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Biogás é aliado da atividade agropecuária

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O biogás é uma mistura de gases composto principalmente por metano e dióxido de carbono. Ele é obtido por meio da degradação da matéria orgânica existente em diferentes materiais, os chamados substratos. Este processo é provocado pela ausência de oxigênio, onde existe a proliferação de micro-organismos que degradam o material ocorrendo a formação do biogás.

Como se trata de um processo natural, diversos resíduos orgânicos da agropecuária e da indústria podem ser aproveitados como matéria-prima do biogás. Da agropecuária são utilizados os dejetos da produção animal, do beneficiamento agroindustrial, restos de processos do setor sucroenergético – palha, bagaço, torta de filtro e vinhaça-, restos de mandioca, além de resíduos sólidos urbanos. “Mas antes de se iniciar a produção é recomendada a análise do potencial de produção de biogás de cada o material, pois isso pode variar conforme as características de armazenamento, manuseio e condições climáticas da região”, explica Diretor de Desenvolvimento Tecnológico do CIBiogás, Rafael Gonzalez.

As atividades agropecuárias são conhecidas por seu impacto ambiental. Segundo o estudo, chamado Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o Brasil registou crescimento de 8,9% nas emissões em 2016 em comparação com 2015. E o principal responsável pelas emissões de gases estufa no país, hoje, é a atividade agropecuária: sozinha, ela respondeu por 74% das emissões nacionais no ano passado.

Segundo a Associação Brasileira de Biogás e de Biometano (ABiogás), o biogás pode ser um forte aliado  na transformação dos passivos ambientais dessas atividades em ativos energéticos e  também na redução da pegada de carbono através da substituição do diesel por um energético limpo e renovável: o biometano.

Para o Diretor da CIBiogás, o biogás tem papel fundamental no desenvolvimento do país e do Brasil, já que em 2016 o agronegócio representou 22% do Produto Interno Bruno (PIB) do país. “Entretanto, para que o agronegócio brasileiro mantenha os resultados positivos e se torne o maior exportador de proteína animal do mundo, é preciso garantir a segurança energética e a segurança ambiental deste importante segmento da nossa economia”, explica.

Para ele, a destinação correta dos dejetos e resíduos agroindustriais e da produção agropecuária  precisam estar contempladas para garantir o desenvolvimento sustentável do agronegócio e manter a competitividade que o setor necessita, especialmente no processo de exportação.  Neste sentido, o biogás é uma ótima opção, transforma os resíduos em ativo energético e econômico.

A produção

De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), existem 128 MW instalados para geração de energia elétrica, sendo somente 5% desse total no setor agropecuário. No entanto, existem muitos empreendimentos nesse setor que não estão conectados no Sistema Interligado Nacional (SIN), além de algumas unidades de biometano.

Esta produção é capaz de abastecer uma cidade de pouco mais de 18 mil habitantes, mas de acordo com a ABiogás, o setor tem a possibilidade de atender de quase 70 bilhões de metros cúbicos (m3) por ano.  As fontes seriam oriundas do setor de saneamento com 6 milhões de m3/dia m3; 14 milhões de m3/dia são do setor de alimentos; e 50 milhões de m3/dia são do setor sucroenergético.

A CIBiogás desenvolveu uma ferramenta que possibilita a visualização das unidades de produção e do uso energético de biogás no país em um mapa dinâmico, público e online.  O BiogasMap tem o registro de unidades da produção de biogás no Brasil, considerando 127 unidades gerando energia elétrica, térmica ou biometano por meio da transformação de dejetos de animais, resíduos agrícolas, lixo e esgoto das cidades. Deste total, 60 unidades utilizam substratos da agricultura como matéria-prima, totalizando 47%. O levantamento foi realizado em 2015 e totaliza 1,6 milhão de Nm³ por dia.  “Além disso, temos conhecimento de inúmeras plantas que ainda não estão cadastradas na ferramenta, sendo este o próximo passo para se ter conhecimento mais detalhado da produção atual”, pontua Rafael.

O que falta?

Diferentes fatores têm influenciado neste cenário mais favorável para o crescimento do biogás no Brasil, entre eles está a consolidação da geração distribuída pela resolução normativa 687 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que aprimorou as possibilidades de uso do Sistema de Compensação de Energia Elétrica. Outro avanço importante foi o reconhecimento pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) através da resolução nº 08/2015 e posteriormente resolução nº 685/2017, que permite o uso do biometano para abastecimento veicular e para injeção na rede de gás natural.  Esta regulamentação tornou o biometano um produto comercializável.

Além disso, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), pela primeira vez, inseriu o biogás como uma fonte relevante para crescimento nos próximos dez anos, no PDE 2027. A ABiogás tem a convicção de que os 3 GW médios previstos pela EPE deverão ser facilmente cumpridos.

Segundo a Associação, os entraves são cada vez menores. Já  que existem boas linhas e financiamento e a regulamentação é adequada para quase todas as situações. Mas ainda é necessário analisar para a nacionalização dos equipamentos, com o objetivo de reduzir os custos e promover cada vez mais o conhecimento sobre as possibilidades do biogás.

No campo

Em cada Estado do Brasil, as diferentes atividades econômicas determinam a matéria- prima, ou seja,  a biomassa disponível para produção de biogás, por exemplo na região Sul do Brasil, o potencial da suinocultura é um dos destaques, dado a alta produtividade de carne suína e especialmente da concentração das propriedades em polos produtivos. Já na região Sudeste há o aproveitamento dos resíduos sucroalcooleiro. “Cada região possui uma biomassa que se destaca e a caracterização desses materiais permite o seu aproveitamento energético, considerando a importância em analisar e avaliar o potencial de cada matéria-prima individualmente e também as possíveis combinações para potencializar a produção e aumentar o destaque”, explica o diretor da CBiogás.

Em Tamboara, no Paraná, a Geo Energética está em processo de implantação de uma planta de biometano. O projeto visa produzir biogás a partir de resíduos de cana, também utilizará a vinhaça e os resíduos sólidos da cana – como a torta de filtro e palha ou bagaço. “Com isso estabilizamos a produção, ganhamos escala, produzimos o ano inteiro, inclusive na entressafra, tornando o projeto tecnicamente e economicamente viável”, explica o diretor da Geoenergética, Alessandro Gardemann.

Esta é a primeira planta a operará em escala comercial. Atualmente é gerada 4 MWs apenas de energia elétrica com a ampliação de mais  3 Mws. A planta para a produção de biogás é de 2.500nm3/dia de biometano, o que equivale a 2.500 litros de diesel por dia. A novidade é implantada em parceria com a Acesa, e entrará em operação ate o final deste ano. Ela vai abastecer a frota experimental da usina, os tornando energeticamente independentes, e também fornecerá biogás para um posto comercial.

Ainda no Paraná, em São Miguel do Iguaçu, a Granja São Pedro, mais conhecida como Granja Colombari, tem atualmente  um rebanho de 5,5 mil suínos em terminação, além da produção de grãos e produção de bovinos de corte e produz diariamente 60 m³ de efluente, que equivale a 11 litros de efluente por animal por dia.

Com a ajuda de biogestores, os efluentes dos animais são transformados em energia. Segundo o proprietário do local, o produtor rural Pedro Colombari, a energia gerada por mês varia conforme disponibilidade de operação do gerador. Na média, nos últimos seis meses, foi gerado 11,5 MW.h por mês.

A energia produzida é consumida dentro do processo produtivo da propriedade, já o excedente é encaminhado para a concessionária e abatido na conta de energia elétrica. “Mas como há muita variação nesse repasse, não é possível mensurar uma quantia exata”, explica o produtor.

A propriedade instalou o biodigestor em 2006, para a exploração dos créditos de carbono para uma multinacional e também para a produção de energia para a produção de ração no local. Nesta época, foi possível economizar de dois mil litros de óleo diesel. Mas, devido ao baixo valor deste crédito, o produtor rescindiu. Em 2008, a Granja foi pioneira e implantou o projeto de geração distribuída com a potência de 35 Kwh. No ano de 2010, o projeto foi ampliado e a geração chegou a atual potência instalada de 75 Kwh.

Com a produção do biogás, a propriedade ganhou em qualidade ambiental e econômica, reduzindo os riscos com contaminação de solo, melhorando a qualidade do ar da propriedade, além de permitir a economia em energia e em fertilizantes. “Pelo pioneirismo no empreendimento, juntamente com a parceria da Itaipu, através do CIBiogás nos  tornamos exemplo de sustentabilidade”, pontua o produtor.

 

Cejane Pupulin-Canal-Jornal da Bioenergia