estado de São Paulo fechou a R$ 1,522/litro (sem impostos) em 16 de abril, totalizando queda de 21,0% nos últimos 20 dias. Em menor proporção, o anidro também vem sendo negociado em baixa cotado no último dia 16 de abril a R$ 1,707/litro (sem impostos), recuo de 12,1% em vinte dias.

Segundo o consultor, o mercado enfrentou dificuldades para conter a erosão dos preços, apesar do prognóstico de um balanço de oferta e demanda mais apertado no mercado interno. “Contudo, em função do efeito manada nas negociações, ou seja, com receio de maior queda do mercado, os produtores têm elevado as ofertas no spot em uma operação conhecida como ‘da-mão-para-boca’, o que pressionou ainda mais as cotações, apesar do bom ritmo de vendas de hidratado nos postos.

A falta de sustentação de preços no mercado é afetada também pela ausência de transmissão de parte da recente queda do preço para o consumidor. Enquanto nos últimos vinte dias o preço médio do hidratado despencou 21,0%, o valor do hidratado negociado nos postos de combustíveis no estado de São Paulo seguiu praticamente estável a R$ 2,848/litro na semana finda em 13 de abril, leve variação negativa de 0,9% no mesmo intervalo, conforme a ANP, permitindo um ganho marginal na paridade na bomba com relação ao preço da gasolina para 71,1%”, analisa Nastari.

Açúcar

Desde o começo da entressafra, momento ao qual o açúcar NY#11 rondava a região dos 15 c/lb na bolsa, até hoje, a commodity já desvalorizou o equivalente a 17% em dólares e ao redor de 15% em reais (compensando pela desvalorização recente do Real), colocando-se até abaixo do custo de produção para o curto-prazo. Em caminho contrário, o etanol passou a ter uma importante valorização nos últimos meses (+20% para o hidratado desde outubro de 2017), acompanhando diretamente as valorizações do petróleo na medida com que os reajustes diários de preços da gasolina pela Petrobras se deram diariamente (a partir de julho de 2017). Nesse sentido, a valorização do combustível fóssil aliado à aproximação de entressafra de cana-de-açúcar trouxe sustentação aos preços do etanol hidratado, aumentando o incentivo às usinas em priorizar tal produto em detrimento ao açúcar, é o que explica Murilo Aguiar. “Como resultado, a exportação de açúcar VHP, por exemplo, remunera atualmente 28% menos que a venda doméstica de hidratado no estado de São Paulo. Assim, em vista desse diferencial, nós da INTL FCStone estimamos um mix produtivo para o etanol de 58,5%, mais etanoleiro do que na última safra (53,5%), com uma produção total de etanol de 28,2 bilhões de litros, sendo 17,2 bi para o hidratado e 11,0 bi para o anidro (sem considerar nesses valores o volume de etanol de origem do milho, que deve somar 900 milhões de litros).”

Devido à leve redução da moagem, redução da produtividade e maior mix voltado para o etanol, a produção de açúcar total é estimada pela INTL FCStone em 31,5 milhões de toneladas, ou seja, redução de 12,5% frente à safra 2017/18. Quanto ao volume estimado de exportação nós não temos um número oficial. Contudo, se levarmos em conta a safra 2014/15, na qual produziu-se volume semelhante de açúcar (31,2 milhões de toneladas), a exportação deve rondar número próximo do exportado naquela safra (22,2 milhões de toneladas), podendo ser menor a depender do aquecimento de consumo interno de alimentos puxado pelo crescimento econômico brasileiro no decorrer desse ano.

Aumentar  produtividade é desafio constante

O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar. São 657 milhões toneladas colhidas na safra 2016/2017, quase o dobro da Índia, que produziu aproximadamente 350 mil toneladas. Na safra 2017/18, a cultura ocupou 9 milhões de hectares. Neste cenário , um fato ainda preocupa muito as usinas, pesquisadores e consultores do setor: a produtividade que não cresce como exige o aumento da demanda por matéria-prima. A produtividade média da lavoura canavieira segue em torno de 73 toneladas por hectare. Aumentou nos últimos ,mas precisa ser melhor.

A redução de investimentos em adubação, controle de pragas e na renovação dos canaviais é a grande culpada.  A baixa produtividade é um desafio enfrentado não apenas pelas empresas do setor, mas também por institutos de pesquisa e universidades.

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) é responsável por um dos três programas de melhoramento genético da cana-de-açúcar do país, juntamente com a Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa) e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

 Além dos avanços em biotecnologia, a área de P&D do CTC dedica-se a outros três projetos: tecnologia de etanol celulósico ou de 2ª geração (E2G), produzido a partir da biomassa da cana (palha e bagaço), novos sistemas de plantio e melhoramento genético convencional. Já são 87 novas variedades desenvolvidas pela equipe dedicada ao Programa de Melhoramento Genético (PMG) da cana do CTC. Por meio do cruzamento de diferentes variedades, um processo conhecido como hibridação, os pesquisadores fazem a combinação de plantas chamadas parentais com o objetivo de obter, após várias combinações, uma terceira planta com características superiores àquelas que lhe deram origem.Existem no Brasil mais de 500 variedades comerciais de cana, sendo que 15 ocupam 80% da área cultivada no Centro-Sul, a principal região produtora do país, responsável por mais de 90% da safra nacional – o restante está no Nordeste. Dessas 15 variedades principais, sete foram desenvolvidas pelo CTC, que responde por cerca de 30% da área plantada no país.

Variedades mais fortes

A busca por variedades que sejam mais resistentes ao clima e ao ataque de pragas é constante. Um exemplo é que mais de 4.000 variedades compõe o mais completo Banco de Germoplasma de cana-de-açúcar do mundo, na estação de hibridização do CTC em Camamu (BA). Ali são realizados os cruzamentos dirigidos para cada uma das regiões canavieiras do País. Rigorosos testes de inoculação são conduzidos para selecionar apenas as variedades que tenham conhecida resistência à principais doenças. Também são empregadas avançadas técnicas de biotecnologia para identificar características desejáveis por meio da análise do DNA das variedades. Segundo matéria recente da Agência Reuters, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) deve submeter à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) até duas variedades da planta resistente à broca na safra 2018/19. Elas se somariam à Cana Bt, a primeira geneticamente modificada do mundo aprovada para uso comercial por um órgão oficial de biotecnologia. A Cana Bt, que tem tecnologia do CTC, aprovada pela CTNBio no ano passado, também é resistente à broca, inseto que gera prejuízos de 5 bilhões de reais por ano à indústria brasileira em perdas de produtividade agrícola e industrial, qualidade do açúcar e custos com inseticidas, segundo a informações divulgadas pela empresa para a Reuters.

 

Ana Flávia Marinho-Canal-Jornal da Bioenergia